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Roger Scruton

O significado da vida

Um dos filósofos mais reconhecidos da atualidade e, também, um dos mais polêmicos, Roger Scruton, terceiro conferencista da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, abordou a ânsia pelas respostas a respeito do significado da vida e de como ele acredita que é apenas possível encontrar alento nos outros, na beleza e no sagrado. Costurando ideias e conceitos para mostrar a passividade ou o encantamento de alguém, buscou inspiração em sua trajetória familiar, mais especialmente na vida e na morte de sua própria mãe, para falar sobre arte, arquitetura e as imposições dos regimes totalitários.

Segundo ele, somos criaturas famintas por significados e, muitas vezes, os interpretamos até mesmo onde não estão: em nuvens, flores ou folhas de chá. Mas, mesmo que sejam profecias ou concretização dramatizada de desejos, o filósofo se questiona até que ponto a vida tem, realmente, uma explicação ou por que os humanos teriam uma vida mais significativa do que uma água-viva ou um verme.

Para exemplificar, Scruton contou sobre a trajetória de sua mãe. Órfã de pai, morto em decorrência de tuberculose, ela foi mandada aos cuidados de uma tia, enquanto a mãe procurava outro marido. Quando o encontrou, um ex-combatente da Primeira Grande Guerra, ela voltou a morar com a mãe, aos dez anos de idade. A distância imprimiu na criança um sentimento de invasão do mundo alheio, e ela se fechou em si mesma, evitando confrontos e a manifestação dos próprios sentimentos. Ainda jovem casou-se com um sindicalista, membro do Partido Trabalhista, que trabalhou como professor e lia sobre as injustiças impostas na classe operária por pessoas da classe à qual ela pertencia. Um relacionamento que não foi aceito pela família e tampouco lhe trouxe felicidade. “Minha mãe, como a classe de cujos privilégios ela era erroneamente acusada, era avessa a essa coisa chamada Vida e se retirava dela, constantemente, para a sua leitura, o seu tricô ou a sua máquina de costura. Ela era cada vez mais repreendida por sua presença inútil em casa, por sua incapacidade de se virar com o pequeno salário de meu pai e por seu amor imperdoável pelos três filhos, que eram tão inúteis quanto ela. Suas falhas eram tão grandes que, no final, meu pai deixou de falar com ela e passou a fazer as suas refeições em silêncio em um dos muitos cômodos da casa, do qual o resto de nós era excluído.”

Ela havia se transformado em uma pessoa infeliz. Mas parecia aceitar essa infelicidade, em nome das três crianças problemáticas geradas em seu casamento – Scruton e as duas irmãs. Um a um, os filhos saíram de casa, para se afastar da figura violenta e raivosa do pai. E apenas anos depois, quando a mãe foi diagnosticada com câncer de mama, pela primeira e última vez o marido lhe demonstrou amor. Depois de muitas cirurgias e de negação, o câncer foi combatido, mas retornou. “Fomos obrigados a corroborar a história da qual ela dependia, de que o câncer havia, de certa forma, sido vencido e de que o colapso, de uma a uma de suas capacidades, não passava de uma série de infecções, cada uma corrigida pela próxima receita do médico. Por um tempo, cuidei dela, tentando da melhor forma possível ignorar a figura raivosa que me observava do lugar chamado Vida. Sentado com ela no lugar chamado Morte, senti que ela me devia pelo menos isso: reconhecer o nome desse lugar, para que pudéssemos aceitar o que ele significava. Mas era exatamente isso que ela estava determinada a evitar.”

No entanto, um dia, em uma conversa com os filhos, a mãe admitiu saber que a sua vida havia sido um fracasso total. “Sim’, ela disse. ‘Eu consigo olhar para trás agora e posso ver que fui um fracasso total. Eu nunca fiz o que eu queria, nunca disse o que eu queria dizer. Eu nunca disse que amava vocês. Tudo foi sem sentido. Tudo isso levou a nada.’ Ela ficou em silêncio enquanto olhávamos angustiados, incapazes de confrontar a enormidade do que ela havia dito. Pois era a verdade. E nós éramos parte dessa verdade. Como ela, havíamos fugido da vida, passando na ponta dos pés pelos templos e túmulos, não havíamos mostrado esperança, nem resolução e nem gratidão. Acima de tudo, nunca havíamos dito a ela o quanto a amávamos, e deixamos que tudo chegasse a esse momento, quando nada mais poderia ser dito, e quando já havíamos perdido a capacidade de dizê-lo.”

