Voltar para Resumos

Kwame Anthony Appiah

Revoluções morais no século XXI

O segundo semestre do Fronteiras do Pensamento em 2013 tem início com a conferência de Kwame Anthony Appiah. Nascido na Inglaterra, o escritor foi criado em Gana e aborda em suas obras questões como racismo, identidade e moral. Atualmente, é professor na Universidade de Princeton nos Estados Unidos, onde leciona Filosofia.

Em sua conferência, Appiah propôs a reflexão sobre as potencialidades revolucionárias contemporâneas se apoiando em estudos de caso do passado que evidenciam avanços morais significativos.

O primeiro caso observado foi o da mutilação genital feminina no Quênia. Jomo Kenyatta, primeiro presidente do país independente dos ingleses, procurou combater a Igreja Presbiteriana (que se opunha a essa prática). Desde a Revolta dos Mau-Mau, que visava ao fim da dominação inglesa, a “circuncisão feminina" tomou força como um elemento central da cultura dos quicuios – etnia que se tornou a maior e mais forte depois da ocupação europeia e também liderou a revolta que culminou na independência do Quênia.

O ataque à Igreja fez com que o hábito da circuncisão, que poderia desaparecer silenciosamente ao longo do tempo, se fortalecesse e perpetrasse. “Metade das mulheres do Quênia sofreram esse hábito" salientou Appiah. Para nós, a mutilação genital feminina pode parecer estranha, mas para eles os hábitos estrangeiros são esquisitos também, “especialmente quando se trata de gênero, que tocam as pessoas no coração de suas famílias, seus relacionamentos com seus maridos e suas esposas, crianças e, muitas vezes, com seus deuses". Portanto, a crítica de fora pode produzir apenas uma atitude defensiva, “sobretudo quando os costumes fazem parte da normalidade de pessoas simples", concluiu o conferencista.

Para entender o argumento, basta pensar de modo invertido. Se um queniano lhe abordasse e dissesse que é vergonhoso o modo como educamos nossas meninas, nossa reação tenderia a uma postura defensiva.

Para que um ator externo consiga contribuir com a cultura de um povo, de modo a afetar positivamente sua moral, é preciso que aja com cautela e aprenda com a história. O caso que parece oferecer mais elementos para a investigação acerca das formas para se atingir uma reforma cultural foi o movimento contra a prática de atar os pés na China.

Durante a dinastia Sung (960-976 a.C.) nasce o hábito de enfaixar os pés das meninas para que estes se pareçam com uma flor de lótus. Já aos três ou quatro anos de idade, os quatro dedos menores eram dobrados até a sola do pé e o calcanhar era forçado para baixo por meio das ataduras. Os pés ficavam pequenos, de 7 a 10cm aproximadamente, e eram considerados belos e, por essa razão, chamados “lótus dourado". A tradição se sustentou especialmente por meio da crença de que seria preciso ter os pés de lótus para conseguir um casamento.

Em uma área rural, a 125 milhas de Pequim, a porcentagem da prática passou de 99% a 94% em dez anos e depois a zero em mais dez anos. Esse fato, que culminou em 1919, levou uma geração para consolidar a erradicação da prática milenar de atar os pés. Foi um processo que se deu por meio da intervenção de ativistas e nota-se que tiveram um sucesso muito maior do que os presbiterianos no Quênia. “Não que eles tivessem novos argumentos. Os chineses sempre souberam que atar os pés produzia sofrimento e fraqueza física nas mulheres", acrescentou Appiah. Afinal, ocasionalmente os dedos caíam por causa da gangrena e as dores diminuíam porque os nervos haviam sido permanentemente danificados. As mulheres mal conseguiam andar.

Líderes chineses já haviam tentado proibir o atamento, mas não conseguiram. “O hábito estava por demais arraigado. Era um símbolo de status para as mulheres da elite, que podiam se dar ao luxo de não andar, não ir ao mercado e nem trabalhar nos campos. Era também um símbolo de castidade e considerado belo", enfatizou o autor. Isso era uma convenção, uma coisa normal, não era algo que se contestava.

Para fazer uma mudança, “não se pode subestimar a força das convenções". Os missionários que foram à China em 1860 foram os primeiros a conseguir mudar a prática. Muitas mulheres convertidas ao cristianismo barraram a prática com suas filhas e desataram seus pés, enfaixados por mais de uma década. Depois intelectuais chineses mais modernos e estrangeiros perpetraram campanhas nacionais contra o atamento dos pés. “Os ativistas mais inteligentes começaram insistindo no respeito total do povo chinês e tudo que representava a civilização chinesa", salientou Appiah.

