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Graça Machel

O respeito pela dignidade humana

As múltiplas identidades que formam a sua trajetória: mulher, negra e africana. Mas que, para Graça Machel, nenhuma é mais relevante do que ser cidadã. Na estreia da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento São Paulo, a vice-presidente do grupo The Elders e CEO da Graça Machel Trust estabeleceu, em sua conferência, uma conversa com o público sobre as coisas simples da vida, o repúdio aos sistemas que categorizam os seres humanos, a dignidade e, sobretudo, a igualdade.

A política e ativista moçambicana iniciou sua fala resumindo fazer parte de algumas classificações: participante do espaço cultural da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, integrante do espaço econômico dos países emergentes do Brics, moradora do Hemisfério Sul do planeta e cristã por conta de sua criação familiar. Mas que pertencer à grande família humana é sua mais completa e profunda identidade. “Vou falar esta noite da minha identidade mais profunda, mais perfeita, mais completa: eu sou humana. Sou um ser humano. Nasci da mesma maneira como qualquer um dos 7 bilhões de seres humanos que compõem a família, a raça humana hoje.” 

Segundo Machel, a verdade é que a natureza não se enganou quando nos criou na base da igualdade. “A igualdade é a nossa origem. A igualdade é o nosso destino comum. Nascemos e morremos exatamente da mesma maneira, independentemente de como teremos vivido as nossas vidas e as opções que tivermos feito. E o que eu sugiro, nesta noite, é nos concentrarmos naquilo em que somos iguais. E não nas pequenas ou grandes diferenciações que, ao longo da história, nós fomos construindo e, de certa maneira, cristalizamos.”

O fato de algumas pessoas nascerem masculinas e outras femininas não estabelece um critério de valor e não define os seres humanos. O mesmo vale para a cor da pele e também para as diferentes religiões do mundo ou, até mesmo o ateísmo. Elas caracterizam diversidade, mas também deixam claro que existe uma força maior do que todos nós. “O corpo humano é a máquina mais perfeita e mais complexa que existe. E não é nossa criação. Alguém nos fez com aquela sincronização tão perfeita que, muitas vezes, nem pensamos. Mas o fato de nós termos o coração funcionando como funciona, os nossos pulmões, todos os nossos órgãos funcionando tão perfeitamente sincronizados, é um mistério da vida.” 

Todas as diferenciações e estratificações são produtos de construções sociais, de humanos, mas não são naturais. “A estratificação na base da raça, do homem e da mulher, as diferenciações do cristão, do islâmico e do ateu, não são naturais. O que nos faz naturais é que, em cada um de nós, existe aquela faísca da vida que, no momento em que nascemos, nós choramos, os nossos pulmões se abrem e começamos a respirar.”

 A ativista e política explicou que sempre fomos dependentes da natureza para nossa sobrevivência e nosso conforto. Mas, a partir de determinada altura, a família humana decidiu que ter apenas o suficiente não era mais suficiente. Surgiu a acumulação, a ganância, o consumismo e os excessos, e as diferenciações se tornaram agudas. “O nosso mundo é dominado pela obsessão pelo dinheiro e pelos bens materiais. Os símbolos de sucesso que nós projetamos – em particular nos meios de comunicação social – são representados pelas pessoas consideradas bem-sucedidas, ou seja, aquelas que acumulam muito dinheiro e muitos bens materiais. Que se definem, portanto, associados a um estatuto maior ou melhor do que o estatuto daqueles que têm menos. Desta maneira, nós institucionalizamos nas nossas barreiras psicológicas uma grande distinção entre os pobres e os ricos, na base daquilo que eles têm e o que os outros têm menos.” Assim, acabamos por subverter os aspectos da dignidade humana. 

Assim como a estratificação gerada pelas posses e pela cor da pele, também existe a estratificação por gênero, a prática de discriminar as mulheres. Machel ressaltou que não existe país no mundo que possa se gabar de oferecer um tratamento às mulheres como seres humanos inteiros. Ainda há discriminação e diferenciação de tarefas e salários. E, levando em conta o tratamento dado a mulheres e negros, por exemplo, Machel destacou o perigo da normalização. Citou como exemplo a invisibilidade dos negros no Brasil, que são reconhecidos em áreas como esporte e cultura, mas desconsiderados em outras. “Estamos numa situação em que aceitamos ou provocamos essas diferenciações que põem uns e outros membros desta grande família humana a olhar-se com uma certa suspeição. Não é uma relação de confiança, de solidariedade, uma relação de aceitação mútua. E tornaram-se aquilo que nós chamamos de males sociais. São muito mais do que males sociais. São distorções profundas da nossa natureza como seres humanos.” 

