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Werner Herzog

Obra e ideias de Werner Herzog

Werner Herzog é um dos principais nomes do movimento cinematográfico na Alemanha do pós-guerra. Com uma obra densa, controversa e referencial, escreveu, produziu e dirigiu filmes e documentários como Aguirre, Fitzcarraldo, Nosferatu e O Homem-Urso. A partir de uma abordagem autêntica e polêmica, tornou-se mundialmente conhecido por fazer filmes com baixo orçamento e rodados, geralmente, em cenários inóspitos. Na sexta conferência da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, o cineasta falou sobre sua obra – apresentando trechos de diferentes filmes –, seu modo de fazer cinema e sua visão de mundo. 

Herzog iniciou comentando sobre as facilidades tecnológicas dos dias atuais, em que é possível filmar uma produção até mesmo com um aparelho de celular – citando o filme Tangerina, de 2016, como exemplo – e editar em casa. Os equipamentos e a internet facilitam o trabalho, mas possuem um lado negativo. “Se você não encontrar ninguém para distribuir o seu filme, talvez através da internet, do YouTube, você encontre a sua plataforma. E, logo, você alcança 50 milhões de visualizações. Se espalha como fogo na floresta. Claro, a internet não é apenas uma glória dos nossos tempos. Ela não é só luz ou coisas positivas. Precisamos ter ciência de que, quanto mais estamos conectados, quanto mais nos conectamos através do Facebook, do Twitter, da internet, mais profunda a solidão se torna. Nós estamos vivendo um século de solidões. Eu já vi que isso ia acontecer há algum tempo. Eu falei sobre isso. Mesmo antes de a internet existir. Que nós teríamos um século de solidões à nossa frente.”

Segundo ele, a juventude, atualmente, está sendo desperdiçada. E a conexão permanente, além da falta de contato e de relações reais, pode gerar casos de depressões profundas. Esta ligação com o real é o que ele persegue em suas produções. “Eu sempre fui um cineasta que fez questão de estar fisicamente presente. De pés no chão, a gente pode dizer. E não em grandes produções hollywoodianas. Consegui fazer filmes com pouco dinheiro. Hoje em dia, se você é jovem cineasta, não reclame que Hollywood ou que o governo não está financiando os seus filmes. Não fique reclamando. Arregace as mangas e faça um longa ou um documentário que vai lhe custar menos do que US$ 5 mil. Você pode fazer um longa para grandes cinemas, com uma qualidade realmente profissional, por menos de US$ 20 mil.”

Seu longa-metragem mais recente – Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin – foi apresentado, em abril de 2019, no Festival de Cannes. Filmado com uma câmera simples, foi financiado pelo próprio Herzog, para falar sobre a vida do jornalista e amigo britânico, que faleceu em 1989. O cineasta apresentou um trecho do filme, captado na região de fronteira entre a Inglaterra e o País de Gales, e explicou o contexto. “O que acontecia era que o Bruce Chatwin tinha uma relação muito forte com a paisagem. E eu também. E o que vocês vão ver aqui, neste trecho, é a conexão de uma paisagem pré-histórica, uma paisagem neolítica na Inglaterra. E como a música, de alguma forma, eleva as imagens que vemos em algo muito estranho. Quase religioso. E vocês têm pessoas. Eu encontrei pessoas nesta localização que veneram de forma quase religiosa estas pedras que foram colocadas lá há 6, 7, 8 mil anos. Então, eu vi estas pessoas e, imediatamente, comecei a filmar. Absolutamente sem nenhuma preparação.” A cena mostra algumas pessoas em Wiltshire, no Silbury Hill, a maior estrutura neolítica do mundo. No trecho, analisam, com aparelhos especiais, a energia que emana no local. 

Para Herzog, chegar na montanha e encontrar o grupo de pessoas interagindo com o local – mesmo que de forma estranha ou inusitada – e partir para o registro é a grande missão de um cineasta. “Enquanto cineasta, você precisa compreender isso: o momento certo, o humor certo, as pessoas certas. Você precisa pegar isso, identificar isso. E é isso que o torna um cineasta. E isso você não consegue aprender na universidade de cinema. Num curso de cinema. Você aprende isso na vida, em coisas fundamentais que acontecem na sua vida. Sabem, eu fui feito prisioneiro na área central da África, o que não foi muito agradável. Mas me levou a compreender o coração do homem. Se você não consegue compreender o coração dos homens, você não pode ser um grande cineasta. Então, são qualidades que você não pode aprender na escola, ou com professores, ou sendo um assistente.”

Atualmente, Herzog está filmando na Austrália uma produção sobre meteoritos, especialmente do mistério que cerca algumas substâncias que os meteoritos contêm e quanto à origem do planeta e da possibilidade de a vida ter iniciado em outro local e ter sido depositada na Terra. “Possivelmente até a água no nosso planeta veio de asteroides e meteoritos. Talvez algumas formas de vida. Talvez outras coisas tenham vindo através dos meteoritos para o nosso planeta. E eu gostaria de filmar, em breve, no Vaticano, e pedir a um arcebispo ou perguntar ao papa mesmo: ‘Caso a vida tenha se originado em outro planeta, e tenha vindo até nós através dos meteoritos, então como a criação de Deus aconteceu?’. Eu gostaria de perguntar ao papa: ‘Se encontrasse um alienígena, você o batizaria?’.” 

