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Paul Auster

Entrevista com Paul Auster

Best-seller e um dos escritores mais importantes da atualidade, o americano Paul Auster, segundo conferencista da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento São Paulo, participou de uma videoconferência ao vivo, transmitida direto de Nova York. Impossibilitado de viajar para fora dos Estados Unidos por conta de uma emergência familiar, ele conversou com o jornalista Marcelo Tas e falou sobre criação literária, internet, dilemas, os processos de elaboração de seus livros e a busca por respostas para compreender o universo e os sentidos da vida.

Autor de livros de poesia e de não ficção, tornou-se reconhecido mundialmente após lançar romances como A trilogia de Nova York, Sunset Park e Homem no escuro. Para Auster, o desenvolvimento do seu trabalho literário foi lento e gradual. O primeiro texto de A trilogia de Nova YorkA cidade de vidro – foi rejeitado por 17 editoras. “Eu não sabia o que fazer. Só sabia que tinha que continuar escrevendo. Então, esperava melhorar. Consegui escrever o segundo livro da trilogia e não tinha conseguido um editor para o primeiro livro. Mesmo assim, comecei o terceiro livro. Estava na metade do terceiro livro quando o primeiro foi aceito por uma editora pequena, que nem era em Nova York. A trilogia de Nova York foi publicada em Los Angeles, na Califórnia. E eu posso dizer que o que recebi de dinheiro para começar foram 100 dólares por cada livro. Agora, a trilogia já foi traduzida em 45 idiomas. E fico pensando nas 17 editoras que não queriam me publicar. Na época, fiquei muito desconfiado do julgamento literário dos assim chamados ‘profissionais de literatura’. Esta experiência de não ter sido compreendido me ensinou que você precisa baixar a cabeça na vida. E continuar concentrando-se no que precisa fazer e sem se distrair.”

Ele explica que a arte não é apenas um manifesto ou uma arma política. Mas que o romance, que surgiu a partir do século 18, é muito democrático. “Um romance é o tipo de livro que não é um épico, não fala de heróis. Fala de pessoas normais, simples, pessoas que leem como os leitores dos meus livros. Portanto, num romance cada vida de cada pessoa é interessante. Mesmo a menor das vidas e mais insignificante. Quando você entende isso sobre o mundo, está fazendo uma declaração sobre a igualdade dos seres humanos. E acho que este é o ato fundamental quando se escreve ficção. No meu romance 4321, falo sobre a época de 1960 e os protestos. Mas falo mais das vidas interiores. E as suas variações: quatro vidas de uma mesma pessoa. Que tem muito a ver com a vida interna e o mundo social. Então, é tudo junto, como são as nossas vidas. Não é? Tudo de uma vez que acontece. Nós não somos criaturas apenas políticas. Temos vários tipos de criaturas dentro de nós.”

O escritor explicou que escrever é um ato doloroso. E, na maioria das vezes, está relacionado à necessidade de se aprofundar em questões e lugares onde não se quer ir. “Muitas vezes, em lugares de emoção muito intensa ou uma miséria, ou uma tristeza muito profunda. E é muito doloroso você entrar dentro de si. Atos de violência, sentimento de perda, o falecimento de pessoas amadas. Todas as emoções que fazem parte das nossas vidas. É muito difícil lidar com isso. Mas, se você não consegue ter a coragem de enfrentar esses atos difíceis, você não deveria ser escritor. Porque emocionalmente isso é uma coisa cansativa. No final do dia, fico exausto. Às vezes, só consigo escrever uma página em oito horas de trabalho sem parar. É uma coisa que, para mim, exige esforço.”

Num processo de trabalho totalmente off-line, Auster não tem celular, não utiliza o computador e um iPad serve de apoio para pesquisas pontuais. Ele escreve parágrafo a parágrafo à mão e, após finalizar, datilografa o trecho numa máquina de escrever. “Primeiro eu escrevo à mão, com uma caneta num caderno. Pode ser um parágrafo de cinco ou 50 frases. Eu trabalho, trabalho aquele parágrafo. Pode me levar o dia inteiro. Oito horas. Quando acho que terminei o parágrafo, aí eu datilografo na minha máquina de escrever. Uma máquina antiga que tem 60 anos, mas funciona e nunca quebrou. Está perfeita. Então, eu datilografo tudo. Não é uma coisa com bateria, com eletricidade. Quando termino, pego este script já datilografado e contrato uma pessoa para digitar no computador. Então, tenho oportunidade de ler várias vezes e fazer as correções até o último minuto.”

