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Geoffrey West

O tamanho importa: crescimento, inovação e o ritmo de vida das células às cidades

Pensar as cidades costuma ser algo relegado a determinadas ciências como a arquitetura, a engenharia, o urbanismo e as ciências sociais. Todavia, Geoffrey West trouxe para o Fronteiras do Pensamento sua pesquisa que relaciona modelos da física e da biologia para pensar sobre a dinâmica e o futuro das cidades.

Preocupado com a sustentabilidade global, o conferencista discorreu sobre o aumento exponencial da urbanização em todo o mundo desde a Revolução Industrial. Em 1800, apenas 4% da população vivia em áreas urbanas nos Estados Unidos e, atualmente, atinge a marca de 80%. Em 2006, mais da metade do mundo já estava urbanizada e a perspectiva é que a população mundial urbana será de 75% em 2050. Isso significaria acrescentar ao mundo uma área metropolitana como a de São Paulo a cada dois meses até o ano de 2050.

É um fenômeno global do qual todos fazemos parte, um crescimento sem limite das cidades e da economia. “Mas isso será sustentável?", perguntou West à plateia. Dentro dessa perspectiva, a pergunta ganha maior peso, pois o destino das nossas cidades é o destino do planeta. O padrão e a qualidade de vida aos quais nos acostumamos serão sustentáveis?

Sabemos dos problemas decorrentes do processo de urbanização: (1) para o mundo: aumento de poluição, aquecimento global, elevação do nível do mar; (2) para a economia: o mercado financeiro e os riscos a assumir; (3) para a vida nas cidades: saúde, educação e segurança, disponibilidade de energia e água, sua distribuição. Tais preocupações já existem há algum tempo, mas o tópico “urbanização" está ganhando maior força.

O primeiro conceito da física trazido por West foi a segunda lei da termodinâmica. “Se você comer, terá que ir ao banheiro", brincou o físico acerca da lei ao fundamentar que, para a manutenção de algo, criamos distúrbio ou desordem em outro lugar, o que, em física, se chama “entropia".

Analogamente, metaboliza-se a energia em uma cidade para certas realizações enquanto é gerada uma entropia socioeconômica, como o surgimento de favelas, o aumento da violência urbana e outras formas de criminalidade.

Apesar de se conceber a cidade como sua estrutura (elétrica, hidráulica, de mobilidade, moradia etc.), West recorre a uma frase de Shakespeare para defini-la: “O que são as cidades senão as suas pessoas?". A razão da cidade são as pessoas, e a interação entre elas é o que determina sua dinâmica.

O conferencista trouxe ainda um dilema: as cidades são o problema e são a solução. A cidade é o local onde as pessoas vivem, e elas funcionam como ímãs que atraem outras pessoas, o que significa a atração polarizada tanto de criminosos quanto de pessoas capazes de gerar inovação, criação de ideias e riqueza.

Uma ciência da cidade, envolvendo a previsão, a resiliência, o crescimento, a escalabilidade e sua capacidade de evolução, seria imperativa para West, que se baseia na biologia e na física para trilhar caminhos nessa direção. Essa proposição visa observar os fenômenos urbanos, não como casos independentes, mas fatores interconectados. Isso significa pressupor que mercados financeiros, economia, aquecimento global, meio ambiente, urbanizaçtos, os, economia, aquecimento global, meio ambiente, urbanizaç impostos, ão, saúde, criminalidade, poluição... não são elementos independentes.

O sistema de transporte está interligado ao sistema de saúde, que está ligado ao sistema educacional, ao sistema de segurança etc. Com base na biologia, o conferencista propõe que é preciso pensar, por meio da troca de informações nas diversas esferas sociais (entre colegas de trabalho, amigos, família e demais interatores), na energia da cidade (não se referindo ao conceito físico de energia, mas como uma metáfora à energia biológica de um organismo), em seus recursos e metabolismo.

West acredita ser possível encontrar as propriedades gerais e os mecanismos que geram a dinâmica de uma cidade (crescimento e evolução). Isso poderia ser feito utilizando-se as leis da biologia?

