Joshua Greene - Moralidade humana: recursos e obstáculos | Fronteiras do Pensamento
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Joshua Greene

Moralidade humana: recursos e obstáculos

Joshua Greene é professor e pesquisador da Universidade de Harvard e é reconhecido por seu trabalho sobre como a racionalidade e a emoção afetam as decisões morais. Em seu livro Moral Tribes, ele aborda o processo dual, as intuições éticas na atualidade e “a tragédia da moral do senso comum”, na qual a mesma lealdade que aparecia dentro de um grupo leva à hostilidade entre grupos diferentes. O que é certo e errado no convívio em sociedade? O pensamento rápido e a intuição levam a decisões mais generosas e altruístas? Quando temos tempo para refletir e decidir nos tornamos mais individualistas? Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo, Greene se apoiou no método socrático para debater com a plateia sobre questões provocativas e dilemas, trazendo também exemplos de estudos conduzidos por sua equipe e por alunos.

O psicólogo, neurocientista e filósofo norte-americano começou com um exemplo de pastores e seus rebanhos. Na história, as ovelhas dividem o mesmo pasto. E, sem pensar nos demais e focando apenas no lucro, cada pastor adiciona mais animais aos seus rebanhos. O resultado é uma diminuição drástica no pasto e a morte de todos os animais. “Essa história famosa da economia e da biologia é conhecida como a ‘tragédia dos bens comuns’. Ou seja, a tragédia da pastagem comum. E por que dizemos que é uma tragédia? A coisa trágica é que não precisava ser assim. Todos poderiam ter tido uma boa pastagem, um bom rebanho, poderiam ter terminado felizes. Mas o problema é que, se todo mundo fizer só o que é bom para si mesmo, todos vão acabar em pior situação.”

Segundo Greene, esse exemplo captura fielmente a essência do problema da existência social: as pessoas podem viver juntas em boa ou má situação, valorizando mais o “nós” ou o “eu”. E aqui entra o tema principal de suas pesquisas: a moralidade, que diz respeito à solução dessa tragédia dos comuns. “A moralidade é uma espécie de ferramenta ou conjunto de ferramentas que vivem em nossa cabeça e que nos permite evitar isso. E nos permite evitar a tragédia pensando não apenas em nós mesmos, mas também nos preocupando com o bem-estar de outras pessoas. Esse é o problema fundamental que a moralidade pretende resolver.” 

Ele compara a moralidade a uma máquina fotográfica. A maioria dos modelos possui um ‘modo automático’, que possibilita a qualquer um tirar boas fotografias. Mas também dispõe do ‘modo manual’, permitindo ajustes mais avançados e produzindo imagens mais sofisticadas ou artísticas. A tomada de decisão humana segue essa mesma lógica, equilibrando flexibilidade e eficiência. “Frequentemente, são as nossas respostas emocionais, que nos dão um conselho rápido a respeito do que é bom, do que é mau, o que está certo, o que está errado. E o nosso ‘modo manual’ é a nossa capacidade de raciocinar, pensar deliberadamente.” 

Há alguns anos, Greene e um colega conduziram um experimento de um jogo econômico chamado Jogo do Bem em Comum, a versão em laboratório da tragédia dos comuns. Cada pessoa de um grupo de quatro recebeu 10 dólares. Elas poderiam guardar o dinheiro para si ou depositar na caixa comum. O dinheiro da caixa seria dobrado pelos cientistas, e o valor obtido seria repartido entre todos. “Se você for um pastor generoso, vai dizer: ‘Bom, eu me preocupo com todos’. Então, você deposita todo o seu dinheiro, porque isso vai aumentar o tamanho do bolo, vai aumentar a quantia que todos recebem. É o bem comum maior. Você pode fazer a coisa egoísta e ficar com os seus 10 dólares, fazer a coisa generosa e colocar os seus 10 dólares na vaquinha ou fazer algo intermediário.”

A conclusão do estudo foi que o raciocínio rápido torna as pessoas mais generosas. Quando elas refletem por mais tempo, põem menos dinheiro na vaquinha. No entanto, de acordo com Greene, esse processo não é sempre válido: as pessoas são instintivamente boas, mas a questão é mais complexa, pois também depende de suas culturas, experiências e atitudes. 

