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Peter Singer

Ética para o século XXI

Em 1975, Peter Singer lança bases para o tema ainda atual da libertação animal. Seu enfoque recai para a questão ética em relação aos seres vivos de nosso planeta. O filósofo traz ainda outros desdobramentos da ética para o século XXI em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, ampliando os desafios a serem enfrentados pela humanidade.

Por tratar de quatro temas, o autor procurou levar seus principais pontos e indicar sua complexidade, sem, contudo, aprofundar cada tópico em particular. Sua intenção é aguçar a busca da plateia para perpetrar sua própria busca por mais informações, formando assim sua própria opinião acerca dos assuntos. Singer acredita que seu trabalho deve ser debatido na arena pública, pois são questões de nosso tempo e a todos nós concernentes.

Pobreza global

O primeiro desafio colocado refere-se à erradicação da pobreza global. Com base na definição do Banco Mundial, que define como “pobres" as pessoas que não têm renda suficiente para satisfazer as necessidades básicas – como se alimentar, alimentar sua família, ter condições sanitárias básicas, acesso à água potável etc. – e estipula o valor de US$ 1,25 como mínimo diário. O dado preocupante levantado por Peter é o volume de pessoas que vivem com um valor abaixo do mínimo, 1 bilhão de pessoas na pobreza.

A questão da pobreza colocada por Peter, portanto, se refere não à pobreza relativa, mas à pobreza extrema. Nesse cenário, a expectativa de vida é baixa, a subnutrição é recorrente, não há acesso à higiene sanitária e à educação. Sete milhões de crianças morrem por ano de causas totalmente evitáveis – de doenças como diarreia, sarampo ou pneumonia – o que significa, na média, 19 mil mortes por dia. “Estas crianças estão dispersas no mundo inteiro, em vilarejos, áreas rurais e favelas urbanas. São o pano de fundo de um cenário mundial", ressaltou o filósofo.

Peter Singer sustenta que ajudar faz a diferença. Todavia, recorrentemente não ajudamos ou não estamos ajudando o suficiente, posto que a mortalidade infantil continua alta – ainda que, de acordo com a UNICEF, o número tenha decrescido nos últimos anos.

A questão da afluência foi trazida para a discussão. Ela se refere àqueles que detêm uma renda acima das necessidades básicas, muitas vezes substancialmente maior, permitindo inclusive poupar valores para o futuro e gastar com conforto e luxo. A afluência engendra, portanto, opções. O desafio moral se insere na relação entre esta e pobreza. Dentre as opções permitidas pela afluência encontra-se o combate à pobreza.

O conferencista traz a metáfora da criança que está se afogando. Ao ver uma criança se afogando em um açude, qual seria sua reação? Ignorar o fato, não assumir uma responsabilidade que não é sua, procurar os pais ou responsáveis, ou ajudá-la? Caso opte pela última, ainda há de ponderar acerca dos sacrifícios que poderão ser necessários, como ter suas roupas novas estragadas. “Quer saber, eu não vou salvar essa criança. Vou seguir o meu caminho, cuidar da minha vida e vou esquecer, porque essa criança não é minha responsabilidade. Eu não a empurrei dentro d'água, eu não sou parente dela, ninguém me pediu para cuidar dela. Na verdade, não tem nada a ver comigo e eu vou seguir em frente", provocou Singer.

Um caso que pode parecer absurdo encontra eco, por exemplo, no vídeo que circulou na internet sobre uma criança chinesa atropelada no mercado e deixada por longo tempo sem auxílio daqueles que por ela passavam.

O autor propõe que reflitamos se não temos atitudes semelhantes, se não nos eximimos de ajudar, uma vez que fazemos parte de uma classe afluente. De forma resumida, Singer define a questão: “se nós podemos impedir que algo realmente ruim aconteça, sem sacrificar algo de importância moral comparável, devemos fazê-lo".

Isto não significa que qualquer pessoa possa, individualmente, eliminar a pobreza em todo o mundo. “Nem se Bill Gates estivesse nessa plateia hoje, ele não teria como fazer isso. E ele dedica muito de seus recursos para ajudar os pobres no mundo inteiro, mas não é suficiente", ressaltou o conferencista, “nós, pessoas normais, podemos fazer a diferença, reduzir a pobreza extrema, ajudando uma criança ou uma família a ter uma vida melhor, a ter uma fonte de renda ou um teto para morar".

