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Karen Armstrong

O que é religião?

Os caminhos que tornaram as ideias de Karen Armstrong amplamente difundidas têm início marcante no âmbito religioso, e foi sobre este assunto que a autora desenvolveu sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo.

Armstrong toma votos de freira, mas logo se decepciona com a vida religiosa. Em seguida, a conclusão de seu doutoramento em Literatura é rejeitada. Acometida por problemas de saúde, acaba por não conseguir se estabilizar em seu trabalho em um colégio feminino. Naquele mesmo ano, 1981, publica Through the Narrow Gate (Através do Portão Estreito, em tradução livre), obra que se torna um best-seller. A partir de então, sua vida ganha nova força: dedica-se à pesquisa religiosa – em especial às religiões abraâmicas –, redige e torna-se apresentadora de um programa para a televisão e publica diversos livros, muitos dos quais traduzidos no Brasil.

O ponto de partida para a fala de Armstrong foi a vanguarda religiosa indiana e o conceito de Brahma. A impossibilidade de descrição da divindade maior orienta os religiosos a buscá-la por meio da experiência. Brahma se revela no silêncio e não no entendimento retórico das palavras. A autora alude ao momento de silêncio após a conclusão de uma sinfonia, antes do aplauso, essa estrutura temporal vivenciada.

“O propósito da teologia não é definir o que nós chamamos de Deus ou Brahma ou Nirvana, mas entender que, ao falarmos de Deus, estamos no final do que as palavras e ideias podem conseguir", postulou. Em diferentes aspectos, nossa mente busca ideias que estão além do que pode racionalmente ser pensado. Procuramos a experiência, desejamos encontrar o admirável e viver algo além daquilo que palavras e pensamentos permitem.

O entendimento de Deus é algo ainda muito primitivo no mundo moderno. Aprendemos isso logo, mas não o desenvolvemos. Deus ainda carrega uma personalização, como uma figura humanizada de um ser muito poderoso, mas nas eras pré-modernas havia um estágio inicial, intelectual, de conhecimento sobre Deus que se encaminhava para sua transcendência.

O aspecto transcendental está enfraquecido, e a ele se sobrepõem crenças que operam como bulas para aqueles que desejam o caminho religioso. Armstrong aprofundou o fator de compromisso para aqueles que se orientam nesta vereda. Teria sido, inclusive, esse o principal apelo de Cristo para com seus discípulos. Ele não solicitou a crença dos apóstolos, uma aceitação cega, mas o compromisso de trabalharem orientados pela fé.

Ainda sobre a necessidade da crença enquanto aceitação dogmática, a estudiosa recorre à tradição judaica e aos rabinos da época do Talmude, que acreditavam que a revelação não seria algo que aconteceu no passado distante e está congelado. Cada vez que um judeu se debruçar sobre o texto sagrado ele terá uma nova revelação. “Em muitos dos Talmudes medievais havia uma página em branco para que o estudioso colocasse sua própria interpretação, e, desse modo, o Talmude nunca ficaria completo", relatou. “Você não pode limitar a palavra de Deus, pois ela é infinita."

A conclusão, portanto, é a necessidade de pensarmos por nós mesmos. A leitura moderna de textos sagrados, em especial da Bíblia, nunca esteve tão literal. A busca de certezas não é um caminho que a religião pode oferecer, “o que a religião nos ajuda é a viver com a tragédia das nossas vidas, com o conhecimento da nossa própria mortalidade, com o sofrimento e a dor que vemos ao nosso redor". Para usufruir desta ajuda, Armstrong suscita que podemos incorporar transversalmente os ensinamentos das diferentes religiões e não apenas de uma em particular.

A conferencista discorreu também sobre a perda da capacidade de praticar a religião e como isso está relacionado à perda do mito. Este último é um elemento de repetição que se mantém em seu fluxo circular até o momento em que, por intermédio da meditação de seu constante retorno, se torna prático e transcende seu caráter narrativo. Mito e meditação seriam, dessa forma, dois elementos fundamentais para a prática transcendental. “A Trindade, Um em Três, Três em Um, parece um jingle. A não ser que você faça a ação, o mythos, a Trindade, não faz sentido."

Armstrong trouxe ao público ideias pautadas em um dever geral. Seu pensamento fortemente utópico pretende incutir a responsabilidade e o comprometimento de todos os seres para com o planeta baseando-se em uma regra de ouro comum às diversas religiões, que se refere fundamentalmente à capacidade de se colocar no lugar do outro. E cita Confúcio, para ressaltar que é preciso experienciar a religião e a compaixão a cada momento, e não apenas pontualmente. O principal guia para viver na regra de ouro estaria no sentimento individual e na sublimação do ego.

“Muitas vezes, quando religiosos se reúnem, raramente falam de compaixão", comenta. “Mas, em relação ao ethos – que é a preocupação por todos –, as religiões estão numa posição de fazer uma contribuição importante para a nossa era, que é a de ter uma comunidade onde todas as pessoas de todas as etnias e todas as religiões possam viver juntas com respeito mútuo", complementa, dizendo que uma das razões pela qual isso não ocorre estaria no fato de a própria religião ser vista como parte do problema.

Karen Armstrong acredita que todas as religiões, apesar de suas enormes diferenças, podem trabalhar para um mundo melhor e pontua que algumas ações já vêm ocorrendo nesse sentido.

Os debatedores da noite, o professor Eduardo Wolf e o filósofo Luiz Felipe Pondé, arguiram Armstrong acerca de temas complexos dentro do âmbito religioso. Como, por exemplo, a salvação ser dada apenas aos membros de uma religião em particular, sendo cada uma a detentora da Verdade; e a relação entre violência e religião (tema sobre o qual está escrevendo atualmente). Ressaltando aspectos do pensamento dela, Pondé questionou se o misticismo não estaria por trás das ideias de Karen acerca da religião. Com resposta afirmativa, a autora ressalta que em nossa época há um ódio ao misticismo e ao mistério, criticado por carecer de um aspecto prático, necessário, ou de ter uma causa. Todavia, comenta que o desconhecimento é parte da experiência de vida, encerrando a segunda conferência da temporada 2013 do Fronteiras do Pensamento São Paulo.


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