Ao mesmo tempo em que o escritor mantém um posicionamento pessoal neutro sobre o uso das novas tecnologias, ele se mostra pessimista a respeito das mudanças provocadas pela Revolução Digital. “Nós continuamos ficando doentes e morremos. Na verdade, não mudou nada. Mas o que eu tenho percebido, conforme os anos têm passado, é que aquilo que era para nos unir, na verdade está nos separando. Estive em Paris, há alguns anos. Andando. E Paris é uma cidade tão maravilhosa para passear a pé. Pessoas muito bonitas, se beijando na rua. Como qualquer cidade europeia. É um clima muito agradável. E, de repente, vejo aquele casal, andando e com o olhar fixo nas mensagens dos celulares. Ou se entro num restaurante no Brooklyn, vejo uma família inteira. Os avós, os pais, os filhos, os netos. Todos sentados numa mesa, olhando os seus telefones celulares, sem conversar. Acho assustador. As pessoas não conversam mais, como antigamente. E acho que elas se sentem muito mais isoladas do que antigamente.”

Além da questão comportamental, a internet também pode gerar mudanças políticas pontuais e graves. “O que nós observamos são as coisas erradas, desinformação, informações erradas que foram criadas. E a união de pessoas totalmente malucas que, agora, se juntam e formam movimentos políticos sobre as suas ideias malucas. Então, eu não sei o que vai acontecer. Às vezes, penso que seria muito bom se os governos parassem de usar os computadores para guardar todos os seus documentos.”

Segundo Auster, contar uma história é um impulso muito antigo na trajetória da humanidade. E as pessoas são ávidas por histórias. Isso faz parte da psiquê humana e imprime um poder ao livro. “Como eu disse já cem vezes: um livro, um romance, é o único lugar no universo onde duas pessoas totalmente estranhas, desconhecidas, se encontram numa intimidade absoluta. O escritor e o leitor. Juntos, eles fazem o livro. Então, é um empreendimento mútuo. Um precisa do outro. E nós dependemos um do outro para fazer a história. É um domínio fascinante, e a gente inventa. Uma coisa extraordinária o ato de escrever e de ler.”

Auster discorda de que seus livros abordam a questão da busca pela identidade. Defendeu que seus personagens são, geralmente, confrontados por grandes crises. Assim, relembrou um episódio marcante de sua vida, acontecido quando tinha 14 anos. Num acampamento de verão, durante uma tempestade, ele viu um menino, logo à sua frente, ser atingido por um raio ao tentar atravessar uma cerca de arame farpado. O episódio é a única referência autobiográfica usada por Auster no romance 4321. “Eu estava atrás, a centímetros desse menino na minha frente. Quando ele tinha passado pela metade o corpo no arame farpado, o raio atingiu a cerca. Ele morreu em um segundo. Um menino de 14 anos, que estava vivo, tinha a vida pela frente, de repente estava morto. Então, eu estava tão perto dele que poderia ter tocado nele. Eu não sabia que estava morto. Eu nunca tinha visto uma pessoa morta. Então, o arrastei para dentro da clareira e fiquei lá sentado com ele, por uma hora e meia. Na chuva, no meio dos raios e do temporal, e dos trovões. E fiquei fazendo massagem para trazê-lo de volta à vida. Até então eu achava que estava andando a vida inteira em lugares muito sólidos. Sabia o que esperar da vida. Achava que era tudo conhecido. E, de repente, uma nova revelação: qualquer coisa pode acontecer com qualquer pessoa, a qualquer momento da vida. Se você entender isso, vai compreender como a vida é frágil. Como é difícil poder contar com as coisas. E como é instável o caminho das nossas vidas.”

Falando sobre a literatura como propósito de vida, Auster contou que, até os 14 anos, imaginava que seria jogador profissional de beisebol. Mais velho, acabou desistindo. “A gente tem que ter um sonho, mas tem que ser um sonho meio realista. O realismo de um sonho parece contradição, não é? Mas aquilo de que você gosta muito, muitas vezes aquilo que você sabe fazer bem, se você continuar se aperfeiçoando, se dedicando, vai melhorando na prática. Agora, para qualquer coisa ou qualquer sonho, você precisa querer dar duro, porque talento não é suficiente. Talento é a base de tudo, mas, se você não trabalhar nele, tentar melhorar sempre, não vai conseguir se desenvolver e vai ficar muito desapontado.”

