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Luc Ferry

Sentidos da vida

Luc Ferry é um reconhecido filósofo francês. Ex-ministro da Educação na França, é o principal defensor do humanismo secular e da sociedade laica. Em seus livros, trouxe a filosofia de volta ao cotidiano, com linguagem e abordagem mais acessíveis, e é autor de Aprender a viver, 7 maneiras de ser feliz e A revolução do amor, entre outros livros. Na conferência de encerramento da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre, ele falou sobre os sentidos da vida e as quatro respostas históricas para uma vida boa: a grega clássica, a das grandes religiões, a do humanismo moderno e a individualista contemporânea após Friedrich Nietzsche.

Segundo ele, este conjunto de questões está relacionado à harmonia e vai dos princípios menos humanos e mais transcendentes até os cada vez mais humanos. A primeira resposta aparece na Odisseia, de Homero, na história de Odisseu (Ulisses), um rei que vai da paz à guerra. “A vida boa para Ulisses é a colocação de si mesmo em harmonia com o mundo e em harmonia do cosmos. Ulisses vai reencontrar seu lugar no universo. Ele foi deslocado pela guerra e vai reencontrar o seu lugar nos braços de Penélope, em Ítaca, com seu filho. Então, para os gregos a vida boa é a colocação de si mesmo em harmonia com o mundo.”

A segunda resposta é a das grandes religiões, em particular a cristã. “A vida boa para os cristãos, para os crentes de maneira geral e os judeus muçulmanos é a colocação em harmonia de si não mais em relação ao cosmos ou ao universo como para os gregos, mas a colocação de harmonia de si mesmo com os mandamentos divinos e em troca disso você ganha a salvação, a imortalidade.”

A terceira resposta é a que surge com a filosofia do Iluminismo no século 18 e que reconhece que a harmonia não está mais no alinhamento com o cosmos ou com Deus, mas com o restante da humanidade. “Esta pequena frase é a frase típica do Direito moderno, o Direito democrático: minha liberdade tem que terminar onde começa a liberdade dos outros. Dito de outra forma: eu tenho que fazer um esforço para me colocar em harmonia com o resto da humanidade e, se possível, preciso fazer alguma coisa a mais. Essa é a visão humanista que vai dominar os séculos 18 e 19 no Ocidente. Não apenas tenho que tentar me colocar em harmonia com os outros. A coisa pública, o direito democrático. Mas também tenho que tentar acrescentar minha pequena contribuição ao progresso da humanidade.” É o Iluminismo humanizando totalmente a questão. “Com o humanismo moderno, se eu acrescento ou ofereço alguma coisa à humanidade, meu nome será gravado na pedra e é um símbolo de salvação, pois de uma certa forma eu não serei esquecido. Eu vou sobreviver à minha morte.”

Para Ferry, a quarta resposta é o que resume o essencial da filosofia contemporânea. É a resposta que começa com Arthur Schopenhauer e segue com Nietzsche, que será o grande responsável por romper com os ídolos da metafísica e da religião. “A famosa morte de Deus. Nietzsche é aquele que vai quebrar todas as transcendências passadas, todos os princípios exteriores e superiores que, em nome desses valores, davam um sentido à vida. As três grandes respostas serão quebradas pelo martelo de Nietzsche. Ele não acredita nem no cosmos, nem em Deus. A famosa morte de Deus que ele anuncia e, mesmo os grandes princípios humanistas, como a democracia, o socialismo, o direito do homem, tudo isso provoca risos nele. Ele desconstrói tudo. Porque ele pensa que esses grandes princípios transcendentes são alienações.” 

Assim, se os grandes princípios transcendentes morreram – cosmos, Deus, humanismo –, resta apenas o narcisismo, a preocupação consigo mesmo, o individualismo. “Nesse caso, o que aparece é uma sequência em três tempos de construção e cuidar de si. E o que aparece por trás do cuidado de si é o cuidado com a felicidade. Isso é o que eu chamo de ‘felicização’ do mundo. Isso é o que vai aparecer nos Estados Unidos nos anos 1980 com o que se chama de psicologia positiva, através do desenvolvimento pessoal com um psicólogo que se chama Martin Seligman. Ele inventou isso e o mundo inteiro, hoje, está inundado de livros que dão a você conselhos de sabedoria em quinze lições. Como ser feliz, como ter sucesso na vida, tudo isso em dez ou mais lições. Isso tudo é o resultado final da desconstrução das grandes tendências do passado.”

A ideia de harmonia agora está centrada na harmonia consigo mesmo, transformada em finalidade suprema da existência. No entanto, Ferry sinalizou ainda uma quinta possibilidade de resposta, marcada por duas revoluções. A primeira delas é a revolução do amor, com o nascimento do casamento por amor (e não mais por interesse), algo originado pelo capitalismo e pela inserção das mulheres no mercado de trabalho e que também fez surgirem o ciúme e o divórcio. Um resumo da história das mulheres na sociedade. “Senhoras: essa é a história de vocês. Primeira liberdade é a liberdade financeira. A mulher é livre e autônoma financeiramente falando. Em segundo lugar, ela vai ter uma distância em relação ao vilarejo e por isso ela vai poder dizer não aos pais, não ao padre. Eu não quero ser casada. Eu quero me casar. Eu quero me casar e eu mesma quero escolher o meu casamento. Evidentemente, escolhendo o seu casamento, ela vai escolher alguém que ama. E foi assim que nasceu o casamento por amor principalmente”. 

A segunda revolução, para o filósofo, é ainda mais essencial: o transumanismo, ou seja, ou seja, a filosofia que tem como objetivo melhorar a condição humana a partir do uso de ciência e da tecnologia. Ela está baseada em alguns princípios básicos. O primeiro é que a medicina seguirá fazendo seu papel terapêutico, mas que agora ela pode ser usada para melhorar o ser humano. A segunda ideia é aumentar a longevidade humana, lutar contra a velhice e o envelhecimento. “O projeto transumanista é nos fazer viver em boa saúde até 127, 150, mesmo 200 anos de idade. 130 anos é para amanhã. Acho que minhas filhas poderão viver 130 anos em boa saúde evidentemente.” E a terceira ideia defendida pelo transumanismo diz que a natureza não é sagrada. “Os transumanistas dizem que chegou a hora de corrigir as desigualdades naturais. Se você tem um filho que tem uma anomalia genética, isto não é uma punição de Deus. A natureza que se enganou, que falhou. Então, sim, nós podemos corrigir essa falha e vamos corrigi-la. Essas duas revoluções – a revolução do amor e a revolução da longevidade – têm consequências consideráveis.”

Ferry apontou que são estas duas revoluções que dão sentido à existência. “O amor dá sentido à vida, evidentemente, mas, também, para poder entrar nessa lógica do amor é preciso trabalhar sobre si mesmo, é preciso aperfeiçoar a si mesmo não apenas para buscar narcisisticamente a felicidade. Não para tentar olhar o seu umbigo para ter uma egotrip, mas para ampliar os horizontes e para entrar em uma comunicação melhor com os outros, com mais humanidade.” Ampliar a longevidade aumenta a experiência e as possibilidades dos seres humanos de se tornarem mais sábios. “É preciso lutar contra a alienação, colocar-se em harmonia consigo mesmo, mas não apenas pelo cuidado de si e da sua felicidade pessoal, mas pelo alargamento de horizontes e para estar alinhado com os outros”, finalizou. 


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