Durante 50 anos, Scruton carregou a lembrança do arrependimento da mãe, como o bem coletivo de sua família. “Culpa, amor, sofrimento e raiva travam uma batalha em mim e, também, em minhas irmãs, quando refletimos sobre o que estava em jogo, quando nossa mãe buscou o sentido de sua vida e não encontrou nenhum. Existem apenas duas linhas de indagação que poderiam trazer paz para nós, quando revivemos aquele momento de desespero. Uma é argumentar que a vida de minha mãe não tinha nenhum sentido, não porque fosse sem sentido, mas porque não existe tal coisa como sentido – a vida não se trata de sentido. Mas essa linha de argumentação, de fato, traz pouco alívio. Porque nos leva à pergunta: do que é feita, então, a vida? O que na vida nos faz olhar com alívio e gratidão para o seu todo e dizer ‘é bom você ter existido’?

De acordo com ele, personalidades como Marcel Proust procuraram o sentido não em acontecimentos, mas em visões que redimissem a vida, num arquétipo romântico e atemporal, mas que seria prontamente negado por pessoas como a mãe de Scruton, uma pessoa normal e realista, imunizada contra os mistérios metafísicos por uma forte dose de bom senso. “Seu desespero surgiu porque ela viu que algo absolutamente necessário para ela estar neste mundo lhe havia sido negado. Era como se ela tivesse sido enviada ao mundo para recuperar algo de grande valor, apenas para ser trancada em uma sala onde esse algo não estava, e como se toda a sua vida tivesse sido passada lá, esperando que a porta fosse aberta, só para descobrir, quando finalmente se abriu, que do outro lado estava a morte.”

A solução para ela seria uma redenção que acabou sendo originada na forma de confissão de amor para os filhos. “A partir daí, passamos a vê-la de outra forma, e a narrativa de sua presença foi reescrita como uma narrativa de amor. Claro que não pudemos fazer nada para mudar a sua vida, que já havia chegado ao fim. Mas nós conseguimos mudar a nós mesmos, e isso se tornou nossa tarefa: lembrar dela, suas hesitações, suas evitações, sua timidez que beirava a frieza, considerando tudo isso sob a perspectiva do amor. Para ver todas as maneiras em que ela não conseguiu fazer contato com movimentos em nossa direção, e não movimentos de afastamento.”

Neste sentido, a literatura e a filosofia seguem em busca de respostas. Mas que, apesar das discussões sobre o self e o subjetivo, o ser humano continua a ser um ser, com palavras e olhares, e que também é objeto de amor, afeição e ressentimento. “Talvez Heidegger e Sartre estejam certos, que sou eu que tenho a “pergunta do ser”. Mas isso não muda o fato de que é você quem tem a resposta. A redenção não vem do Self; vem do Outro. Isso acontece porque reconhecemos, em nosso ser, que não estamos sozinhos, que o que importa para nós – a nossa “salvação” – é o amor, a compaixão e o perdão que os outros nos oferecem e através dos quais somos incorporados à comunidade mais ampla da qual dependemos.

Assim, a reflexão de Scruton também se apoia em Hegel, que afirmou que cada um existe apenas pelo reconhecimento do outro. Ou seja, a relação “eu-você”, fácil de reconhecer e difícil de descrever, está no centro de qualquer vida que seja reconhecidamente humana. “Uma outra forma de colocar esta questão é que nós crescemos numa teia de relações pessoais e, ao fazê-lo, nos tornamos pessoas. Tornamo-nos seres livres e responsáveis, que reconhecem um ao outro na perspectiva transcendental que vai de ‘eu para eu’ em todo o mundo inerte das coisas. O que isso envolve é uma questão que eu abordei em alguns dos meus escritos filosóficos, mais recentemente em A alma do mundo e Sobre a natureza humana.”

