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Salman Rushdie

Eventos públicos e vida privada: literatura e política no mundo moderno

Em 14 de fevereiro de 1989, Salman Rushdie recebeu um telefonema que mudaria a sua vida. Do outro lado da linha, uma jornalista informava ao escritor britânico que uma sentença de morte acabara de ser emitida contra ele pelo então governante do Irã. Por mais de uma década, Rushdie viveu na clandestinidade, sob proteção policial, mudando de endereço e pedindo ajuda a governos, imprensa e outros escritores.

No palco do Fronteiras do Pensamento, uma década após a fatwa não ser mais considerada perigosa, ele não se apresenta como Joseph Anton, codinome que assumiu na época da reclusão e título de seu mais recente livro lançado no Brasil, um relato memorialístico. Ele é Salman Rushdie, um escritor que virou símbolo da luta pela liberdade de expressão. Um escritor que encara a literatura como uma vocação e que, em sua essência, é um exímio contador de histórias, provocando sorrisos e empatia na plateia durante toda a conferência no Salão de Atos da UFRGS.

Em sua conferência, falou sobre o papel do artista, em especial do escritor, na formatação da nossa compreensão do mundo e no fato de que os eventos públicos têm muito impacto nas nossas vidas privadas. Um assunto pertinente, que pontuou o seu trabalho como escritor e também as consequências do período em que viveu recluso.

Nos séculos XVIII e XIX, uma das funções dos livros de ficção era trazer a realidade até os leitores, especialmente quanto aos abusos de poder. Rushdie lembrou de A cabana do Pai Tomás, de Harriet Beecher Stowe, livro que foi importante para o fim da escravidão nos Estados Unidos. Ele também ressaltou que uma das tarefas do escritor sempre foi levar o mundo para o livro. “As pessoas me diziam: 'Se você desconhece a história da América Latina, você não vai entender os livros de Gabriel García Márquez'. Algo parecido aconteceu quando escrevi Os filhos da meia-noite. No Ocidente, foi recebido como ficção. E, no Oriente, foi lido como um livro de história", afirmou, enfatizando que vivemos num tempo em que a história não acontece longe de nós, e acaba influenciando bastante as nossas vidas. Os filhos da meia-noite, livro lançado em 1981, é uma das obras mais premiadas de Rushdie e conta a história da Índia no século XX, narrada através do realismo mágico.

De acordo com o escritor, vivemos numa era em que a informação é difundida de inúmeras maneiras, com uma velocidade que o livro não pode mais alcançar. Além disso, é fato que as notícias, cada vez mais, tornam-se superficiais. Então, o livro pode entrar como protagonista da reflexão: será que conseguimos moldar o mundo ou será que os eventos nos marcam e moldam as coisas sem o nosso controle? “A literatura nos dá a capacidade da experiência vivida no mundo, como seria viver no Paquistão ou no Afeganistão, ou como teria sido a nossa vida ou as nossas ideias se tivéssemos que viver no Egito dos dias atuais. Um romance pode nos dar essa experiência, respondendo perguntas que permaneceriam um mistério se só acompanhássemos o noticiário", explicou.

Como exemplos, Rushdie citou os livros The Orphan Master's Son, de Adam Johnson (que ganhou o Prêmio Pulitzer em 2013 e retrata o totalitarismo na Coreia do Norte), e Redeployment, de Phil Klay (veterano da Marinha dos Estados Unidos que escreveu contos sobre a guerra no Iraque na visão do soldado em combate). “Eu li os contos dele e consegui entender a realidade do exército no Iraque como jamais havia entendido."

Para Rushdie, são essas fronteiras que a literatura ultrapassa, mostrando as verdades de outras partes do mundo que não conhecemos, mas também as aproximando. Quando o escritor britânico teve contato com a literatura latino-americana, encontrou eco e similaridades com a história da Índia. “São lugares que têm uma história colonizadora em comum, onde há uma diferença colossal entre a vida dos ricos e a dos pobres, onde há uma diferença entre a realidade das cidades e a do campo", salientou.

