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Leïla Slimani

Quem sou eu: identidade, cultura e sociedade

Expoente da literatura francófona, a franco-marroquina Leïla Slimani venceu, em 2016, o Prêmio Goncourt com o romance Canção de ninar. O livro, que aborda de maneira direta e crua a questão da maternidade, vendeu milhares de exemplares e foi publicado em diversos países. Nascida no Marrocos, mas morando na França, a escritora e jornalista não se sente francesa nem marroquina. Mas defende seu direito de enaltecer as qualidades de cada um dos países e de apontar os seus problemas. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, mesclou depoimento pessoal e explanação sobre o seu processo criativo, enfatizando que, em seus livros, não procura defender bandeiras ou ideologias, mas sim explorar as áreas reservadas à vida íntima dos personagens, enaltecendo o outro e valorizando o poder criativo da literatura.

“Se penso ou sinto, ignoro / Quem é que pensa ou sente.” Citando Ricardo Reis, um dos heterônimos do escritor português Fernando Pessoa, Slimani iniciou afirmando que não sabe, de fato, quem é. “De acordo com meu estado civil, sou mulher, marroquina e francesa. Para o estado marroquino, eu sou muçulmana e a lei do Alcorão se aplica a mim, quer eu acredite em Deus ou não. Aos olhos de muitos franceses, eu sou imigrante, uma francesa, é claro, mas de origem estrangeira. O que isso diz sobre mim? Isso é suficiente para me definir? Para ser sincera, essas chamadas identidades me parecem totalmente abstratas, tão inatingíveis quanto o vento, tão confusas quanto os contornos de uma casa perdidos em uma névoa espessa.”

De acordo com ela, a sua trajetória de vida foi construída a partir dessa espécie de rompimento, de dois lugares. Uma ruptura que iniciou com o seu pai, quando ele pôde estudar em uma escola francesa no Marrocos e lhe teve delegada uma posição de europeu dentro do país. No coração de seu pai, havia essa crise de identidade desde cedo, uma espécie de falta de pertencimento. Sentimento do qual compartilhava a mãe de Slimani, filha de uma alsaciana com um árabe e que sofria com o preconceito tanto de marroquinos quanto de franceses. “Meus pais costumavam me dizer que se sentiam ‘marginais’. É uma palavra que continua voltando para mim. Eles estavam longe, não se sentiam totalmente pertencentes a nenhuma comunidade. Eu sou o produto disso. Eu cresci em Rabat na década de 1980. Fiz todos os meus estudos em uma escola francesa. Pertencia a um meio burguês, em um país muito pobre e principalmente rural. Quando criança, minha vida consistia em ir do meu bairro nobre para o meu colégio, acima do qual flamulava a bandeira da França.” 

Na adolescência, mesmo se sentindo diferente dos amigos, Slimani desenvolveu uma certa consciência identitária. “Eu queria, como meus camaradas, celebrar o Eid el-Kebir com minha família, para receber amigos durante as longas tardes do Ramadã, queria falar árabe como eles. Meu país parecia incompreensível para mim. Aos olhos dos marroquinos, eu sabia que era apenas uma pequeno-burguesa que falava dialeto árabe com o sotaque francês. Meu pai percebia isso, e acho que ele estava sofrendo por deixar de transmitir essa herança, de fornecer raízes. Na época, eu ainda não sabia que eles haviam me fornecido armas para ser uma mulher livre.”

Esta era, para ela, uma consciência vaga e imatura, mas que se apoiava no orgulho que sentia, especialmente do pai e do avô materno. “Meu avô foi à guerra por um país do qual ele não tinha cidadania. Um país que dominou e humilhou como ele havia dominado e humilhado meu pai. Mas este país também os educara, treinara, lhes dera, de certo modo, os instrumentos de sua emancipação. Daí a relação profundamente ambígua que os dois tinham com a França. Ao mesmo tempo, eles haviam integrado muitas coisas como a língua francesa, valores universais, um certo modo de vida. Eles estavam interessados em notícias francesas, na política francesa. E, às vezes, eles deixavam escapar uma certa raiva, até uma amargura em relação a esse país.” 

Aos 18 anos, Slimani mudou-se para Paris para continuar os estudos. E a relação ambígua com os dois lugares permaneceu. Na França, não se considerava nem pertencente nem estrangeira. “Tinha o sentimento de conhecer esse país, de dominar os códigos, a cultura, a língua. Eu os conhecia, mas eles não me conheciam. Eu senti o que James Baldwin, um autor afro-americano, descreveu tão bem sobre a comunidade branca nos Estados Unidos: ‘Eu sei mais sobre vocês do que vocês sabem sobre mim’.” Ao mesmo tempo, o exílio causou a Slimani uma espécie de erosão em sua identidade, fazendo com que suas questões se tornassem menos radicais do que antes. Ao formar-se jornalista, virou correspondente do jornal Jeune Afrique e pôde viajar pelo Marrocos. “Tive a impressão de voltar a conquistar o meu país. Meu pai já tinha morrido, deixando-me órfã do meu lado marroquino. Ao ir buscar por matérias e denúncias nas cidades e no campo onde eu nunca tinha pisado, eu estava me alimentando da ambição de recuperar o meu lugar nessa sociedade. Acreditava que o destino me oferecia uma segunda chance para provar que eu era marroquina e para me fazer amar meus concidadãos. Foi um momento emocionante. E tenho uma lembrança maravilhosa de tempos passados viajando pelo país, conhecendo pessoas, ouvindo suas histórias. Mas a distância entre eles e eu não desapareceu. Tive a impressão de que o Marrocos era um pouco parecido com um homem por quem eu era apaixonada durante anos e que não me queria. Eu aguentei, fiz tudo para seduzi-lo, convencê-lo. Mas ele, no entanto, me rejeitou.” 

