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Pascal Bruckner

O paradoxo do amor

Em sua primeira passagem pelo Brasil, Pascal Bruckner trouxe para o público do Fronteiras do Pensamento a conferência O paradoxo do amor. O filósofo francês, conhecido pela adaptação cinematográfica de sua Lua de Fel pelo diretor Roman Polanski, apresentou um panorama sobre a evolução da união conjugal, com foco no amor e no casamento.

Sua mãe foi professora de francês no Brasil e levou o afeto que nutriu pelo País a Bruckner. Preenchido por esse sentimento, o filósofo iniciou sua conferência relembrando o diálogo entre Emmanuel Berl e Marcel Proust, no qual o primeiro contava sobre Sylvia (que deu nome à sua obra em que o caso foi descrito) ter aceito seu pedido de casamento. À medida que a conversa avança, Proust se exalta: “Como você pode ficar tão contente de casar com uma mulher que vai enganá-lo todos os dias? Que vai ridicularizar você o tempo todo com o primeiro amante que tiver? Como você pode acreditar num amor durável? Você é um imbecil e eu peço que você se retire".

Aos olhos de Proust, Berl peca por ingenuidade e por isso não deve mais andar em sua companhia. O diálogo contrapõe dois pontos de vista: aquele que acredita no amor versus aquele que não a credita e, por extensão, a oposição do adulto que viveu contra o jovem que ainda está cheio de ilusões.

Quiçá foi Marcel Proust quem pecou por ingenuidade, pois não pôde vislumbrar o amor que poderia ser ali contemplado. Emmanuel Berl, posteriormente um grande escritor francês, ensejou para Proust não que haveria o amor de ser perfeito, mas, em suas palavras jovens e ainda balbuciantes, que “o amor é possível".

“Será precisamente isso que tentarei expor esta noite a vocês", explicitou o conferencista. O paradoxo amoroso aponta para a situação nova do amor, dividido entre duas postulações distintas: de um lado a liberdade e de outro a inclinação. Sob esse prisma, Bruckner lançou a seguinte questão: “Como seria possível o amor que une coabitar com a liberdade que separa?".

O mundo ocidental é herdeiro de uma dupla tradição: a romântica (uma comunhão de corações) e a liberação sexual (que teve início nos anos 1930 com Wilhelm Reich, ganhando maior força nos anos 1960 e apontando para a libertação dos corpos). “Nós tentamos, de uma maneira desajeitada, acomodar essas duas tradições em nossa vida amorosa", discorreu.

Em maio de 1968, o amor, de acordo com Bruckner, foi aceito em sua plenitude, em uma união entre corpo/carne e sentimento/espírito. “Nesse sentido, me parece um amor próximo do crístico, mesmo que a História não tenha interpretado dessa maneira".

O casamento por amor é uma criação cultural recente, porque o amor e a sexualidade eram banidos da união conjugal. A Igreja proibia que se manifestasse a concupiscência pela esposa. “O marido deveria verter sua semente no vaso sem nenhuma paixão." Por outro lado, a sociedade também coibia o casamento por amor, pois havia interesses familiares anteriores. As pessoas se casavam por convenção, para associar as famílias, garantir um herdeiro à linhagem e sustentar relações de poder. Uma vez que o amor não era a base das uniões conjugais, homens e mulheres tinham amantes, e isso era, de certa forma, permitido.

A relação de amor na família teria início na relação dos pais com os filhos. Antes as famílias não tinham uma ligação muito profunda com os filhos. As classes em ascensão, especialmente a burguesia, começavam a esboçar uma relação afetiva mais profunda com as crianças, o que, paulatinamente, se desdobra no modo como é concebido o casamento.

“O casamento moderno aparece na França com o Código Napoleônico em 1904, colocando a família sob a tutela do pater familias, o pai, que tinha o direito de vida e morte sobre seus filhos e sua mulher, mas que era também o responsável pela felicidade da família. Era o casamento burguês, que durou, na Europa, até 1950/60, até que fosse levado pela borrasca da revolução dos costumes", apontou Bruckner.