A melhor forma de analisar o nosso raciocínio moral é, para Greene, por meio dos dilemas morais. Grande parte de sua pesquisa está em um domínio chamado “Trolleyology”, ou seja, problemas apresentados a partir do uso de um trenzinho (do tipo trolley), uma passarela e algumas pessoas presas a trilhos. O filósofo perguntou à plateia: o trolley atropelaria cinco pessoas nos trilhos. Você desviaria a rota do trem para que apenas uma pessoa que está no trilho ao lado fosse atropelada? “Aqui nós temos uma teoria, e eu vou dar alguma evidência sobre ela. Seguramente, vocês pensaram que é melhor salvar cinco vidas do que apenas uma. Aqui não há uma justificativa emocional para este caso. Pelo menos em comparação com outras coisas. Em decorrência disso, a maior parte das pessoas – se você fizer uma pesquisa científica, cerca de 80 ou 90% das pessoas pelo menos nos Estados Unidos – vai dizer que sim. E nós chamamos isso de Julgamento Utilitário. É uma filosofia que basicamente diz que, em última instância, o que devemos fazer é promover o bem maior.”

No entanto, na segunda parte o problema fica mais complexo: e se, para salvar as cinco pessoas nos trilhos, fosse necessário empurrar uma pessoa que está na passarela acima da passagem do trem? Você empurraria? Greene explica que muitos consideram que a ação de empurrar o outro da passarela não é aceita moralmente, embora o problema seja semelhante em ambos os casos. “Essa resposta é algo que vocês podem obter de um filósofo muito famoso chamado Immanuel Kant. Muitos de vocês sabem que Kant disse “os fins não justificam os meios”. Você sempre tem que tratar a humanidade como fim. Você não pode usar alguém para parar o trem. Isso é moralmente inaceitável, muita gente diz isso. O que acontece? Isso, na verdade, é motivado por uma resposta emocional, e é mais o ‘modo manual’ pensando exclusivamente a respeito do custo-benefício.”

Para exemplificar como a questão dos julgamentos emocionais é complexa, Greene citou o caso de Phineas Gage, operário da ferrovia em Vermont, que sofreu um acidente com uma barra de ferro que lhe atravessou o cérebro. “Você podia conversar com ele, resolver problemas de matemática ou falar sobre acontecimentos. Mas, mais tarde, ficou claro que ele não era mais a mesma pessoa. Que as suas faculdades cognitivas estavam intactas. Por exemplo, o que se testa num teste de QI. Mas a sua personalidade tinha mudado. O caráter moral dele tinha mudado. E ele tinha ficado sem lei, digamos assim.” Dessa forma, as pessoas podem ser divididas entre aquelas que refletem mais sobre o custo-benefício de uma ação e aquelas que desenvolvem um processo emocional relacionado à mesma ação.

“O que nós observamos é que, quando você tem que pensar só no custo e no benefício, há mais atividade no córtex pré-frontal dorsal lateral. Essa é a parte do cérebro que você pode considerar mais associada com o ‘modo manual’, com o raciocínio lento.” Greene complementou que, quando as pessoas são motivadas a pensar no que as faria se “sentirem piores”, a parte do cérebro que fica mais ativa é a amígdala, como é chamado o apêndice do cérebro. Ao mesmo tempo, medicamentos como Prozac e Lorazepam podem alterar, significativamente, o julgamento, a decisão e a opinião de uma pessoa. Assim como a profissão da pessoa também pode alterar o seu julgamento: médicos pensam em termos de saúde pública, então, para eles, talvez faça sentido deixar uma pessoa sem oxigênio, num caso extremo de desabastecimento, para conseguir realizar cinco cirurgias.

Em outro estudo conduzido na universidade, Greene e uma aluna descobriram que monges budistas são mais propensos a empurrar o homem da passarela para salvar as cinco vidas. A explicação disso pode vir de um antigo ensinamento budista – Sutra – que afirma que cometer um mal em nome de um bem maior poderia ser justificável. “Então, matar a pessoa é uma coisa terrível, mas, se você está fazendo com um motivo nobre, com boa intenção, para o bem comum, não só para você, é aceitável. Mas não conte para nenhuma criança que eu contei esta história do monge budista.”