Também abordou, com orgulho, sobre os prêmios recentes recebidos por sua esposa, a escritora americana de origem norueguesa Siri Hustvedt. “Preciso dizer isso: nós compartilhamos tudo. Tudo que eu escrevo, leio para ela, e tudo que ela escreve eu leio, e a gente comenta, faz sugestões sobre o trabalho. Nós confiamos tanto um no outro que eu sempre sigo a sugestão dela, ela sempre tem razão. Acho que ela leva muito a sério meus comentários também, porque, se você acredita no trabalho do outro, precisa ser honesto. Isso é usar criticismo construtivo. Mas precisa sempre começar com admiração e respeito, para depois fazer os comentários. As pessoas dizem: ‘Deve ser horrível ser casado com uma outra escritora’. É o oposto, é maravilhoso.”

Em seu processo criativo, Auster mantém a atenção a tudo que acontece ao seu redor, como fonte de inspiração. Especialmente na relação com as interrupções que a vida sofre. “Coisas imprevistas acontecem com muita regularidade. O acaso é uma coisa que nós não queremos aceitar. Quando ele acontece, falamos que não é justo, que não deveria ser assim. Só que as coisas são assim, e é sempre o imprevisível. Eu quero falar sobre o mundo em que coisas imprevisíveis fazem parte da composição da realidade. Mas nem tudo se resume ao acaso ou à oportunidade. Nós temos o desejo e a vontade, temos a capacidade de tomarmos a decisão, e podemos determinar objetivos, olhar para o futuro e fazer um plano. Por exemplo, você quer ser um médico, então sabe que vai ter que estudar muitos anos. Agora, eu estou interessado em uma pessoa que quer ser médico, e, de repente, ele está lá e cai uma árvore na cabeça dele. Aí ele não vai poder ser médico. Ou, de repente, você está lá na floresta, no bosque passeando, e você fala: ‘Olha é bom ser médico, mas tem outras coisas que você pode fazer. Você poderia ser um palhaço no circo. Quem sabe você quer ser um palhaço?’. Eu estou sempre interessado nas interrupções das jornadas da vida. E acho que meus livros têm muito disso. É como contos de fada, que são as melhores histórias do mundo. Eu nunca me afastei muito deles.”

No entanto, mesmo ressaltando a importância das histórias, Auster não acredita em um leitor ideal. Mas, sim, em um leitor aberto. “O leitor ideal seria uma pessoa aberta, com mentalidade aberta para o meu trabalho, que não resista. Porque, se você vem para uma obra de arte, que seja um quadro, um livro, uma música, com mentalidade fechada e uma maneira agressiva, de que não vai gostar, daí você não vai gostar. Vai dizer que Cervantes não presta. Também vai dizer que Shakespeare não é bom. Então, eu já ouvi todos esses atacados por muitas pessoas. Quero citar a minha esposa Siri, que diz algo há anos, e tem toda a razão. Ela diz: ‘Arte é como sexo. Se você não relaxar, não vai curtir’.”

Perguntado sobre como lida com a questão da finitude e da fragilidade da vida, Auster respondeu que apenas o tempo cura. “Nós somos pequenas criaturas não mais importantes do que as formigas que andam pelo mundo. Nós temos os nossos elos humanos. Acho que é só isso que temos. Nossas conexões uns com os outros. E acredito numa generosidade um com o outro. Uma vontade de se perdoar e perdoar o outro. Acho que isso é a coisa mais importante que podemos fazer. Nós, uns para os outros. Amor faz parte. Mas é mais do que amor, é compaixão. E quando você consegue sentir alguma coisa profunda por outra pessoa, aquilo que você sente por si, você está no caminho da cura. Porque a morte faz parte da vida. É algo que acontece. Não há nada que possamos fazer. Você não pode fingir que o mundo acabou. Porque não acabou. E nem acabou por você. Se você não deixar que acabe, precisa encontrar forças nos outros. Sem outros, não somos ninguém, nós não existimos.” 

E o que seria, então, a vida? “Adoraria lhe responder. Eu não tenho ideia. A vida é movimento. A vida é o que não é inerte, é o pulsar, e é um organismo com futuro, embora esse futuro possa ser curto. A vida é como você quer defini-la; eu a defino como um ser, um organismo que tem um futuro”, finalizou. 


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