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Ai Weiwei

Entrevista Especial

Ai Weiwei é um dos artistas-ativistas mais destacados da atualidade. Artista plástico, cineasta, designer e arquiteto nascido na China, é um defensor da liberdade de expressão e dos direitos humanos. Um de seus projetos mais recentes aborda a crise de refugiados, tema de seu filme Human Flow, de 2017. Neste evento especial da temporada 2018 do Fronteiras do Pensamento São Paulo, ele foi entrevistado pelo curador e diretor artístico brasileiro Marcello Dantas. Dantas é o curador da exposição Ai Weiwei Raiz, que apresenta na capital paulista (até janeiro de 2019, na Oca do Ibirapuera) toda a iconografia do artista e obras nas quais ele fornece uma interpretação da cultura brasileira. Liberdade de expressão, democracia e arte foram os principais temas da conversa.

Na primeira pergunta, Dantas contextualizou o momento eleitoral recente do Brasil e questionou o artista sobre a necessidade ou não de falar sobre política. Weiwei ressaltou que é difícil explicar o que é a arte sem mencionar política e cidadania, e que o clima de conflito é global e as pessoas deixaram de falar sobre democracia e liberdade há muito tempo. “A maioria do povo do nosso planeta ficou, assim, no escuro. E os políticos usam isso muito facilmente para ganhar popularidade. Porque eles dizem: ‘Vocês querem democracia? Tudo bem’. Mas, quando falamos sobre a necessidade de uma condição global, não há muita vantagem em ser conservador ou de direita. É difícil acreditar nisso. Porque, se você ouvir como as pessoas falam, os políticos, sobre ideologia (e eu não chamaria nem de ideologia), verá que as ideias são muito violentas. No entanto, eles se tornam populares e conseguem a maioria dos votos em todos os países. Então, temos que questionar o nosso próprio comportamento. Nós somos uma sociedade. E temos que viver juntos. Temos que conseguir algo, que todos possam compreender e que isso possa trazer benefícios para todos.”

Dantas questionou qual seria, então, o antídoto para a intolerância e o racismo. Weiwei explicou que todos nascemos iguais, e que a sociedade deveria ser baseada nestes critérios de igualdade, mas está cada vez mais dividida e repleta de “fronteiras”. “Enquanto essas ideias de fronteiras, de divisão, de nacionalidades diferentes, de raças diferentes ou religião... Enquanto todas essas separações existirem, esse ódio, a divisão e as ideias de exclusão que existem no mundo inteiro continuarão sendo usadas pelos políticos para ganhar alguma vantagem. Eu acho isso horrível. Acho que a única coisa que poderá resolver – não resolver, mas melhorar as condições – é falar de humanidade. De se preocupar, realmente, com as pessoas que estão numa situação na qual são discriminados. Se não prestamos atenção nessas pessoas, nós nos isolamos. E nos colocamos numa situação muito difícil. Então, compaixão e compreensão são muito importantes. E os dois sentimentos protegem os direitos humanos básicos e a liberdade de expressão, duas coisas que considero essenciais. Também para entendermos a humanidade.”

O entrevistador partiu para uma nova abordagem: que parassem de falar sobre política e passassem para o tema do sexo. O artista chinês riu e declarou que acha mais fácil falar de política do que de sexo. “Acho que aqui no Brasil tem muita imaginação erótica. Eu sinto aqui um erotismo. As pessoas vêm para cá e, muitas vezes, têm sonhos selvagens. Muito diferentes. É muito estranho. Eu já sou uma pessoa idosa, e nunca tive esses sonhos. Agora que cheguei aqui, já tive uns sonhos estranhos, eróticos. Então, deve ser a temperatura, o clima ou a umidade. Ou alguma coisa assim. Ou talvez um mosquito que me mordeu, não é? Mas eu tenho esses sonhos aqui desde que eu cheguei ao Brasil. Dessa forma, acho que resolvi colocar isso num formato sólido. E é por isso que eu fiz a representação de uma menina brasileira e eu”, referindo-se a uma das obras que será exposta aqui no País e que retrata a sua nudez e a de uma modelo.

Dantas perguntou sobre processo criativo e o desenvolvimento de ideias, especialmente se já aconteceu de o artista ficar sem novas ideias. “Estou ficando sem ideias agora. Exatamente agora. Porque as ideias só vêm quando você tem problemas, quando você está sofrendo com alguma coisa. Ou quando você tem obstáculos na vida. Quando tem dificuldades na vida, você vai pensar: ‘Bem, talvez isso não seja o final da minha vida, mas sim uma nova oportunidade’. E é por isso que eu tenho tantas ideias. Só porque eu tenho tantos problemas na minha vida. Agora, uma pessoa que não tem problema nenhum, muitas vezes também não tem muitas ideias. Você não precisa lutar para sobreviver.”