A aproximação com a cultura ocidental foi outro ponto importante para a mudança. Grupos de ativistas começaram a publicar informações (em chinês clássico) sobre eventos e cultura fora do mundo da China.

O reverendo Richard, missionário batista, responsável pela revista Eastern Time, teve muita influência no país. Percebendo que a China era governada pelos mandarins (intelectuais chineses versados em Confúcio), Richard passa a se vestir como eles e a estudar os textos que eram a base para as provas nacionais, com o objetivo de influenciá-los. Ao observar a situação do país, o reverendo percebeu que faltava ao país o conhecimento da ciência moderna ocidental (além do cristianismo, que era a base de sua missão). Passou então a levar essas ideias aos intelectuais.

A comparação da cultura chinesa com a ocidental foi a pedra de toque para a erradicação do atamento dos pés. A influência que atingiu os intelectuais chineses se estendeu até o imperador. A questão das relações internacionais do país e o olhar negativo dos estrangeiros frente àquele hábito se somou a outros argumentos, como a fraqueza das mulheres chinesas em relação às demais.

O sentimento de vergonha se apossou do imperador, mas o argumento dos intelectuais, com destaque às ideias do reformista Kang Youwei, e dos influenciadores estrangeiros para o fim da prática do atamento estava pautado no respeito às realizações culturais chinesas e não no desprezo à tradição.

Appiah destacou que a erradicação do atamento também está relacionada com o fato de não decorrer de um movimento ou decreto institucional, mas da prática presente em diversos segmentos da sociedade chinesa. O incentivo aos homens que se casassem com mulheres com pés naturais foi uma interessante estratégia para desencorajar a prática, uma vez que os casamentos arranjados tinham grande força e apontavam para os pés de lótus como preferência. Por fim, a campanha resultou na mudança da norma, das convenções. O caso chinês elucida que, “quando você tem uma reforma e ela é bem feita, é possível manter a nova tradição", concluiu o autor.

Outro caso apresentado por Appiah ocorreu no Senegal, onde um grupo de mulheres anunciou para jornalistas que não iriam mais fazer a circuncisão feminina. Essa ação gerou um debate de muitos anos, e, em certo momento, uma organização sem fins lucrativos voltada para a defesa dos direitos humanos passou a atuar no empoderamento comunitário. “Eles não tinham como objetivo erradicar a prática, mas dar à comunidade o conhecimento sobre seus direitos e sua saúde. Através do conhecimento sobre direitos humanos, homens e mulheres se voltaram contra essa prática. Foi, basicamente, fazendo uma reflexão sobre a condição de saúde de suas próprias filhas que a comunidade decidiu abandonar a prática".

A repercussão do grupo que se dirigiu à imprensa teve o efeito inverso nas comunidades que não tinham sido empoderadas. Os membros das tribos queriam que suas filhas se casassem e, portanto, não viam razão para abolir a circuncisão feminina. Foram introduzidas então, nessas vilas, as mesmas ideias que permitiram o empoderamento comunitário e, como no caso chinês, os meninos foram influenciados a, no futuro, escolher aquelas meninas que não sofreram mutilação.

O erro do caso senegalês foi a proibição institucional da prática dos cortes nos genitais femininos. O processo que estava se dando por escolha da população, quando se tornou obrigatório perdeu o seu valor. Como consequência, a circuncisão passou a ser feita como forma de protesto. De todo modo, a abordagem anterior, que teve como início o diálogo respeitoso, permitiu que gerações de mulheres estejam crescendo sem passar pela circuncisão e vão conseguir casar.

Appiah extrai duas lições do caso senegalês: é preciso estabelecer o diálogo baseado no respeito mútuo e ter um grupo organizado que se comprometa com as novas práticas considerando as tradições locais.

Os três contextos apresentados fundamentam os elementos centrais para a revolução moral no escopo teórico do autor. A honra nacional no caso chinês, por exemplo, foi determinante para fixar o fim do atamento dos pés. Os chineses não apenas reconheciam a vergonha da prática frente aos estrangeiros, mas reconheciam os males que dela recorriam na sua própria cultura. O diálogo, considerando os interlocutores como iguais e se dirigindo a eles com respeito, também é fundamental para a mudança moral (principalmente quando a ação parte de estrangeiros). “Ninguém responde bem à crítica de alguém que fala de cima para baixo", reafirmou Appiah.

