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Paul Auster

Entrevista com Paul Auster

Best-seller e um dos escritores mais importantes da atualidade, o americano Paul Auster, segundo conferencista da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, participou de uma videoconferência ao vivo, transmitida direto de Nova York. Impossibilitado de viajar para fora dos Estados Unidos por conta de uma emergência familiar, ele conversou com o jornalista Daniel Scola e falou sobre criação literária, dilemas, Nova York, os processos de elaboração de seus livros e a busca por respostas para compreender o universo e os sentidos da vida.

Autor de livros de poesia e de não ficção, tornou-se reconhecido mundialmente após lançar romances como A trilogia de Nova York, Sunset Park e Homem no escuro. Para Auster, a busca por um sentido para a vida e para uma explicação sobre as nossas origens e os mistérios do mundo não está nas respostas. “Desde o momento em que somos muito jovens, fazemos estas grandes perguntas: por que eu estou aqui? Como é que cheguei aqui? Por que o mundo está aqui? O que é o mundo? O mundo é real ou o estou imaginando? Lembro de que, quando era um menininho, tinha esses pensamentos o tempo todo. E, às vezes, me perguntava, por exemplo, se o nosso mundo, se nós pudéssemos reconsiderar o universo, se realmente tudo isso não está dentro de uma jarra, numa prateleira de uma casa de um gigante. E nós somos apenas um mundinho lá dentro, ao lado de muitos outros mundos dentro de jarras. E o que isso diz a respeito de nós? Talvez que somos muito menores e menos importantes do que achamos que somos. Todas as possibilidades do que é a vida, no final, levam – de novo – não a respostas, mas a mais perguntas. E eu acho que esta é a beleza da vida humana, do esforço humano. É continuar fazendo as perguntas.” Para ele, este questionamento contínuo é a missão de artistas, mas também de filósofos, cientistas e matemáticos.

Nascido em Newark, Auster é morador de Nova York há muitas décadas e faz da cidade o principal cenário de seus livros, considerando a metrópole como um dos grandes laboratórios da experimentação humana no mundo. “Para mim, a melhor coisa de Nova York é a sua variedade. É a variedade de pessoas. Porque você caminha nas ruas e vê coisas inesperadas, e escuta coisas que não esperaria escutar em nenhum outro lugar. Devido a isso e o que torna tudo isso possível é que, de forma geral, em Nova York existe uma certa tolerância. Porque você não pode colocar tantas pessoas diferentes juntas e esperar que não haja conflito. Claro que há conflitos. Étnicos, raciais, de todos os tipos. Mas, para as pessoas viverem juntas, neste espaço pequeno, amontoadas, têm que tentar se dar bem. Tolerar uns aos outros. E aceitar a alteridade do outro. O que é um problema, como vocês sabem, em muitas partes do mundo, nas quais as questões religiosas, étnicas e raciais geram divisões e atrocidades.”

Auster também roteirizou, produziu e codirigiu algumas produções cinematográficas, como O Mistério de Lulu, Cortina de Fumaça e Sem Fôlego. Segundo ele, literatura e cinema são meios diferentes de contar uma história e de lidar com a imaginação. “A minha visão sempre foi o oposto do que intuitivamente as pessoas pensam: sim, um filme é tão real. E os livros são só palavras. O que são palavras? São marcas num pedaço de papel. Então, claramente, os filmes parecem mais reais. Mas eu acho que é o contrário. Acho que os filmes são completamente artificiais. Eles tentam simular algo que se assemelha ao real. Enquanto que a ciência dos livros, as palavras, se você se abrir para isso e, realmente, permitir que elas falem com você, conversar, ouvir a sua música, e pensar sobre elas, elas começam a colocá-lo num local onde você se sente mais vivo do que quando você não está lendo um livro. É algo muito estranho.”