Três grandes questões permeiam o casamento burguês:

1-Favorecimento da prostituição: a apoteose do casamento burguês caminhou de mãos dadas com a explosão dos bordéis e prostíbulos como base da sociedade francesa. “Por uma razão muito simples: o casamento burguês é contemporâneo do Romantismo e nele a mulher é uma musa, uma mãe, uma inspiradora e não tem corpo, não tem sexualidade. Se a mulher não tinha corpo, era preciso satisfazer as pulsões sexuais em outro lugar. Foi preciso esperar Freud para a compreensão de que existe um eros feminino".

2-Favorecimento do adultério feminino: o não reconhecimento do desejo feminino fundamentava o adultério. Balzac dizia que todos os homens casados se tornariam um minotauro, ou seja, todo homem casado era um cornudo em potencial. Ademais, relatos diziam que o ato sexual entre os casados durava cerca de três minutos – “o tempo de cozimento de um ovo" – e as mulheres buscavam nos amantes a satisfação não proporcionada pelos maridos.

3-Fomento de dúvidas sobre a filiação: como consequência dos fatores anteriores, a maior parte das crianças que nasciam nessa época não eram necessariamente filhos do esposo.

No século XIX, tem início um movimento de reforma sobre o casamento, no qual se argumentava que o esposo deveria manifestar, para se unir, certa inclinação sobre a mulher. Em A origem da família, da propriedade privada e do Estado, Friedrich Engels “explica que, uma vez que o Capitalismo caísse, uma verdadeira monogamia se instituiria e os esposos se casariam apenas por atração recíproca e as mulheres não precisariam mais se vender para quem oferecesse melhor condições e mais dinheiro, o que destruía sua juventude por razões financeiras", citou Bruckner.

Em 1910, a sexologia começa a se consolidar e os médicos passam a discorrer para os maridos antes do casamento sobre o que é a sexualidade. “A educação sexual na França não existia antes dos anos 1970. Eu mesmo não fui educado pela anatomia humana, mas por histórias de insetos que polinizam flores, que levam o pólen de uma flor para outra. Ou seja, eu demorei um certo tempo para entender e fazer a analogia entre meu interesse pelas mulheres e a maneira pela qual as abelhas iam fecundar as flores", relembrou zombando do método usado na escola jesuíta onde estudara.

Wilhelm Reich, psicanalista que partiu dos estudos de Freud rumo à análise das relações do corpo com a psique, foi influente na revolução sexual moderna. “Para ele, a sexualidade faz parte da higiene coletiva, e, se os homens e mulheres devem praticar cotidianamente a sexualidade e satisfazer seus desejos, é menos por causa da subversão e mais para garantir o bom funcionamento da sociedade", delineou Bruckner, que acrescentou que a sexualidade era para Reich uma questão política e revolucionária. Saltando para a atualidade, o filósofo prescreve que o casal moderno está fundamentado na associação de duas liberdades. Mesmo que as famílias se oponham à união, elas já não têm a mesma força de outrora para impedir que dois indivíduos livres se associem.

Todavia, a base do casal contemporâneo se fundamenta em algo muito mais frágil se comparado aos modelos anteriores: o amor. Ele se torna a única razão pela qual as duas liberdades se unem, e, caso ele desapareça, o que há de permanecer? “Isso me parece ser o que constitui a tragédia do casal contemporâneo. Diferente daquela do passado. Antes ela opunha duas ordens, a da sociedade – com suas convenções e proibições – e a ordem do coração – os amantes se adoravam, mas a sociedade os proibia de se verem", comentou Bruckner citando o emblemático caso shakespeariano de Romeu e Julieta.

A sociedade global contemporânea cessou, via de regra, as proibições acerca das uniões. Esse é um presente de preço elevado, uma vez que a razão da união repousa nos próprios indivíduos. Eles precisam renovar a cada dia o contrato que os liga. A tragédia do casal contemporâneo, consequentemente, é análoga a um barco sobrecarregado de esperanças intensas, “o que coloca os amores em perigo porque se espera tudo do outro".

Homens e mulheres passam a carregar sobre os ombros uma série de atributos desejáveis, como serem amantes exemplares, trabalhadores, estarem aptos a receber amigos, serem atenciosos etc. Este é o peso das expectativas dos pares. Todos os dias ocorre um plebiscito para atestar se um permanece fiel ao pacto firmado com o outro.