Greene explicou que, na verdade, não existe uma área no cérebro relacionada à moralidade e que nos torna mais ou menos humanos. “Porque a moralidade parece não ter nenhum módulo, nenhum lugar específico no cérebro. Quando nós pensamos num problema moral, é usada a mesma estrutura que se utiliza para resolver outros problemas que não têm nada a ver com ética. Quando nós temos que comparar as consequências de uma ação, é o mesmo caso do trem. E também vale para uma decisão que nos afete. Por exemplo: se a ação beneficia ou prejudica você mesmo, você vai pular de um prédio incendiado? Você tem que decidir se você vai pular ou não. É o tipo de decisão entre uma recompensa de hoje ou uma recompensa maior no futuro. É o mesmo circuito utilizado no cérebro.”

No mesmo caso anterior do trem, Greene descobriu que 63% das pessoas aceitariam a queda do homem da passarela caso não fosse necessário “empurrá-lo”, mas simplesmente acionando uma chave para abrir um alçapão. “Está todo mundo rindo, mas essa risada é uma risada moral. Vocês estão rindo de si próprios, dizendo ‘isso não faz sentido’. Muitas pessoas me perguntam: como é que a ciência pode dizer que algo é certo ou errado? A ciência lhe diz o que é. A filosofia e a ética lhe dizem o que deveria ser. Quando você está rindo, você se pergunta: ‘Puxa, é por isso que eu estou dizendo que isso é errado? Por eu estar empurrando ativamente a pessoa da passarela em vez de virar uma chave?’”

A moralidade básica é a solução para resolver problemas dentro da tribo. Para resolver a “tragédia dos comuns” e os problemas entre as tribos, Greene indica a “metamoralidade”. “Esta tribo pensa desta maneira, e esta outra tribo pensa de maneira diferente. A solução para esse impasse é resolver o problema assim: o que vai promover a maior felicidade e minimizar o sofrimento, fazendo com que todos levem a felicidade de todos em conta? Esta é uma abordagem legal. Mas, e o caso da passarela? Será que é legal matar uma pessoa para salvar cinco?”

Citando John Rawls e a filosofia utilitarista, Greene ressaltou que a decisão muda quando é solicitado para os participantes dos experimentos que avaliem a ação considerando que elas estão envolvidas diretamente. Ou seja: sem saber se elas poderiam ser as pessoas no trilho ou a pessoa na passarela. “Quando as pessoas começam a pensar dessa maneira, avaliando o ‘eu não sei o que eu seria’, podem escolher a caridade que vai salvar duas pessoas na Índia em vez de só uma nos Estados Unidos. Então, se você é utilitário, é importante ver como o nosso julgamento vai funcionar. Se vamos avaliar o problema de maneira imparcial, qual seria a nossa decisão levando em conta que estamos envolvidos e não sabemos qual dos personagens nós seríamos?”

Ao mesmo tempo, no mundo moderno, onde existem tribos tão diferentes, com interesses, valores e tradições diversos, não é possível resolver os problemas com intuição, e cada pessoa tem sentimentos diferentes sobre o que é certo e o que é errado. É necessário, de acordo com Greene, optar por algo mais complexo. “Precisamos agir mais no ‘modo manual’ e usar um padrão comum que transcende as limitações dos nossos sentimentos e que vêm da intuição se queremos viver de uma maneira pacífica. Então, eu acredito que o entendimento científico e a ciência não vão nos dar as soluções. Mas usando as informações científicas, integrando com os nossos valores, daremos um passo para trás e pensaremos: será que isso faz sentido? Será que talvez possamos mudar alguma coisa? Podemos usar a nossa capacidade de raciocínio e a capacidade de sentimento pelos outros, juntar isso e ser como o Comandante Data (robô da série Star Trek) e procurar ser mais humanos do que nós somos”, finalizou. 


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