Estas são as distorções profundas da igualdade. Machel ressaltou que vivemos como se a desigualdade fosse um mal, um entrave dos nossos tempos. E, em ocasiões como o atentado no Sri Lanka, nos chocamos. Dias após o ocorrido, continuamos a vida como se fosse normal. “Por isso, nós estamos num período em que sabemos muito e sabemos mais do que em qualquer época da história da humanidade. Mas verificamos a existência das maiores intolerâncias de uns contra os outros. É assim que nós temos uma guerra contra os pobres, contra as mulheres, uma guerra contra os que professam religiões diferentes. E, mais recentemente, uma guerra contra a natureza. Aquela que nos dá tudo. É por isso que a natureza está em fúria contra nós.”

Ela também ressaltou sobre os benefícios do desenvolvimento tecnológico, mas alertou para a necessidade do uso racional dos recursos para a nossa vida e o nosso conforto. “Mas também significa outro fenômeno: pessoas sentadas numa mesma sala, em volta de uma mesma mesa, cada um a se comunicar com o mundo exterior, mas incapaz de se comunicar com aqueles que estão à sua volta. E, em vez de nos aproximarmos mais e educarmos mais as mesmas pessoas que estão à nossa volta – da mesma maneira que nos comunicamos com milhões – e melhorarmos a relação humana, fazer com que ela seja mais terna e protetora, e que nós possamos ter o grande prazer de olhar para os olhos de cada um e sentir que eu existo no outro e o outro existe em mim. Quantas pessoas, apesar de todo este desenvolvimento tecnológico hoje, se sentem tão sós?” 

Por este motivo, que afeta diretamente as famílias e os cotidianos, Machel fez uma proposta. Que não deixemos o dia a dia nos fazer correr tanto e que possamos reaprender a partilhar e tocar o coração dos outros. E, mais do que tudo, valorizar os movimentos sociais. “O sentido da vida para mim é o respeito sagrado de que todas as pessoas são iguais, homens e mulheres. E, para isso, ter, conscientemente, de fazer a opção de resgatar os valores de solidariedade humana, de aceitação da diferença apenas como diversidade, apenas como enriquecimento e – afinal de contas – um acréscimo de beleza, aquela beleza que se pode assimilar ao arco-íris, ao fim e ao cabo à luz, pode se apresentar com vários matizes.”

Machel explicou que, no passado, tivemos grandes causas que uniram a família humana, como, por exemplo, o repúdio ao colonialismo e às ditaduras. E havia movimentos em que todos se identificam, como a luta contra a Apartheid. “Eram causas comuns porque privavam as pessoas de seus sentidos de liberdade, sentidos de escolha na vida individual ou coletiva. E sermos solidários uns com os outros. Então, eu acho que é hora de abraçarmos grandes causas, que nos façam iguais, como já fomos iguais no passado, nas nossas lutas comuns.”

Ela citou a necessidade de criar movimentos amplos de proteção à infância, de proteção aos direitos da mulher, contra a discriminação racial e pela liberdade de religião. Uma das grandes causas da atualidade é dignificar a vida humana. Ou seja, que as pessoas parem de tolerar, de estar acostumadas ou de fazer de conta que não veem quando outros seres humanos são privados de suas dignidades. “Devemos continuar discutindo filosofia, economia, artes. Mas devemos partir daqueles fundamentos que nos permitem ser cada vez mais humanos. Que nos permitem ter cada vez mais solidariedade uns com os outros. Que nos permitem sentir aquela coisa quente e muito boa de amor e de abraçar um outro ser humano. Então, todas as outras coisas vão fazer sentido. Mas eu proponho, nestas reflexões, olharmos mais para aquilo que nos une, aquilo que nos faz iguais. E, gradualmente, destruirmos as barreiras psicológicas e as diferenças que nós nos habituamos como se fossem naturais. E valorizarmos a nós próprios, o espiritual e a riqueza interna de cada um de nós. E não a riqueza material. A riqueza que nos é concedida quando nós nos sentimos conectados com todos os outros seres humanos iguais a nós.”

Para Machel, as diferenciações estabelecidas fazem com que o valor real da igualdade fique perdido. E, em vez de fazer as pequenas lutas, se deveria fazer a grande luta, que é a valorização da humanidade. “Para mim seria muito importante que nós começássemos a voltar para o básico. O mínimo. Porque cada um de nós deve sentir que tem a responsabilidade. Não é tarefa de governos humanizar mais e enriquecer as nossas relações humanas. Não é tarefa de uma instituição. É de pessoas. Termos relações uns com os outros que sejam de respeito e aceitação. É uma questão individual e é uma questão social. Nós desenvolvemos uma relação entre nós de um profundo repúdio à pobreza. Repúdio à discriminação racial. Repúdio à discriminação contra as mulheres. Isso todos nós temos que fazer. A nossa sociedade é produto de uma estruturação que não seguimos tolerando. E a nossa sociedade, para se transformar, deve ser o produto do comprometimento de cada um de nós. No seu pequeno e largo espaço. Mas todos nós devemos aceitar que merecemos viver melhor como seres humanos. E, porque merecemos, todos nós temos de fazer com que isso aconteça. Quer seja uma pessoa que está aqui perto, quer seja uma pessoa que esteja em outras partes do mundo”, finalizou. 


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