Ele mostrou um trecho, bruto e ainda sem edição, de uma captação realizada na Índia, e da integração de imagens e música. “O que vocês ouviram aqui foi violoncelo com cantores sul-indianos, no Sul da Índia. Você tem uma música de coral de pastores muito antiga. Ela é quase pré-histórica. E esta música pré-histórica de uma certa forma eleva as imagens. As coloca no nível do sublime. Eu quero mostrar para vocês um material ainda bruto. Foi feito há algumas semanas, mas eu queria mostrar a vocês como eu estou testando música.”

No final da cena, ele mostrou um meteorito transparente, que contém certas formas que não deveriam existir, com uma estrutura que não é lógica. São estas perguntas, que prendem a sua curiosidade e sua imaginação, que servem como motor para novos projetos. “É uma questão de intensidade. A intensidade da visão que você tem. E agora é tão intenso e, às vezes, é tão intenso em longas-metragens, que eu consigo ver, em uma visão de todo o filme, a história inteira como se eu estivesse vendo na tela. E por causa disso eu escrevo os roteiros muito rápido. Se vocês observarem a indústria de Hollywood, talvez eles demorem um ano, dois anos para escrever um roteiro. Aguirre – A Cólera dos Deuses eu escrevi em dois dias e meio, com os meus colegas bêbados num ônibus. E cantando músicas pornográficas à minha volta. Aí um amigo vomitou na minha máquina de escrever, nos meus joelhos. E, mesmo assim, eu escrevi este roteiro em dois dias e meio. Por quê? Tenho uma visão muito forte que eu tento comunicar para vocês. Parte dela é tão evidente que dispensa explicação. Tem uma parte desta visão que combina muito bem com a música, porque a música de certa forma nos leva a compreender uma paisagem de forma mais profunda. E tento criar uma conspiração. Uma conspiração entre você – o espectador – e o que está na tela.”

Segundo Herzog, muitas vezes esta conspiração se manifesta de forma absoluta. Para comprovar, ele exibiu um trecho do filme Vício Frenético. Na cena, o detetive interpretado por Nicolas Cage encontra outros policiais da divisão de homicídios e se surpreende ao ver algumas iguanas em cima de sua mesa de café. Mas ninguém as enxerga, apenas o detetive e o espectador. “Então, é uma relação bem estranha que eu estabeleci entre o público e o protagonista. Tanto o protagonista quanto vocês, enquanto público, compartilham: sim, tem iguanas. E iguanas que só existem na fantasia dele. É um material bem estranho que vocês podem ver. Eu filmei eu mesmo quando vocês veem as iguanas em close. Eu tinha uma lente bem pequena, talvez com uma cabeça tão pequena quanto a cabeça de um fósforo. E um cabo de fibra ótica muito fino. E aí eu podia conectar, e isso então estava sendo gravado, e eu tentei chegar tão perto quanto possível. A pele e o rosto da iguana. Então, eu mexia aquela lente minúscula pelo seu corpo. E, claro, as iguanas estavam com uma expressão – pareciam burras. Elas pareciam muito burras. Nenhum animal pode ter uma cara tão abobada quanto a dessa iguana. E elas estavam surpresas. Mas eu queria filmar neste êxtase de visão.” 

O cineasta, assim, afirmou gostar de tudo que é relacionado ao cinema: filmar as próprias cenas, escrever o roteiro, dirigir e, até mesmo, atuar. Ele interpretou o vilão num dos filmes da franquia Jack Reacher, com Tom Cruise. No trecho apresentado na conferência, ele atua com outro ator, e o instiga a comer os próprios dedos, como o seu personagem fizera anteriormente na Sibéria ao passar fome preso em um gulag. O outro ator faz algumas tentativas, mas não consegue, e acaba morto com um tiro. “E aí ele tenta, e o que é interessante é como eu permaneço o observando. Como eu interajo com ele. Eu espero o momento certo para dizer a minha própria fala. A atuação é igual à química entre os atores. Não basta o nome de uma grande estrela e depois uma segunda estrela. A química não funciona assim. Você vai criar um filme natimorto. Já está morto quando é criado. A gente vê isso com os bebês natimortos. Estes bebês. Por exemplo, Angelina Jolie e Johnny Deep no mesmo filme como amantes. E não passa nada. Não tem brilho, não funciona. Então, como esta interação, como você interage em cena, como você cria medo na expressão daquele ator. Ele era um bom ator, mas eu instilei medo nele. E, mais do que isso, eu quis instilar medo no público.”

Herzog terminou sua conferência relatando ter trabalhado com atores muito criativos. E que, para ele, é fácil interpretar um vilão e criar um papel que é a estilização dele mesmo. “Como uma pessoa bem privada, posso dizer que não sou assim. Eu posso garantir para vocês. Eu deveria trazer a minha esposa aqui e ela ia dizer que eu sou um amorzinho”, finalizou. 


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