Por conta do seu processo de escrita, no qual escreve à mão e utiliza uma máquina de escrever para datilografar os originais, o escritor se considera à margem da influência da internet e das redes sociais. No entanto, não deixa de estar atento e avaliar a influência que o digital tem nas nossas vidas. Um aparelho como o smartphone nos torna, instantaneamente, o centro do universo. E hipnotiza nossos olhos para uma tela brilhante, distanciando as pessoas em vez de aproximá-las. E, ao mesmo tempo, pode servir de instrumento para alterar alguns caminhos da sociedade. “Podemos entrar em consequências políticas mais sérias na internet. O que nós estamos vendo é, em primeiro lugar, sim, algo que pode ser uma força para a democracia, para unir as pessoas. Mas também pode ser uma força para reunir loucos. Gente louca que tem ideias estúpidas e absurdas sobre o mundo. Eu não quero falar sobre política. Então, vamos dizer que você acredita que a Terra é plana. E Galileu, Copérnico, tudo é invenção. Feito o que as pessoas da antiguidade acreditavam. Seus amigos lhe dizem: ‘Você é burro, como você fala isso? Todo mundo sabe que isso não é verdade’. Mas aí você, o único crente na Terra plana, entra on-line e encontra outras pessoas que acreditam nisso. E, de repente, vocês começam a conversar. E, muito em breve, vocês têm um movimento. O movimento da Terra plana. E aí, depois de um tempo, podem ficar bem revoltados e começar a ficar desgostosos com a maneira como as coisas são. Daí, toda vez que alguém fala de uma Terra redonda, você fala: ‘Viu? O mundo é injusto para as pessoas da Terra plana. Nós deveríamos tomar uma ação política para conseguir nos expressar politicamente com assertividade’. Vocês percebem? Este é um risco.”

Auster explicou que, na história do mundo, o romance é um formato relativamente novo, originado há 300 anos. E que, na forma de livro impresso, ainda está entre a preferência dos leitores, mesmo com os gadgets e as facilidades dos e-books. “A tecnologia dos livros antigos, na verdade, é muito boa, porque é portátil, é leve, e as páginas têm a vantagem de que você pode ir para trás e para frente de maneira rápida, muito mais rápida do que no computador. Se você quer voltar para a página 16, pode voltar rapidamente. Em um computador, às vezes você nem tem o número das páginas, ele apenas diz ‘agora você leu 43% do livro’. Então, você não pode colocar o seu marcador onde quer, não pode assinalar, fazer marcas, rabiscar nas suas páginas. Eu não acho que os livros em papel irão sumir, porque são bons e funcionam.” 

Assim, o livro ainda é um meio que possui uma aura de poder e de mudança. E é nisto que reside a sua relevância: no fato de que todos os seres humanos têm necessidade de histórias. “A maneira mais interessante de se observar isso é tentar imaginar um mundo sem histórias. Você não consegue, porque cada cultura, desde o início da sociedade mais primitiva da humanidade, contou histórias sobre o nascimento do mundo, sobre o nascimento do seu povo, histórias explanatórias, tentando fazer sentido no mundo, porque o mundo é um lugar muito misterioso, confuso e, muitas vezes, assustador. E nós escrevemos histórias para nos guiar, para uma compreensão mais profunda do que está à nossa volta. As histórias trazem coerência quando lá fora tudo é caos. Essa claridade da “contação” de histórias nos ajuda a compreender o caos melhor do que se nós não tivéssemos esse instrumento disponível. Então, por fim, não importa para mim se as pessoas estão lendo na tela, ou ouvindo um audiobook ou o que for, mas as histórias. As histórias são o que interessa, e, quanto melhores forem as histórias, melhor para todos nós.”

E de onde se originam as ideias para a produção de um livro? De acordo com Auster, elas vêm de suas próprias experiências e de sua observação do mundo. “Normalmente, para mim, me leva muito tempo para ter alguma ideia para um livro. Frequentemente, alguma coisa vai acontecer, eu vou escutar alguma coisa, vou escutar um ritmo, e vou dizer: ‘Ah, isso é interessante? E que tal isso?’. E daí eu penso um pouquinho mais e deixo, não forço, eu espero que as coisas venham para mim. E, aos pouquinhos, no decorrer de semanas, meses, ou até mesmo anos, às vezes me leva 15 anos para conseguir escrever um livro sobre o qual eu comecei a pensar. E o fato é que normalmente eu não quero fazer isso, não quero fazer, simplesmente, mas aí a ideia se torna tão forte, tão poderosa, que ela me coloca em um canto e diz: ‘Você tem que me escrever, tem que fazer isso agora’. E aí eu faço. Então, escrevo tão forte, rápido e profundamente quanto posso. E não consigo falar o quão exaustivo é para mim escrever. Todos os dias eu passo oito horas na minha sala, e escrevo por oito horas. Se eu conseguir tirar uma página dessas horas que seja decente, não preciso nem ter finalizado, já digo que foi um dia bom de trabalho, porque o trabalho da escrita é fazer parecer fácil para o leitor, não é?”