Ao mesmo tempo, esta rede de relacionamentos pressupõe assumir responsabilidades. “A rede de relações pessoais impõe uma carga sobre nós. Somos compelidos, a todo momento, a assumir responsabilidade sobre nossos sentimentos e escolhas, e a tentação é evitar essa responsabilidade, como minha mãe fazia com tanta frequência, ou então se afastar completamente dos outros, para enxergá-los não como pessoas, mas como coisas. É nessa segunda tática que descobrimos o ‘pecado original’ dos tempos em que vivemos – o pecado de apagar a face pessoal das interações humanas, de forma a deixar apenas um mundo despersonalizado e objetivado.”

Para o filósofo, um dos exemplos de despersonalização é a transformação de sociedades pelo controle sistemático, como nos estados comunistas da Europa Oriental e Central, com o uso de teorias que promovem a marginalização da relação “eu-você” e o seu deslocamento para as relações de poder. “Muitos dos escritores do século 20 tentaram registrar o que acontece quando as relações de poder são, dessa forma, colocadas no centro de um projeto político, e todos os outros valores – honestidade, verdade, responsabilidade, até mesmo amor e lealdade – estão subordinados a elas. A dinâmica psicológica, retratada por Arthur Koestler em Escuridão ao meio-dia, George Orwell em 1984, ou Rex Warner em O aeródromo, é imediatamente inteligível para qualquer um que tenha tido contato direto com o projeto totalitário.

Esta visão do poder colocado acima da responsabilidade nas relações e a convivência com dissentes na década de 1970 deram a Scruton os subsídios para escrever o romance As memórias de Underground, ambientado na Checoslováquia comunista.O comunismo desapareceu como os maus espíritos desaparecem, de uma hora para outra, sem deixar vestígios, exceto culpa, desculpas e um cheiro persistente de enxofre. As investigações de como isso aconteceu e quem foi o culpado começaram a surgir, na forma do romance escrito por Bulgakov (O mestre e a Margarida). E, em poucos anos, os antigos países comunistas eram indistinguíveis, moralmente falando, de seus contemporâneos ocidentais – o mesmo materialismo insosso, secular e sem cultura, e a mesma busca vã pelo sentido da vida.”

No entanto, Scruton ressaltou que resta uma pergunta mais intrigante. “Mesmo que uma vida possa ser trazida de volta ao âmbito das relações interpessoais e, portanto, redimida, também acreditamos que o sentido é algo público, algo que deveria ser reconhecido objetivamente, como uma característica da vida em comunidade. A queixa contra a falta de sentido do nosso mundo é uma crítica ao seu aspecto público, e não apenas às nossas chances privadas. Devolver sentido ao nosso mundo é mudar a forma como ele é para todos os que vivem nele: apresentar a cada membro da sociedade as boas-vindas ao seio da comunidade. E como é que se faz isso? Como nós, seres humanos, transmitimos uns aos outros a mensagem vital de que a vida tem um sentido e que esse sentido é compartilhado?”

Ele defendeu que dois conceitos explicam por que a questão do significado da vida tornou-se tão urgente: os conceitos de beleza e de sagrado. Para a beleza, citou a cidade de Veneza como um exemplo vívido, com sua arquitetura e arte e a sua busca pela adequação do belo. Para o sagrado, ressaltou que existe uma capacidade geral de buscar refúgio moral nas coisas do mundo. “Nossa busca pelo sentido da vida é uma busca pela relação certa com os outros. Descobrimos o sentido não através de nossas próprias escolhas existenciais, mas através da aceitação e da compaixão dos outros por nós. E esse sentido torna-se uma característica pública e objetiva do nosso mundo quando está inscrito em nosso entorno. Através da beleza e do sagrado, superamos a natureza estranha e impessoal das coisas. Dotamos os objetos com nossa subjetividade coletiva e, assim, nos unimos a eles e nos sentimos à vontade com eles. Essa subjetividade coletiva pode ser apagada pelo poder anônimo, como no estado totalitário; pode ser apagada pelo enfeiamento, como acontece na cidade capitalista. Mas em nossas próprias vidas nos esforçamos para perpetuá-lo e viver de maneira tal que o sentido conferido às nossas vidas por pertencermos a uma sociedade também seja costurado no tecido do nosso mundo”, finalizou. 


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