A fórmula mais ambígua usada correntemente é o “eu te amo". A expressão tende a ser utilizada para acalmar uma angústia, pois, quando o outro entra em jogo, ele desestabiliza o que já estava acomodado. “Eu te amo" é uma súplica que também é uma questão dirigida ao parceirao: “e você?" ou, com mais profundidade, “você sente em relação a mim os mesmos sentimentos? Eu provoco em você as mesmas emoções?". A fórmula do “eu te amo" seria um modo de instalar o outro no mesmo fuso horário que o seu. “Ela é uma fórmula maravilhosa, mas também é uma tentativa de domesticação do outro", concluiu.

Alguns casais conseguem manter a felicidade conjugal, enquanto outros são tomados por uma sensação de ter feito um mau investimento, de merecer mais do que a relação oferece. Em casos de divórcio, observa-se o casal, que antes nutria uma série de sentimentos positivos de um para o outro, a brigar violentamente, a exigir indenizações pelo erro cometido.

O casal contemporâneo está situado na conjunção de duas grandes aspirações, uma paixão contínua que combina intensidade e duração e uma paixão que inclui uma dimensão carnal. Sobre esta segunda dimensão, há exigências novas, e “a sexualidade mais durável é provavelmente uma das utopias mais tocantes da época moderna", colocou.

Relatórios divulgados na Europa e nos Estados Unidos (como o Relatório Kinsey) mostram que, apesar de certa evolução na vida dos casais, ainda há uma grande proporção de mulheres que dizem nunca ter atingido o orgasmo, mulheres que, em vez de fazerem amor com os maridos, preferem tomar um chá com as amigas (porque ficam terrivelmente entediadas durante a relação sexual), de homens que dizem que a sexualidade é um problema, que têm problema de ereção, de ejaculação precoce, e de homens e mulheres que preferem a abstinência a terem conjunções carnais que não lhes convêm. “Isso quer dizer, no fundo, que nós, modernos, continuamos a mentir sobre nossa vida pulsional, nossa vida erótica, da mesma maneira que os nossos pais e nossos avós faziam", delineou Bruckner.

Os casais também se tornaram mais frágeis, porque estão mais autênticos. O conferencista discorda de pensadores como Rainer Maria Rilke e Zygmunt Bauman (e o conceito de “amor líquido"), porque a ideia de “consumismo amoroso" sempre existiu, como no mito de Don Juan e Casanova. No século XIX, os jovens casais tinham o direito de passar a noite juntos para se conhecer; os rapazes e as meninas se deitavam juntos para saber se havia uma boa correspondência física e psicológica entre eles. “Se os amores de hoje parecem tão frágeis, é porque eles ambicionam a ideia de estar perto da verdade, de se recursar a viver uma mentira sobre o sentimento que um nutre pelo outro na relação conjugal, de viver um amor simulado".

O conferencista acrescenta ainda: “Quando o desejo entre o casal não existe mais, as pessoas estimam, com razão ou não, que a necessidade da vida comum não se impõe mais e que o divórcio ou a separação são requisitados". Em Paris, o número de filhos com pais separados é crescente e ultrapassa o número daqueles cujos pais ainda estão casados. Acreditar que isso é um sintoma da ruína da instituição familiar é um ponto de vista conservador, pois não há justificativa para um casal que não vê mais sentido em sustentar seus laços continuar a fazê-lo apenas por convenção. A célula que constitui o casal não é mais uma prisão, mas uma escolha consentida. O divórcio é, portanto, uma boa saída para o fim do amor.

“Eu gostaria de encerrar com uma citação otimista, porque nunca foi tão exaltante viver o amor como em nossa época, porque ele foi libertado de todos os problemas e proibições que o marcavam. Nosso tempo revela o amor em toda a sua complexidade, em todo o seu esplendor, e na sua mesquinharia e na sua abominação também. Rimbaud escreveu 'o amor deve ser reinventado'. Eu acho que isso ainda não aconteceu. Não há nada a ser reinventado no amor. O amor é perfeito assim como ele é. É preciso tomá-lo como ele existe, em todas as dimensões, mágicas assim como trágicas. Nossos amores nos ensinam nada. Nenhuma educação sentimental coroa a sucessão confusa dos amores. A paixão é, às vezes, voltada para o infortúnio, mas infortúnio maior é nunca viver uma paixão", arrematou.