Aos poucos, sentiu que havia se tornado cada vez mais francesa: casou com um francês, teve um filho e colocou nele um nome francês e um nome marroquino, e passou a exaltar as suas diferenças ao mesmo tempo em que compreendeu que um árabe que se expressa bem e é polido acaba, aos olhos dos outros, tendo a pele menos escura e os cabelos menos crespos. Slimani contou o episódio de quando foi ofendida por um homem, que a chamou de “escória”, ao sair de um restaurante carregada de sacolas e esbarrar acidentalmente na mulher ao lado dele. Com uma voz calma e paciente, ela pediu desculpas e tentou esclarecer a situação, amenizando a raiva do agressor. “Este episódio, totalmente anedótico, a princípio me deixou muito orgulhosa de mim mesma. Eu consegui prendê-lo, ridicularizá-lo. Mas, nos dias que se seguiram, senti um certo desgosto por mim mesma. Senti-me obrigada a desempenhar o papel da menininha, para tranquilizá-los. Eu era como eles, não como os outros. Não havia me rebelado contra o racismo deles, contra a grosseria deles. Eu abaixei minha cabeça, me deixei ser humilhada. Mais importante: não mostrei nenhuma solidariedade para com aqueles que são, todos os dias, vítimas do racismo. Se naquele dia eu tivesse usando um véu, se tivesse um forte sotaque ou dificuldades para me expressar em francês, se tivesse ficado com raiva, como isso teria acontecido? Naquele dia, me perguntei: ‘Será que eu traí os meus? E a propósito, quem são os meus?’.” 

Em 11 de setembro de 2001, o mundo descobriu o islamismo político. E ser muçulmano tornou-se uma identidade. “Um dia, eu estava conversando com um dos meus amigos escritores. Ele ficou surpreso com a incrível cobertura da mídia do meu primeiro romance sobre o vício sexual. Os jornalistas gostavam de insistir que uma ‘marroquina’, uma ‘muçulmana’, havia escrito um livro muito cru e muito subversivo sobre sexo. Meu amigo riu e disse: ‘Basicamente, você é árabe como nós gostamos’. Eu pensei muito nessa frase. Ela continua a me assombrar. Sim, está certo, sou árabe como eles gostam. Eu sou árabe que não vê, que não interfere, árabe que prova que a integração é possível. Eu estava um pouco envergonhada. Eu tinha escolhido o meu lado.”

Defensora do secularismo, da igualdade, da liberdade de consciência e do direito de dispor do corpo, a escritora também é vítima de críticas do lado oriental. Após escrever seu livro de não ficção intitulado Sexo e mentiras – que traz os depoimentos de muitas mulheres sobre sua relação com a sexualidade, o corpo e os tabus que existem no Marrocos –, Slimani foi criticada por utilizar sua relação com o Islã, de ser ocidentalizada e de querer impor um modelo estrangeiro à mulher muçulmana. “Vou citar Amin Maalouf, cuja aspiração eu compartilho: ‘Todos devem ser capazes de incluir, no que considera ser sua identidade, um componente novo, destinado a tornar-se cada vez mais importante no novo século, no novo milênio: o sentimento de pertença também à grande família humana’.”

Essa noção de ser estrangeiro, que Slimani considera puramente metafísica, pode ser aplicada para um país ou, até mesmo, dentro de uma própria família. “Meus personagens geralmente vivem em um ambiente muito solitário e sentem grande dificuldade em se comunicar com os outros. Eles têm o sentimento confuso de não pertencer a nenhuma comunidade, de não fazer parte de qualquer grupo que possa compreendê-los ou demonstrar solidariedade. Até mesmo seus familiares parecem estrangeiros para eles. A vida se desdobra diante de seus olhos sem que eles tenham a sensação de dominar ou pertencer a nada.”

A França, onde mora atualmente, não tem nenhuma relação com o país que a avó de Slimani conheceu. Novos debates surgiram, assim como conflitos pontuais – como o atentado à boate Bataclan –, e a questão de identidade está sendo mais discutida do que nunca. Como, enfim, estabelecer limites fixos ou parâmetros rígidos para algo como a identidade? “Um homem como Stefan Zweig sabia melhor do que ninguém. Em uma carta ele diz: ‘Eu considero a ideia nacional perigosa. Eu conheço e amo homens, amo línguas e suas mentes diversas. Mas vejo nos Estados apenas formas contingentes. Quem eu sou, por exemplo? Alemão, se estivermos ligados à Alemanha; austríaco, se pensarmos na independência; da Checoslováquia, porque meu pai é um alemão da Boêmia e podemos ser anexados amanhã; judeu, se os judeus se tornarem uma minoria nacional. Como eu, milhões de pessoas não sabem quem são’.”