A conclusão deste tópico aponta para a possibilidade real de podermos evitar a pobreza extrema sem sacrificar nada de importância moral comparável. Se não estivermos fazendo nada, estaremos agindo como a pessoa que deixou a criança se afogar no açude.

Mudanças climáticas

A atmosfera é um recurso comum com capacidade limitada. A quantidade de absorção de gases residuais pela atmosfera sem produzir uma mudança climática indesejada é limitada e, por esta razão, é ela considerada um recurso escasso. Todos partilham do benefício pela atmosfera trazido, tal como as consequências dos danos a ela causados. Dessa forma, a questão das mudanças climáticas também se insere nos desafios éticos do século XXI.

É um problema novo, pois envolve todos os países, uma vez que sua escala é global. Sua interferência incide em toda a vida na Terra. Partindo dessa premissa, as nações discutem a responsabilidade e as atitudes que cada uma deverá empreender para a preservação da atmosfera.

Mudanças climáticas podem tornar regiões inabitáveis, impelindo migrações, causando mortes e gerando pobreza.

Tratamento dos animais

“Nós não devemos ser cruéis com os animais. Devemos tratá-los bem. Mas quando há interesse humano em jogo, tudo isso fica de lado e os direitos dos animais não são levados em conta", provocou Singer. A ideia central na qual o terceiro desafio moral está centrada, propõe que, tal como não devemos dar condições inferiores a seres humanos de raças diferentes, não devemos dar consideração diferente aos seres de espécies diferentes. “Se aquele ser pode sofrer, é importante o quanto está sofrendo e não se é um ser humano, um chimpanzé, um gato ou um cachorro", acrescentou o autor.

Neste aspecto, o escritor chama atenção para um fenômeno que chamou de “especismo". Nos voltamos contra outros seres porque não são membros da nossa espécie. Por meio de afirmativas como “os bichos não são humanos", os interesses da nossa espécie se sobrepujam frente às demais.

Peter Singer acredita que, tal como a luta contra o racismo teve vigor, o especismo deve também ser combatido. O principal foco de atenção se orienta para a redução do sofrimento dos animais o máximo possível.

Sabe-se que os países industrializados concentram o maior número de casos, assim como na pecuária, “que usa bilhões de animais em condições deploráveis e contrárias aos seus interesses, que sofrem não apenas quando morrem, mas durante sua vida inteira", colocou o autor, que mostrou uma série de imagens das crueldades cometidas em favor da indústria alimentícia.

A questão da pecuária impacta diretamente nas mudanças climáticas. Ela é uma das principais fontes de gases que contribuem para o efeito estufa. Ela gera um volume maior do que aquele gerado por carros, navios e aviões. O Brasil, por sua grande atividade pecuária, é um grande emissor de gases nocivos à atmosfera. O consumo de carne, portanto, é um problema urgente que afeta todo o planeta.

Como evitar a extinção humana

A extinção não é provável, mas é possível e, por essa razão, oferece riscos. Peter Singer propõe pensamo-la como uma questão moral, ressaltando que não temos o hábito de refletir sobre esta possibilidade. O conferencista propõe também refletirmos sobre a pergunta de Derek Partif: quão ruim seria a extinção da nossa espécie? Alguns fatores de risco para o fim da espécie são apontados por Singer: guerra nuclear, colisão de asteroide, pandemia, aquecimento global (que torne a Terra inabitável) e inteligência artificial hostil.

Após o encerramento da conferência, Singer foi arguido acerca do consumo de carne. O filósofo é favorável à redução significativa do consumo, pois atualmente existem diversas alternativas nutritivas à carne. O entrave maior para a mudança de paradigma reside nos aspectos culturais e econômicos que envolvem seu consumo. A transformação desses aspectos resulta em impactos na indústria alimentícia, que precisará se adaptar à nova cultura nutricional, contribuindo, por exemplo, com a diminuição de lançamento de gases residuais na atmosfera decorrentes da pecuária. Por fim, Peter Singer, ao ser arguido sobre a questão da pobreza, ressaltou que o primeiro passo após o combate à pobreza extrema é o acesso à educação para melhorar a situação das gerações seguintes.

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