Voltar para Resumos

Salman Rushdie

Eventos públicos e vida privada: literatura e política no mundo moderno

Ideias para reinventar o mundo. Fernando Schüler adentra o palco do Teatro do Complexo Ohtake Cultural, em São Paulo, para anunciar o tema do Fronteiras do Pensamento 2014 e os conferencistas selecionados para a missão de nos trazerem caminhos para a reinvenção da realidade.

Após a fala de abertura do curador, é chamado ao palco Silio Boccanera, um dos mais significativos nomes do jornalismo brasileiro, para apresentar e realizar a mediação da conferência de Salman Rushdie, Literatura e Política.

Salman Rushdie, escritor e ensaísta, foi responsável por trazer as primeiras ideias de reinvenção ao Fronteiras. O escritor e ensaísta tem diversas obras traduzidas para o português e é leitor de diversos autores latino-americanos. O episódio mais conhecido de sua carreira ocorreu após a publicação de Os versos satânicos, livro que o colocou na mira do mundo islâmico após a reação de Aiatolá Ruhollah Khomeini. O líder religioso proferiu uma fatwa conclamando a todos os muçulmanos a assassinarem Rushdie por ofender o profeta Maomé.

Dotado de excelente retórica, Rushdie se coloca sob as luzes do teatro falando sobre sua relação com o futebol, divertindo a plateia com situações envolvendo a seleção brasileira e o jogador Ronaldo (à época, camisa 10 do Barcelona). Na sequência, comentou sobre o estranho fato de estar em uma conferência, de o escritor falar em vez de ser lido em suas obras. Escritores saírem para falar sobre seu trabalho não é uma atividade de tradição longa, uma vez que teve início do século XIX com escritores como Mark Twain e Charles Dickens.

Após esse breve prelúdio, Rushdie delineou a base de sua conferência: “eu queria lhes falar sobre uma condição da literatura no mundo moderno, no qual eventos públicos e vidas privadas são muito mais próximas do que jamais foram no passado. Qual é a consequência para a vida privada e a consequência para a descrição da vida humana, que é a literatura?".

A literatura foi um meio de levar informações, notícias, por meio dos romances, o que poderia causar transformações sociais acionadas com base no conteúdo das obras. Foi o caso de Nicholas Nickleby, de Charles Dickens, que deflagrou a situação de maus tratos das crianças pobres e das condições das escolas públicas na Inglaterra. A obra foi fundamental para a mudança de leis no país e para coibir que as crianças fossem tão maltratadas.

O escritor comentou sobre sua leitura de Gabriel García Márquez e que leitores latino-americanos lhe disseram: “Olha, quem não é latino não vai entender nada desse livro, porque tudo é enraizado na história da América Latina, esta cena está baseada naquilo, esta metáfora se refere àquilo lá, e você não deve entender nada disso". Rushdie ressaltou: “Eu achei que tivesse entendido, mas eles disseram que eu não entendi".

O comentário acerca de sua leitura de Márquez está relacionado à leitura ocidental da obra Os filhos da meia-noite. Para o Ocidente sua obra era algo fantasioso, mas na Índia era um livro de história. Um menino que o leu declarou ao escritor que poderia ter ele sido o autor, pois havia vivido aqueles momentos. O livro levava, portanto, a realidade daquela sociedade.

Rushdie destaca em suas obras a colisão entre História e as vidas individuais. “A literatura nos traz as notícias, mas não as manchetes, não aquilo que nós vemos na internet ou na televisão, não explosões, assassinatos ou crises, mas sim a experiência vivida do mundo", colocou o autor. “Uma das coisas importantes da literatura é permitir a entrada nas vidas das pessoas muito distantes de nós mesmos e vivenciar essas vidas como se nós os conhecêssemos".

Para se saber mais sobre países dos quais temos pouca informação, como a Coreia do Norte ou o Paquistão, é mais fácil recorrer aos romances do que ao jornalismo. “Os noticiários não dão nenhum entendimento, são só tiroteios e morte, mas, se você tiver interesse por saber o que está por trás das explosões, só a literatura poderá responder a essa pergunta", afirmou Rushdie.

O conferencista citou obras como The Orphan Master's Son (O filho do professor órfão, ainda não publicado no Brasil), de Adam Johnson, e os autores Phil Klay, Nadeem Aslam e a nova geração de escritores paquistaneses como portas para adentrar a história recente e as questões que envolvem países mais fechados e eventos complexos (como a invasão do Iraque).

O idioma inglês se tornou uma ferramenta muito rica para a difusão de histórias do mundo inteiro. Nos EUA, a literatura já era de imigrantes, mas agora conta com autores chineses, vietnamitas, indianos e nigerianos, por exemplo, escrevendo daquele país.

As trocas também se intensificam. De acordo com o escritor, “nós vivemos a era dourada das traduções". Obras traduzidas, nas quais se pode atravessar as fronteiras do idioma, nunca tiveram qualidade como as atuais.

Na literatura encontramos a história do mundo. Rushdie confessou conhecer a América Latina através de sua literatura antes de poder conhecê-la in loco. Ademais, contar histórias é a essência da humanidade. Crianças sentem o desejo de ouvir e conhecer histórias, famílias são definidas por suas histórias, boas ou ruins, elas delineiam sua identidade, tal como ocorre com as nações. Família, história e religião são narrativas nas quais estamos inseridos.

As histórias não são estruturas rígidas, elas são mutantes. Novos juízos engendram novas visões sobre as histórias. Um fato histórico, à luz de uma determinada época, terá uma estrutura semântica diferente de uma época ou de um contexto diferente.