Os mamíferos, por exemplo, quanto maiores, menos energia consomem. Um animal que tem o dobro do tamanho de outro não precisa dobrar o número de energia metabólica. Em uma escala, ele precisa de 75% a mais de energia e não 100%. A esse fenômeno dá-se o nome “economia de escala". Um similar dimensionamento de escala se mostra real para todos os processos fisiológicos e eventos históricos da vida.

As cidades, ainda que guardem características próprias, têm algo em comum: são redes. A pergunta que o conferencista faz é: “Será que elas mudam de uma maneira regular conforme comparamos cidades de tamanhos diferentes?". Ou seja, o funcionamento de redes na biologia, seja um ecossistema, um sistema respiratório ou uma célula, pode ser comparado à formação em rede das cidades?

West e sua equipe constataram que o mesmo que ocorre com os animais ocorre em postos de gasolina. Quanto maior a cidade, menor a recorrência de postos por área – mas na proporção de 15% menos em vez de 25% no caso anterior. O mesmo princípio de aplica ainda quando analisadas as infraestruturas urbanas (comprimento de vias, linhas elétricas, tubulações de gás etc.).

Contiguamente, se uma cidade crescer o dobro de seu tamanho, sua população terá 15% de economia em infraestrutura, 15% mais renda per capita, 15% mais profissionais com alta criatividade, 15% mais patentes, 15% mais crime, 15% mais policiamento, 15% mais impostos, 15% mais corrupção etc. As pesquisas para a extração desses dados foram realizadas em cidades de todo o mundo.

Mais uma vez, West afirma: cidades são formadas por redes, redes de pessoas interagindo umas com as outras e com seus ambientes, e isso ocorre em todo o mundo. Para o físico, seria salutar a existência de métodos para mensurar a quantidade de interação significativa nesta rede.

A pesquisa acerca das redes na cidade deflagrou que o ritmo de vida social acelera com o crescimento urbano enquanto o ritmo de vida biológico decai.

Em termos de cálculo, o gráfico que representa o crescimento da cidades, diferentemente do que ocorre na vida biológica, indica uma curvatura ascendente infinita (o que significaria, por exemplo, que em um tempo infinito teríamos o crescimento infinito do PIB). Contudo, como isso não pode ocorrer, o crescimento exponencial não pode ser sustentado para sempre, e, em dado momento, o sistema será levado a uma mudança e entrará em colapso.

Para evitar o colapso de uma cidade (como já ocorreu no passado), é preciso desenvolver inovações. Cada novidade “reinicia" o gráfico e ele proporcionará o início de um novo ciclo. O novo ciclo, mais uma vez, tenderá ao crescimento exponencial e ao colapso. E, para evitá-lo, será preciso se reinventar, criando um ciclo contínuo de inovação.

A grande questão se refere ao tempo: cada novo ciclo exige maior velocidade de inovação. O tempo da reinvenção está cada vez mais curto. “Será que nós vamos sustentar essa reinvenção contínua, de modo a manter esse crescimento superlinear sem limite?", se preocupa West.

O físico finaliza sua conferência com a seguinte preocupação: o ritmo metabólico de nosso corpo é de aproximadamente 90 watts, enquanto nosso ritmo metabólico social em uma cidade grande é de 11 mil watts. Se nosso consumo fosse revertido a um consumo metabólico biológico, nós seríamos gorilas de 30.000kg ou 12 elefantes africanos.

Sabemos que muitas pessoas deste planeta não vivem nesse padrão, mais visam chegar aos 11 mil watts – e isso vale tanto para aqueles que já vivem nas cidades grandes quanto para aqueles que ainda viverão.

Ademais, não há lideranças políticas mundiais capazes de enfrentar essa questão. A velocidade de inovação e de resposta política às questões urbanas é sistemicamente mais lenta que a necessidade das cidades, e os políticos têm dificuldade de estabelecer planos de longo prazo. “Apesar das inovações, e eu acredito nas inovações, eu sou um pouco pessimista em relação ao futuro", encerrou Geoffrey West.

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