No caso de Slimani, muitos ainda a questionam sobre se sentir mais francesa ou mais marroquina, especialmente os jornalistas. “Essa pergunta me deixa com raiva, porque ela assume que eu teria encontrado dentro de mim uma espécie de identidade fundamental, uma espécie de propriedade absoluta, que eu poderia usar e ficaria orgulhosa. A realidade é muito mais complexa. De acordo com os tempos, dependendo de onde eu sou, de acordo com a pessoa que eu tenho na minha frente, uma das minhas identidades substitui a outra, afirma-se com mais força ou emoção. Ela continua mudando, evoluindo. Acredito que é sempre errado defender uma visão simplista de identidade; isso favorece atitudes sectárias, intolerantes e fechadas sobre si mesmo.” A resposta da escritora segue, invariavelmente, a mesma: o que as pessoas são interessa menos do que no que elas acreditam ou aquilo pelo qual elas lutam.

Em seus dois romances, a escritora deu pouca importância à questão da identidade étnica. Em Canção de ninar, Myriam – a patroa que contrata Louise – é de origem magrebina, enquanto que a babá é branca. Adèle, personagem de No jardim do ogro, também tem origem magrebina. “Para mim, primeiro foi interessante colocar o leitor de frente para seus próprios clichês. Claro que, na maioria dos casos, o empregador é branco e a babá é negra. Mas a literatura não precisa fazer isso. A literatura deve abraçar a realidade em sua complexidade, deve se apropriar de casos particulares e significativos. Existem situações em que crianças imigrantes dão ordens aos brancos. Isso foi para mim uma maneira de acrescentar a violência social que define a relação entre essas duas mulheres. Em Canção de ninar, não volto ao passado de Myriam, sua família, todos os problemas de identidade que ela possa ter enfrentado em sua vida. Isso também surpreendeu.”

De acordo com Slimani, a literatura possibilitou que ela tivesse contato – como leitora – com muitas identidades. “Quando criança, devorei os romances de Tolstói, Jack London ou Pearl Buck, experimentei a universalidade, que é o coração da literatura. No meu quarto, em Rabat, me senti russa, chinesa e norte-americana. Eu compartilhei emoções com personagens cuja identidade era bastante estranha para mim. A coisa maravilhosa sobre a literatura é que ela nos permite sentir o que, no cotidiano de nossas vidas, tristemente tendemos a esquecer: a saber, pertencer à comunidade dos homens. Graças ao romance, experimentamos com a mesma intensidade a paixão de uma alma russa, a desordem de um baleeiro norte-americano ou a melancolia de um general colombiano. ‘Arte’, escreveu Albert Camus, ‘não é uma alegria solitária. É uma maneira de emocionar o maior número possível de pessoas, oferecendo-lhes uma imagem privilegiada de sofrimentos e alegrias que temos em comum. Aquele que escolheu o seu destino como artista porque se sentiu diferente, aprende que só alimentará a sua arte confessando a sua semelhança com todos’.”

Slimani afirmou que, para um escritor francês ou inglês, é dado o direito dos temas universais. Mas que, de um escritor de origem muçulmana, é esperado que ele escreva sobre o Islã e a sua identidade. “Muitas vezes, eu me perguntava se era um problema ser, como eu, um escritor sem território. Para ser uma romancista que não esteja profundamente enraizada em sua terra, que não tenha raízes fortes das quais eu possa extrair minha inspiração. Especialmente pelo fato de que sempre apreciei a herança dos grandes escritores como Dickens na Inglaterra, Hugo na França, Jorge Amado no Brasil ou Philip Roth nos Estados Unidos. Mas basta ouvir o escritor Dany Laferrière para me tranquilizar. Originalmente do Haiti, ele migrou para o Canadá. É hoje um membro da Academia Francesa e uma figura altamente respeitada no mundo intelectual. Segundo ele, ‘o escritor não tem nacionalidade. Ele é do idioma e do país da pessoa que lê. A identidade, acrescenta, é como andar de bicicleta, se você olhar apenas para a roda da frente, você cai’. No final, a literatura não é esse território imenso e sem fronteiras onde por vezes passamos uma vida à procura da nossa própria identidade?”

E é essa liberdade que a escritora pretende passar adiante. “Meu pais nunca me disseram que, como mulher, como muçulmana, como marroquina, eu tinha que me comportar ou me vestir de um jeito ou de outro. Minha herança é principalmente um legado de valores. No momento em que exaltamos os refúgios de identidade e choramos identidades perdidas, tive o imenso privilégio de poder me inventar. E se essa liberdade, às vezes, parece vertiginosa, muito menos confortável do que os papéis prontos para serem interpretados, ela é o presente mais lindo que recebi e o que pretendo transmitir. E são essa liberdade e essa identidade que deixamos para os nossos filhos”, finalizou. 


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