Os dois conversaram sobre o conceito de liberdade na China. “Eu acho que o entendimento da liberdade, a compreensão, é muito limitada. Não é só na China. No Ocidente todos dizem que aqui há mais liberdade. Mas é uma mentira. Porque eu acho que não pode haver liberdade dada por uma pessoa. Não. A liberdade se conquista com uma luta. Quando você tem que defender a sua integridade ou quando você tem que defender os seus direitos básicos. Quando você tem que defender a sua ideologia, o seu discurso. A partir disso, poderá criar a liberdade. Então, esse esforço chamado liberdade – sem isso, sem essa luta – não é liberdade. As pessoas só têm a possibilidade. Mas sem esforço pessoal não existe a liberdade.”

E, numa das partes mais emocionantes da entrevista, Weiwei relembrou o período em que ficou confinado a uma cela solitária, e os sentimentos provocados pelo encarceramento. “Primeiro, você sente que o poder mostra que você não é nada. Você é uma pessoa vulnerável. Nunca poderá se proteger. E o que você está tentando defender não significa nada para os outros. E ninguém na sociedade vai querer compartilhar as ideias. Eles podem desaparecer com você. Podem fazer você acreditar que a sua ideologia não significa nada. Isso é uma coisa muito forte para isolar um indivíduo. Em segundo lugar, quando você está isolado, não sabe o que aconteceu fora da solitária. Você não tem nenhuma comunicação, não tem direito a um advogado, nem a sua família fica sabendo onde você está. Depois de um certo tempo, a sua mente para de funcionar. Porque você está totalmente cortado, separado das experiências diárias. Seu comportamento muda. Você não precisa dormir. Você nem consegue mais dormir. Porque não tem dia e não tem noite neste tipo de cela. E eu sempre tive dois soldados – um de cada lado –, se você vai ao banheiro, o soldado vai junto. Fica do seu lado. E eles não têm direito de falar com você. Então, você não tem mais sentido de tempo. Não sabe mais o que é importante. Porque está sem comunicação nenhuma. E a sua memória também começa a se deteriorar. Porque não há nada pior. Você não consegue lembrar de nada. E é pior lembrar de alguma coisa do passado ou de outras pessoas. Você está totalmente isolado numa solitária. Você não quer lembrar de nada.”

Dantas refletiu sobre as diferenças, especialmente na arte e na tradição, de Oriente e Ocidente. E que Weiwei seria um artista de exceção por conseguir se comunicar com os dois lados do globo. Para o artista, a classificação do mundo nessas duas partes é uma ideia antiga. “Porque nós vivemos neste planeta. É uma esfera. O planeta não tem Oriente e Ocidente. Para cima e para baixo. Nós temos o polo norte e o polo sul. Mas, basicamente, eu acho que é a única diferença. E, hoje em dia, especialmente quando temos internet, existem tantas possibilidades de tecnologia para compreender essas diferenças. E também podemos aprender facilmente com o passado. Então, essa ideia do leste, oeste, está se apagando na minha opinião. Está se diluindo.”

Questionado sobre o projeto completo que será exposto na Oca e sobre a experiência em solo brasileiro, Weiwei explicou que as imagens e noções que tinha do País e da América do Sul foram herdadas do pai, que visitou o Chile e o Brasil e tinha bons amigos por aqui. “Meu pai Qing Ai, que era poeta, veio para cá na década de 1950. E eu tenho muitos poemas que ele escreveu sobre a América do Sul. E ele fez boas amizades, excelentes amizades aqui. E tirou muitas fotos. E as fotos dele são tão diferentes. Tudo era tão diferente nas fotos, as plantas. Essa foi a minha primeira memória ou imaginação sobre a América do Sul. Eu sonhava, quem sabe um dia, em chegar à América do Sul. E acho que tenho muita sorte de ter tido esta oportunidade de fazer uma exibição aqui.”

