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Michael Sandel

Justiça: como fazer a coisa certa?

Considerado um dos professores mais populares do mundo, o filósofo político norte-americano Michael Sandel propõe discussões sobre dilemas morais e éticos. Seu curso “Justiça", ministrado na Universidade de Harvard, já teve milhares de inscritos, e a versão on-line atingiu milhões de pessoas no mundo todo. Defensor da ideia de que a filosofia deve ser algo próximo das pessoas, ele cria, a partir do método socrático, debates descontraídos e com a participação dos estudantes. Sem chegar a respostas definitivas ou estabelecer o que é certo ou errado, o método é elogiado porque permite a reflexão sobre temas profundos de forma acessível.

Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, o palco do Salão de Atos da UFRGS assumiu os ares do anfiteatro da Universidade de Harvard, e os presentes puderam integrar uma verdadeira aula do grande filósofo das questões cotidianas, mostrando como o debate e o pensamento são essenciais para a manutenção das sociedades democráticas e para o incentivo à cidadania.

Após a breve exibição de um vídeo sobre o curso “Justiça", Sandel iniciou explicando sua aptidão pela filosofia política e sobre como foi difícil, nos primeiros anos de faculdade, entender e conectar a sua própria vida com os livros de grandes pensadores. “Eu tinha dificuldade em compreender o que os livros dos filósofos do passado tinham a ver com o mundo que me interessava." Sandel acabou voltando seus estudos para áreas mais práticas e concretas, como política e economia. No entanto, a paixão pela filosofia veio mais tarde, quando estava no final da graduação. “Cada vez que lia e me informava, me dei conta da relação dos grandes tópicos da filosofia com os desafios que enfrentamos em nossas vidas pessoais. Então acabei me tornando um professor que escreve sobre filosofia política."

São essas questões, que circulam no terreno do individual e do coletivo, o grande tema dos debates conduzidos por Sandel: o que é uma sociedade justa? Quanta desigualdade é consistente com uma sociedade justa? O que nós, como cidadãos, devemos uns aos outros? E, especialmente: o que podemos fazer juntos para que a democracia funcione melhor? “Quando se fala em democracia, no mundo todo as pessoas se sentem frustradas com os políticos, os partidos políticos e as alternativas que são oferecidas", afirmou. Um dos motivos do descontentamento é o fato de que os discursos políticos estão cada vez mais vazios e sem propósitos morais. E as pessoas estão buscando um discurso político melhor, que se conecte aos seus anseios.

Além disso, existem três obstáculos no caminho da construção de uma sociedade mais justa. O primeiro deles é a corrupção. Sandel relembrou os gastos com a Copa do Mundo e os cálculos de dinheiro público perdido para a corrupção, que, no Brasil, chegariam a US$ 50 bilhões por ano, ou seja, 2% do PIB do País. “Recursos que, se fossem mais bem aplicados, poderiam criar escolas para 20 milhões de crianças, dobrar o número de leitos em hospitais públicos ou dar acesso de milhões de pessoas a saneamento básico", citou.

O segundo obstáculo é a lacuna crescente entre ricos e pobres, especialmente agravada nos últimos 30 anos. E o terceiro é uma tendência sutil de assumirmos valores de mercado em nossas vidas. Sandel convidou o público a participar de um levantamento não científico. Solicitou que levantassem as mãos aqueles que achavam que, apesar dos custos, será bom para o Brasil sediar a Copa do Mundo. Poucas pessoas levantaram as mãos. A seguir, pediu que aqueles que não concordavam e que achavam que os recursos deveriam ser utilizados para outros fins erguessem os braços. E a grande maioria dos presentes no Salão de Atos se manifestou, reafirmando a insatisfação com algumas decisões do poder público.

“Uma das questões centrais da filosofia tem relação com justiça, com quem merece o que, sobre as coisas boas da vida e de como isso deveria ser distribuído e de acordo com quais princípios", resumiu Sandel, explicando que essas são questões debatidas por muitos filósofos. A introdução serviu para outra consulta ao público. Sabendo que o jogador de futebol Neymar ganha mais de US$ 20 milhões anuais e que um professor recebe por mês US$ 1.900,00, Sandel questionou quantos achavam justo o jogador de futebol receber mais de mil vezes o valor recebido pelo profissional da educação. Muitos levantaram as mãos, afirmando que consideram Neymar não merecedor.

Tem início, então, a manifestação de algumas pessoas na plateia, concordando ou discordando do merecimento de Neymar, afirmando que é o mercado que dita os valores ganhos pelo jogador – uma vez que muitas pessoas estão interessadas em vê-lo jogar –, que ele nasceu em um país que valoriza o futebol e que não é simplesmente diminuindo o salário de Neymar que os professores passarão a ganhar mais dinheiro. “Nesta discussão identificamos uma série de princípios filosóficos que possuem relação com merecimento moral e com elementos de sorte que a pessoa tenha", explicou.