O conferencista respondeu a perguntas da plateia, e em sua primeira arguição, versou sobre a felicidade e a liberdade, citando O grande inquisidor, de Fiódor Dostoiévski, e a máxima nele contida de que os homens não querem a liberdade, mas a felicidade. Todavia, Bruckner relembrou que muitas foram as lutas e os sacrifícios, inclusive da felicidade, em direção à liberdade, que há uma primazia desta sobre a outra. Acima das duas ainda há a alegria, que difere da felicidade, pois está relacionada à gratidão à existência que nos foi dada.

Em seguida, abordou o casamento gay, afirmando que a família contemporânea não é uma vítima de desagregação, mas uma instituição em transformação. Diferentemente do que alguns promulgam, ela não morreu, e está, de maneira oposta, deveras viva. Ela representa o lugar da segurança. Por essa razão, a comunidade gay exigiu o direito ao casamento. O filósofo relembra ainda que os jovens vitorianos desejavam sair o mais rápido possível do âmbito familiar, libertar-se daquele ambiente, e a juventude atual encontra na família um meio de superar o “medo do vazio", saem de casa cada vez mais tardiamente e tendem a viver a liberdade sob o mesmo teto de seus pais.

Perguntado sobre uma possível crise no liberalismo francês, Bruckner evidenciou que a crise que acomete o país é mais espiritual e psicológica do que econômica. “Eles não entenderam que os limites do modelo francês estão terminando nas fronteiras da França. É uma crise profunda de narcisismo nacional ferido. Como toda crise, ela tem um efeito positivo. Os franceses miram um inimigo comum, que não é novo, o liberalismo. É um termo que foi carregado de todos os pecados do mundo, mas os franceses, tanto de esquerda quanto de direita, esquecem que o liberalismo é também uma doutrina francesa, que a democracia francesa repousa sobre a liberdade política e os direitos do homem. Acredito que eles confundem a doutrina com as ideias do laissez-faire no livre mercado." Há mais de um ponto em comum entre o Marxismo e o Neoliberalismo, como a ideia da história sem sujeito guiada por relações econômicas entre os homens, apontou. “Dizíamos que a França era a União Soviética que deu certo. De certo modo, é verdade, pois é uma economia em que o Estado tem um papel importante, ele é um redistribuidor, constrói pontes, estradas, creches, escolas, usinas e fábricas. Os franceses gostam do Estado, é uma herança de Napoleão. A França entrou no Capitalismo andando para trás, com uma certa aversão ao mercado, à empresa e ao dinheiro. Por outro lado, a França é o país do luxo, da moda, das grandes empresas. Os franceses gostariam de ter todas as vantagens de uma indústria desenvolvida e, ao mesmo tempo, proclamar seu ódio profundo à livre empresa e à economia de mercado. Uma contradição histórica. Eu acredito em uma conciliação entre a tradição de costumes, muito arraigada na cultura francesa, e a adaptação ao contemporâneo."

Por fim, o conferencista discorreu sobre a máxima do “politicamente correto", algo importado dos Estados Unidos. De acordo com ele, a França ainda resiste, há mais a prática cultural do galanteio do que as práticas politicamente corretas nos approaches. Os rituais anglo-saxões para solteiros buscam a transparência, quase como uma análise de perfil dos interessados, sem segredos ou mistérios. Já os latinos realizam um jogo de claro e escuro, uma sedução em processo, um entrever do outro, com revelações paulatinas que nunca terminam, um jogo dialético, mesmo após a relação se estabelecer. “Quando eu encontro alguém, não sei onde estou. E não saber exatamente o que eu sinto, o que o outro significa para mim, não ser capaz de colocar palavras sobre esse desconforto que me habita é o que caracteriza o estado amoroso, que é um estado de confusão entre a frieza e a atração, entre o medo e a vontade, não submeter o amor à exigência política de transparência é uma forma de pautar o amor sob uma dissimulação inteligente na qual tentamos entender o outro não somente a partir daquilo que ele diz dele mesmo, mas a partir da interpretação, a partir dos silêncios do outro. Um casal tem que se fundar na vulnerabilidade recíproca dos amantes. Amar é também considerar as suas fraquezas e as fraquezas do outro", encerrou Pascal Bruckner.


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