Assim, é o ato de contar e recontar essas histórias das heranças coletivas que forma a identidade de um país e de uma nação, uma parte importante do que se chama liberdade. “Recontar a narrativa que nós vivemos dentro de nós é uma maneira de dizer o que significa liberdade. Sempre que existe a falta de liberdade existe alguém dizendo que você não pode controlar ou mudar a história". Rushdie ressaltou que foi exatamente isso que aconteceu com Os versos satânicos. “O argumento do livro é sobre quem detém o poder. E a minha opinião é a de que todos temos que ser empoderados", refletiu, lembrando a censura que o livro enfrentou e a sentença de morte proferida pelos radicais islâmicos. Os versos satânicos foi publicado em 1988, e narra a história de dois atores indianos que se metamorfoseiam, um em diabo e outro em anjo, depois de caírem de um avião atacado por terroristas.

Rushdie recordou que, em sua vida e por conta de sua literatura, acabou tendo de enfrentar pessoas poderosas, como a primeira-ministra da Índia Indira Gandhi, que tentou processar o escritor pelo livro Os filhos da meia-noite, e o Aiatolá Ruhollah Khomeini, líder do Irã que proferiu a fatwa contra ele. A primeira foi assassinada pelos guarda-costas, e o segundo também já é falecido. “Sabem que dizem que a caneta é mais perigosa que a lança? Então, cuidado com os escritores", brincou o conferencista.

Mesmo com a brincadeira, também lembrou que, nos dias atuais, muitos escritores correm perigo porque dizem a verdade. E o motivo disso acontecer é justamente porque os espaços entre a vida privada e a vida pública encolheram. “Jane Austen foi contemporânea das guerras contra Napoleão. Mas, em seus livros, o mundo que ela descreve é muito separado dos eventos históricos. O mundo hoje mudou. É um mundo onde os políticos nos atacam diariamente. Em 11 de setembro, a política se tornou nossa vida privada. E isso obrigou os melhores escritores da nossa época a aceitarem os conflitos", resumiu.

Para Rushdie, o escritor atual deve falar ou escrever sobre os perigos. Ele lembrou que James Joyce dizia que as únicas armas que se permitia usar eram “o silêncio, o exílio e a astúcia" e que Gustave Flaubert recomendava que o escritor deveria viver próximo a uma fronteira internacional, caso precisasse fugir. “Mas essas soluções de antigamente não funcionam mais. Eles atravessam a fronteira para nos pegar. Vivenciei isso", afirmou, enfatizando que o desejo dos melhores escritores sempre será escrever sobre as verdades.

Ao mesmo tempo, a grande pergunta que é feita gira em torno do caráter do homem. Para Heráclito, o caráter é o destino do ser humano. Rushdie avança na discussão: e se o caráter não for o destino? E se o destino for uma bomba? A resposta, para o escritor, está na personalidade humana, pois algumas pessoas acham que a violência é uma opção, e outras não. “O romance diz algo muito importante sobre os seres humanos. Diz que não somos pessoas de mentes estreitas, não somos singulares, somos plurais", definiu. De acordo com ele, o mundo exige que as pessoas se estreitem, mas a literatura prova que somos amplos, e que devemos ser plurais mesmo numa época tão complexa e com tantos problemas.

O escritor britânico defendeu que a missão da arte é abrir o universo, tornando possível ao ser humano ser e sentir. Para ele, o artista deve empurrar os limites das possibilidades e abrir o mundo, mesmo que forças poderosas empurrem na direção oposta. “Apesar dos riscos que todos nós enfrentamos, essa é a nossa tarefa", finalizou.

Antes de encerrar a primeira conferência da temporada 2014 do Fronteiras do Pensamento em Porto Alegre, Salman Rushdie respondeu a perguntas do público. Os questionamentos foram sobre sua relação com os seus livros e textos, a literatura brasileira e os autores lidos por ele mencionando Machado de Assis, Clarice Lispector e Jorge Amado, o processo criativo e o efeito da fatwa em sua literatura. Sobre este último tópico, disse: “Aprendi muita coisa sobre política, fanatismo religioso, amor e solidariedade. Coisas que me ajudaram a sobreviver e passar todos aqueles anos. Isso acabou entrando de maneira indireta nos meus livros. Mesmo no momento mais obscuro da sua vida, há uma voz no seu ouvido dizendo: 'essa história é boa, não a esqueça'. Isso me deu uma boa história".


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