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Werner Herzog

Obra e ideias de Werner Herzog

Werner Herzog é um dos principais nomes do movimento cinematográfico na Alemanha do pós-guerra. Com uma obra densa, controversa e referencial, escreveu, produziu e dirigiu filmes e documentários como Aguirre, Fitzcarraldo, Nosferatu e O Homem-Urso. A partir de uma abordagem autêntica e polêmica, tornou-se mundialmente conhecido por fazer filmes com baixo orçamento e rodados, geralmente, em cenários inóspitos. Na sexta conferência da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento São Paulo, o cineasta falou sobre sua obra – apresentando trechos de diferentes filmes –, seu modo de fazer cinema e sua visão de mundo.

Herzog iniciou sua apresentação falando sobre o prazer de estar de volta ao Brasil. “Parte da minha alma vive aqui no seu país. Principalmente na Amazônia. É onde me sinto mais em casa. Eu já voltei diversas vezes. E talvez fosse para a Amazônia mais uma vez a trabalho. Vamos ver se acontece. Nós temos alguns planos em andamento.”

Também abordou sobre o tipo de processo que tem conduzido em seu trabalho nos últimos anos. Graças à tecnologia digital, é possível editar muito rapidamente uma produção. “Alguns dos filmes que eu produzi, como O Homem-Urso, por exemplo, foram editados em nove dias. Outros demoraram um ano e meio. Então, é sempre impressionante ver as possibilidades da cinematografia digital. Que não é cara, mas pode ser enganosa. Já vi jovens cineastas que têm muito orgulho, vêm falar comigo e dizem: ‘Ah, eu estou filmando há quatro anos. E já tenho 650 horas de imagens’. Eu fico deprimido de pensar: 650 horas. Não sei o que eles estão fazendo. E aí demora dois anos e meio para editar. O mercado não permite isso. Você precisa se concentrar, precisa ser objetivo, conciso. Nos últimos 12 meses, eu produzi três longas-metragens.”

Entre eles estão Encontrando Gorbachev e Nomad: In the Footsteps of Bruce Chatwin, este contando a vida do amigo e jornalista britânico, que faleceu em 1989. Também lançou um longa-metragem narrativo, que foi produzido no Japão. Family Romance, LLC mostra o amor como um negócio rentável. “Começou com um homem, que é o ator principal do filme, que fundou uma empresa chamada Romance em família, que aluga pessoas. Se você estiver solitário, quiser um amigo, pode alugar um amigo, ou uma amiga. Você pode alugar um pai para ir a um casamento, por exemplo. Se o pai de verdade não puder comparecer – porque ele é alcoólatra, está bêbado – aí a família da noiva rapidamente pode alugar um pai substituto, um pai falso. E o que é mais incrível é que esse fenômeno explodiu no Japão. E está inclusive chegando em outros países. No filme tudo é inventado, tudo é fake news. Tudo é mentira. Tudo é forjado. Mas as emoções humanas são sempre verdadeiras.” 

Herzog apresentou um trecho do filme e esclareceu que financiou a produção com recursos próprios. “Este filme foi feito com pouco dinheiro. Fui meu próprio cinematógrafo. Tinha uma equipe de três, quatro pessoas. Às vezes, só duas. E é um longa-metragem produzido para o cinema que foi exibido em Cannes em telas enormes. E eu tenho muito orgulho de ter produzido este filme.”

O cineasta contou que filmou no Japão com uma câmera pequena, inclusive em um parque com pessoas ao redor que não perceberam se tratar de uma produção cinematográfica. Diferente de outro tipo de produção, como Exterminador do Futuro e Guerra nas Estrelas. Ele citou ter participado como ator de um filme da série The Mandalorian. “Eu fiz um papel pequeno. E, nestes filmes enormes, é claro que é totalmente diferente. No cinema independente, a gente desaparece. Neste tipo de produção, os filmes sobrevivem, vão ter uma vida longa. Então, eu tenho muito orgulho de estar voltando ao tempo em que eu tinha 23, 24, 25 anos, quando eu produzi os meus primeiros filmes, que eram exatamente desta forma. Estou retornando ao lugar onde eu estava quando eu era jovem.”