A honra, para o autor, está relacionada com o direito ao respeito. Sociedades e grupos diferentes têm códigos de honra específicos, pois acreditam que coisas diferentes garantem direito ao respeito. Honramos também pessoas por suas realizações e não pelo segmento de códigos, como é o caso de atletas, artistas e cientistas, porque eles têm direito ao nosso respeito.

Já a vergonha se caracteriza pela perda do direito ao respeito, não ser merecedor do respeito. Você sente vergonha também quando não alcançou os padrões esperados. Ela pode tanto ser individual quanto coletiva. Como seres sociais, sentimos honra e vergonha em relação a grupos, sejam eles família, time de futebol ou a nação.

Appiah propõe que nos voltemos à nossa realidade, buscando a reforma moral sem que seja necessária a influência estrangeira (como nos casos da China e do Senegal). Na cultura em que estamos inseridos, é possível encontrar os códigos de honra e os elementos vergonhosos. “Você consegue mobilizar a honra por meio da autocrítica", salienta o conferencista, “não é preciso que as Nações Unidas venham lhe dizer que está fazendo algo errado.".

O autor se debruçou sobre os Estados Unidos para elucidar os conceitos de honra e vergonha para a revolução moral. Citou, por exemplo, a existência de Guantánamo como motivo de vergonha para os norte-americanos. O direito ao casamento também passou a ser respeitado no país com relação aos gays e isso culminou na legalização da instituição em diversos estados. O tempo para a aceitação legal do casamento gay por três quartos da população ocorreu em uma geração (aproximadamente 20 anos). Outro ponto no qual está refletida essa mudança se refere ao fato de os norte-americanos não defenderem atos de crueldade rotineiros contra homossexuais (mesmo por parte daqueles que são contra o casamento gay), sejam eles atos de escárnio ou repressão policial.

A questão da honra, na história dos Estados Unidos, se reflete também na abolição da escravatura, pois a escravidão era contra os princípios que basearam seu processo de independência.

O país encontra ainda uma questão a enfrentar: a grande população carcerária. A maior parte das infrações se refere ao uso de drogas ilícitas. “Em um país 'livre', deve-se criminalizar as drogas em uso recreativo? Será que devemos colocar milhares de pessoas na prisão para que elas parem de usar?", provocou o autor. Nas prisões, há um alto índice de estupro e a prática danosa (e psicologicamente torturante) da detenção em solitária. A Aids está com índices maiores no sistema prisional do que fora dele, e o analfabetismo é grande entre os detentos.

A vergonha em relação ao sistema prisional atingiu um senador conservador, que redigiu uma lei contra o estupro nas prisões. Ademais, ninguém acredita que estupro, tortura e Aids possam ser partes rotineiras do sistema. Todavia, existe uma “ignorância estratégica", na qual se evita encarar o tema – como se faz, por exemplo, no caso da produção industrial de carne e as crueldades por ela engendradas.

Os norte-americanos se vangloriam de seu patriotismo, “mas patriotismo exige mais do que orgulho da bandeira, significa assumir a responsabilidade por aquilo que fazemos mal e bem". A questão do sistema prisional faz com que os Estados Unidos perca o respeito em relação a outros povos.

É preciso buscar o sentido de honra, no qual a honra é o que importa e não suas recompensas.

Para provocar novas questões e aprofundar os conceitos trazidos pelo autor, a conferência contou com a presença de Flávio Moura, doutor em Sociologia e editor da Companhia das Letras. Ao ser questionado sobre a relação entre moral e honra, Appiah esclareceu que não se pode identificar uma com a outra. Grandes artistas ou intelectuais, por vezes honrados por seus trabalhos, são sujeitos de moral recriminável. Revoluções morais tendem a realinhar os códigos de honra, que não mais respondem às mudanças perpetradas pelas primeiras.

Quando foi indagado sobre a questão das cotas raciais, o conferencista indicou que reafirmar o preconceito pode ser um risco. É preciso preparar aqueles que foram historicamente desfavorecidos para aproximá-los da igualdade frente aos demais cidadãos. O problema recorrente em relação a políticas públicas voltadas a reparar injustiças históricas é que elas tendem a ser atos simbólicos e não efetivos.

Kwame Anthony Appiah encerrou sua conferência no Fronteiras do Pensamento com um desafio: o que vocês e o que os seus bisnetos vão criticar em relação ao seu país hoje? Como vocês vão se organizar para salvar a honra do Brasil no século XXI e além?


Voltar para Resumos