Weiwei contou que, após a abertura cultural na China, teve oportunidade de cursar uma universidade de cinema, embora as produções fossem voltadas exclusivamente para propaganda e política. Foi em busca de novas experiências que se mudou para os Estados Unidos. Mas, no retorno ao seu país de origem, trabalhou, primeiramente, com arquitetura. “Porque na verdade eu não tinha vontade de mostrar o meu trabalho na China. E não existiam galerias, mas eu fiz uma sala grande, um estúdio grande. Levei 30 dias. E fiz um desenho que o pessoal gostou. E eles falaram: ‘Olha, você é arquiteto’. E muitas pessoas me disseram: ‘Você pode fazer um desenho e um projeto pra mim?’. E eu comecei a fazer projetos. Fiz 60 projetos. Muitos prédios, que inclusive ficaram bem famosos na China. Como a primeira geração de uma arquitetura moderna. Aliás, a minha primeira mostra na Alemanha foi de uma exposição de arquitetura. Depois de 2008, eu trabalhei com os arquitetos suíços Jacques Herzog e Pierre de Meuron, e ganhamos um concurso de um estádio na China, que é chamado Ninho do pássaro. Aí depois disso eu disse: ‘Não, eu não vou mais fazer arquitetura. Este foi o meu último trabalho’. Falei: ‘Não quero mais ser arquiteto’. E resolvi me dedicar mais à arte. E, principalmente, porque eu estou muito envolvido com a internet e passo a maior parte do meu tempo na internet escrevendo artigos ou fazendo críticas. E me torno cada vez mais extremista. Então, isso me causa muitos problemas com as autoridades.”

Dantas perguntou qual a influência da religião para a vida e o trabalho de Weiwei. “A China não tem religião própria. Antigamente, existia o budismo, mas não o budismo real. É só quando a pessoa fica rica ou quer ter um bebê que eles vão aos templos para pedir pelo amor de Deus para ter um filho homem. Isso não é religião. Não há uma prática religiosa na China. Lá, há muitos templos e as pessoas dão dinheiro para os templos, mas o significado de religião não existe. Eu acho que religião deveria criar um mundo diferente, que nos faça sentir humildes, que nos faça sentir que há um poder, um poder criador, que criou esse mistério, o mistério da vida e o mistério da condição humana. Mas, muitas vezes, as religiões só dividem as pessoas para dizer ‘nós somos diferentes’, e criam muito ódio.”

Tido como um exemplo e um símbolo da liberdade de expressão no mundo, Dantas quis saber do artista qual o conselho que ele daria para um jovem que inicia no universo das artes. “O meu conselho é: não aceite meu conselho, não ouça meu conselho. Quando eu era jovem, era muito frustrado, muito infeliz com tudo, muito insatisfeito com a minha vida. Era muito crítico, mas, ao mesmo tempo, era muito pobre. Isso é muito importante, você precisa se proteger. Se você for muito pobre, precisa pensar que você tem um valor. Mas isso não me levou a nada. Só muito tarde na vida eu acho que me tornei mais esperto, com mais experiência. Mas, hoje, eu tenho muito menos energia. Então, a fatalidade é essa: você se acha mais inteligente, mas não tem mais energia e você nem curte muito as coisas. Quando você tem muita energia, aí você tem muita frustração e você nunca está satisfeito quando é jovem. Então, não posso dar um conselho. É melhor ficar sempre jovem. Só que isso é impossível.” 

Sobre o seu maior medo, Weiwei destacou a importância da curiosidade, em relação ao mundo e à sua própria trajetória. “Se eu perder a curiosidade, se eu perder o desejo de fazer alguma coisa, isso seria um problema real. Você vem a este mundo e nem sempre tem interesse sobre o mundo, sobre as pessoas, seus parentes, seus amigos ou seu trabalho. Não é necessário que você tenha interesse sobre tudo. Mas, se você perder o interesse por tudo, é o final. Não tenho medo, mas acho que não ter mais curiosidade e alegria... Bem, aí eu teria que tomar uma decisão de acabar com a minha vida, porque não traz nenhuma coisa nova, nenhum sentimento novo.”

Weiwei é conhecido por sua personalidade irônica e irreverente, e Dantas encerrou a entrevista com uma provocação ao artista, perguntando para quem ele mostraria, naquele momento, o dedo do meio. “Eu. Para mim mesmo. Era um gesto muito feio mostrar o terceiro dedo, mas, hoje em dia, acho uma coisa bonita. Acho que pertence ao povo. É uma coisa compartilhada por todos. Muitas vezes, mostra a atitude do indivíduo em relação ao poder, ou manifesta a condição de que a pessoa está insatisfeita. É um gesto que não é violento. É apenas mostrar um dedo realmente, é um gesto. Eu não ligo, não.


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