Herzog mostrou outro trecho que apresenta a atuação dos atores em sintonia com a trilha sonora. Em determinado momento do filme Meu Filho, Olha o Que Fizeste os atores permanecem congelados, olhando para a câmera, enquanto a música é executada. “E ficam parados. E ficam ali até a música acabar. É um momento muito estranho. E o meu cinegrafista e a minha equipe disseram: ‘Não, você não pode passar isso num cinema. De repente, estes dois atores estão ali, congelados. Aí eles viram e olham para a câmera’. E eu falei: ‘Não, vamos, sim. Porque, em última análise, nós estamos inventando o cinema’. E foi isso que eu sempre senti: que eu estava inventando o cinema. Eu sempre fiz coisas que quebravam as regras. Que estavam fora daquilo que era considerado como as regras do contar histórias. E não tenho problema algum em quebrar estas regras. Então, este é um momento muito estranho do filme Meu Filho, Olha o Que Fizeste. É uma história, inclusive, que não terminou. Eu sempre quis fazer esta história.” A música, na cena em que os atores estão congelados, é de Caetano Veloso. E, para o cineasta, mostra a conspiração que pode existir entre o filme e o espectador.

Segundo Herzog, muitas vezes esta conspiração se manifesta de forma absoluta. Para comprovar, ele exibiu um trecho do filme Vício Frenético. Na cena, o detetive interpretado por Nicolas Cage encontra outros policiais da divisão de homicídios e se surpreende ao ver algumas iguanas em cima de sua mesa de café. Mas ninguém as enxerga, apenas o detetive e o espectador. “Então, é uma relação bem estranha que eu estabeleci entre o público e o protagonista. Tanto o protagonista quanto vocês, enquanto público, compartilham: sim, tem iguanas. E iguanas que só existem na fantasia dele. É um material bem estranho que vocês podem ver. Eu filmei eu mesmo quando vocês veem as iguanas em close. Eu tinha uma lente bem pequena, talvez com uma cabeça tão pequena quanto a cabeça de um fósforo. E um cabo de fibra ótica muito fino. E aí eu podia conectar, e isso então estava sendo gravado, e eu tentei chegar tão perto quanto possível. A pele e o rosto da iguana. Então, eu mexia aquela lente minúscula pelo seu corpo. E, claro, as iguanas estavam com uma expressão – pareciam burras. Elas pareciam muito burras. Nenhum animal pode ter uma cara tão abobada quanto a dessa iguana. E elas estavam surpresas. Mas eu queria filmar neste êxtase de visão.”

Herzog declarou que gosta muito de assistir a esta cena. Seja sozinho ou com uma plateia. Na parte final, explicou o cinema como uma forma purista de arte, e trouxe o exemplo de Fred Astaire. Um ator que, para ele, realizou algo especial. “Ele fez uma coisa que é epítome do cinema. Que era a luz, a sombra, o movimento e a música. Não dá para simplificar mais do que isso o cinema. E outra coisa genial é que ele brinca com algo que eu chamo de a segunda história. A história independente.”

Ele citou o gênero da comédia romântica, no qual é possível ver a história acontecendo, mas a plateia também se desloca do filme e desenvolve uma história paralela. “Numa comédia romântica, os jovens amantes têm um obstáculo após o outro, são separados. E, a partir deste momento, nós, como espectadores, começamos a correr adiante da história. ‘Será que eles vão voltar a ficar juntos? Por favor, fiquem juntos novamente. Por favor, filme, nos dê a possibilidade de vermos estas duas pessoas apaixonadas novamente.’ Então, nós vivenciamos uma história separada. Nós estamos em outra história. E o Fred Astaire, de certa forma, está em outra narrativa. Ele dança, ele vê as suas sombras. E nós nos sentimos muito à vontade com aquelas sombras. E, de repente, aquelas sombras vão à loucura. É como se a história se separasse de Fred Astaire. É uma coisa que parece simples, mas é tão sensacional que eu gostaria de compartilhar com vocês”, finalizou, apresentando um trecho de filme de Astaire. 


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