O mesmo é válido para as histórias de nossas vidas. “Nós temos que ter o poder de alterar as histórias de nossas vidas", afirmou o conferencista, “uma sociedade livre é aquela na qual podemos fazer isso. Em uma sociedade tirânica ou autoritária, as pessoas no poder procuram controlar a narrativa: 'vocês não podem dizer como as coisas acontecem, nós vamos dizer como as coisas acontecem e nós vamos dizer o que vocês vão achar, o que vocês vão pensar, e, se não pensarem assim ou cumprirem nossas imposições, nós vamos atrás de vocês e vocês terão problemas sérios'." Portanto, a questão de quem tem o direito de contar a história está relacionada com o conceito de liberdade.

O que estava por trás das manchetes sobre o caso de Os versos satânicos versava sobre quem tinha o direito de contar essa história e em qual idioma poderia fazê-lo. O autor se pergunta: “Será que ela só poderia ser contada pela língua determinada pelos mulás iranianos ou muçulmanos, poderia ser contada de maneira irônica ou humorística?". Se não é possível contar a história como queremos, então há um problema na questão da liberdade.

Salman Rushdie deflagra o conflito entre escritores e o poder. O segundo tende a fazer ou procurar fazer prevalecer narrativas que lhe garantam sua permanência, conflitando com as narrativas trazidas pelos escritos não filiados ao poder. Conforme escreveu Milan Kundera, “a luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento".

Pessoas poderosas podem não gostar do que está sendo produzido pelos escritores. Voltaire dizia que era importante viver próximo a uma fronteira internacional, pois, se algum poderoso não gostasse do que foi escrito, o autor poderia se refugiar em outro país. Todavia, tal ideia não se aplica mais no mundo globalizado, e a perseguição pode atravessar fronteiras, como ocorreu a Rushdie.

A história, a vida e a política são esferas que confluem na literatura na contemporaneidade a despeito da distância que existia em tempos anteriores. Jane Austen, por exemplo, produzia suas obras durante as guerras napoleônicas, contudo, suas obras não retratam esse momento histórico. O mundo globalizado impulsionou a confluência das narrativas, suprimindo o gap entre a esfera pública e a vida privada.

A arte do romance não pretendia necessariamente ser engajada, mas algo específico, em uma escala menor. Isso muda em consequência da mudança do mundo gerada pela quebra da “bolha privada" impulsionada pela globalização.

O novo mundo em que vivemos desafia a máxima de Heráclito “o caráter é seu destino", ou seja, quem você é determina o que viverá. Em casos como o 11 de Setembro ou a crise na Bolsa de Valores, o caráter é independente do nosso destino. Simultaneamente, o caráter continua a atuar em meio ao fato maior. Colocado de outro modo, a escala maior não modifica o caráter da pessoa ainda que atue em seu destino.

Na literatura, a humanidade do humano é mantida dentro dos fatores histórico e político, sem que este opere como uma entidade determinante do destino. O romance assume também o aspecto contraditório do ser humano, o que difere do imperativo moderno de nos definirmos por slogans identitários coesos.

As linhas de divergências e convergências de nosso caráter, constituindo uma multiplicidade de características, seria, para Rushdie, uma saída para reduzir os níveis de conflito entre os seres humanos, resistindo à ideia da rigidez de identidade promulgada atualmente. “Conforme nos definimos de maneira mais ampla, é mais fácil encontrar pontos em comum", elucidou.

O conferencista afirmou que o propósito da arte é “abrir o universo, aumentar a soma total do que nós sabemos, do que entendemos, do que pensamos, do que podemos imaginar e, portanto, no final, de quem nós podemos ser". Para tanto, é preciso abrir mão da segurança, empurrar as fronteiras do pensamento para fora, sair do conforto. Quando você o fizer, muitos poderão tentar empurrá-lo na direção contrária, especialmente aqueles que detêm o poder.

A literatura parece ser forte o bastante para sobreviver aos poderosos e a seu tempo, mas os escritores não. Na tentativa de empurrar as fronteiras, muitos acabam sofrendo gravemente as consequências de sua obra. “Mas todo escritor que faz valer a sua alma, se lhe perguntarem, apesar dos riscos e dos problemas, responderá: 'este é o meu trabalho'", encerrou Salman Rushdie.

Durante a arguição mediada por Silio Boccanera, o escritor comentou sobre os escritores que sofrem por todo o mundo e as ações solidárias engendradas por seus pares e entidades da esfera literária. “Ditadores não gostam de má publicidade", ressaltou Rushdie, contando que uma das estratégias utilizadas contra a perseguição é evidenciar o autor perseguido. A imagem de alguém que persegue é negativa e acaba por desencorajar a ação.

À época da publicação de Os versos satânicos, foi a colaboração dos escritores que possibilitou sua comercialização nas grandes redes de livrarias. Stephen King entrou em contato com as editoras e as ameaçou dizendo que, se o livro não fosse comercializado, seus títulos também não seriam. King ainda advertiu dizendo que outros autores fariam o mesmo, e Os versos satânicos foi então distribuído nas redes.

O escritor afirmou ainda que a obra Cem anos de solidão de Gabriel García Márquez é o melhor livro escrito nos últimos 50 anos, comentou sobre as eleições na Índia e sobre o caso Edward Snowden. Confessou não acreditar na religião como algo necessário como explicação do mundo e que, conforme propôs Antonio Gramsci, é preciso ter pessimismo do intelecto e otimismo da vontade.


Voltar para Resumos