Para Sandel, há outro desafio ético para se viver numa sociedade justa, e ele está relacionado ao valor crescente do dinheiro em nossas vidas. Há cada vez menos coisas que o dinheiro não compra. “Em uma prisão na Califórnia, se você for preso e não gostar da cela, pode pagar um valor extra por uma cela melhor. Há cada vez mais escolas, prisões e hospitais com fins lucrativos no mundo. Em muitos países, há mais pessoas empregadas como seguranças do que policiais na rua. Estamos vendo a privatização de serviços e bens como segurança, por exemplo", salientou.

Nas últimas três décadas, mudamos de uma economia de mercado para uma sociedade de mercado, onde tudo está à venda e tudo tem um preço. Sandel afirmou que o mercado está controlando as relações humanas, as vidas familiares, a educação, a saúde, a vida cívica, o direito e a política. E que as pessoas deveriam ter consciência desse valor maior que o mercado está ocupando em nossas vidas. Esse é o tema central do livro de Sandel intitulado O que o dinheiro não compra – os limites morais do mercado, lançado no Brasil em 2012.

Então, o filósofo trouxe outro tema para o debate. Quando a oferta é menor do que a demanda, o mercado cria posições intermediárias, como os cambistas. É moralmente justo que essas pessoas vendam ingressos com valores mais altos do que comprados originalmente? E se não for um jogo de futebol ou show de rock, mas um espaço na fila de atendimento de um hospital público lotado? “Ainda assim, seria moralmente justa a ação dos cambistas?", indagou.

Segundo Sandel, um dos efeitos nocivos da corrupção é que ela corrói a confiança entre os cidadãos e dos cidadãos com os funcionários públicos. Além disso, o senso de responsabilidade de uns com os outros deve ser um dos pilares da democracia. “A lacuna entre os ricos e os pobres é grande demais, e isso pode solapar o sentido de comunidade, de que estamos engajados num projeto comum." Assim, quando o dinheiro compra cada vez mais coisas boas na vida, as pessoas abastadas vivem cada vez mais separadas daquelas que têm poucos recursos. Antes, os lugares públicos eram os pontos de encontro de todos. Sandel citou os estádios de baseball da sua infância, onde a diferença entre o ingresso mais caro e o mais barato era de apenas US$ 3. “O estádio deixou de ser um lugar para misturar as classes. As pessoas ricas, hoje em dia, ficam nos camarotes", definiu Sandel, para o que ele chama de “camarotização" da vida pública.

“A democracia não exige igualdade perfeita, mas exige que pessoas de formações, trajetórias e profissões diferentes se encontrem na vida do dia a dia. É assim que vamos nos preocupar com o bem comum." Ele ressaltou que as pessoas, nos dias atuais, fogem do assunto da ética e que a falta de debate não é só culpa dos políticos e dos partidos. “Este é nosso hábito, é compreensível. E o pensamento de mercado parece ser a solução para esse problema. Parece deixar os indivíduos decidirem cada um por si. Eu acho isso um equívoco, pois não falar e debater sobre assuntos polêmicos não é ser neutro. Porque, se nós não decidirmos, o mercado e os políticos vão decidir por nós", defendeu.

A solução, de acordo com Sandel, é melhorar a política com um novo espírito, uma disposição de se envolver em assuntos importantes como justiça, igualdade, mercados e as obrigações mútuas de cada cidadão. As pessoas, dessa forma, devem comprometer-se com convicções morais e espirituais, entrar em desavenças e criar hábitos e atitudes cívicas que valham a pena, inclusive a arte de ouvir, muito importante para a democracia.

Com as interações da plateia ao longo da conferência, não houve um período dedicado a perguntas e respostas. E o conferencista encaminhou a sua fala de encerramento. O filósofo não se considera um otimista. Mas gosta de se impressionar com a paixão demonstrada pelas pessoas, especialmente pelos jovens, como os que se manifestaram durante os debates em sua conferência no Fronteiras do Pensamento. “Para todos os obstáculos que nós enfrentamos, como lidar com a corrupção, reduzir a desigualdade e definir o papel do mercado, o que me traz esperança é que as pessoas estão ávidas por mudanças." E finalizou a sua conferência trazendo o que considera ser a receita para que esse objetivo de mudança seja alcançado: “Aprofundarmos a democracia, aprendermos uns com os outros e fazermos um mundo melhor".

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