E, dentro do processo criativo, Auster dirige os seus textos para um leitor desconhecido. “Eu escrevo para um outro imaginário. Para um leitor, uma pessoa que eu não conheço. Nunca escrevo para ninguém. Eu escrevo para uma pessoa que não conheço e nunca vou conhecer. Para um estranho no mundo. Um outro ser humano, um companheiro ser humano. A arte é um presente. Um presente que uma pessoa dá para outra. E o que é incrível a respeito do livro, diferentemente dos filmes, teatro, dança, é que é só uma pessoa que o faz por vez. Então, não são 500 pessoas sentadas num teatro olhando uma peça ou um filme. É uma pessoa. E é por isso que eu sempre sinto, sempre senti, que o romance é o único local no mundo no qual dois estranhos se encontram em termos de intimidade absoluta. É o único local em que eu posso pensar que isso acontece. Porque o escritor coloca ali tudo o que ele tem para o leitor, e o leitor abre e recebe isso. E se houver uma conexão, se o escritor for bem-sucedido em comover o leitor, é um círculo mágico que é criado. Minha mulher – a brilhante Siri – diz sempre uma coisa incrível. Ela diz: ‘A arte é como o sexo: se você não relaxar, não vai gostar’.”

Crítico do presidente americano Donald Trump, o escritor considera que, durante o mandato, já foram registrados muitos ataques às fundações e instituições do país. Danos que ele espera que não sejam permanentes. “Estas instituições nos pareceram tão sólidas por tantos anos que nós pensamos que eram prédios de granito. Em uma entrevista na Alemanha, eu disse para o entrevistador: ‘E se todo esse tempo os prédios, na verdade, fossem feitos de sabão?’. E aí Trump e seus companheiros chegaram e ligaram as suas mangueiras nesses prédios. E eles começaram a derreter. E nós temos este sabão correndo pelas ruas. E os prédios diminuem, diminuem. Depois desses anos, posso dizer que os prédios não estão tão altos quanto estavam há dois anos e meio. Eles têm feito este ataque sistemático a todo o sistema americano de governo. E, além disso, o apelo desse lunático é tão pernicioso que está influenciando pessoas de outros países. Líderes de outros países a seguir o seu exemplo. E eles o estão fazendo. E eu não preciso citar nomes. Vocês sabem de quem estou falando. Isso me assusta. Então, vamos ver o que acontece.”

Nas últimas considerações, Auster indicou o trabalho de outros escritores, como J. M Coetzee e Don DeLillo, além é claro, de sua esposa Siri Hustvedt, escritora americana de origem norueguesa. “Eu tenho que dizer que é uma das maiores escritoras vivas hoje em dia. E é muito interessante e muito forte o que está acontecendo. Ela ganhou três prêmios literários por um livro de não ficção chamado The delusions of certainty, que fala sobre levitação. Ela ganhou um grande prêmio em Nova York, de muito prestígio. É a quarta mulher em 44 anos a ganhar este prêmio. Ela ganhou um prêmio da Academia Americana de Artes e Letras. E eu não tive nada a ver com isso, pois não estava no comitê que entregou o prêmio. E, recentemente, ganhou o Prêmio Princesa das Astúrias, o mesmo que eu ganhei anos atrás. Então, três prêmios em algumas semanas. Eu estou muito orgulhoso, é claro. E também possui um romance novo – Memories of the future –, que ainda não tem uma versão em português. Mas é incrível. E o romance anterior dela – O mundo em chamas – também acho que foi uma obra de arte. Ela tem toda a minha admiração. E eu moro com ela, é incrível, nos últimos 38 anos”, finalizou. 


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