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Luc Ferry

Sentidos da vida

Luc Ferry é um reconhecido filósofo francês. Ex-ministro da Educação na França, é o principal defensor do humanismo secular e da sociedade laica. Em seus livros, trouxe a filosofia de volta ao cotidiano, com linguagem e abordagem mais acessíveis, e é autor de Aprender a viver, 7 maneiras de ser feliz e A revolução do amor, entre outros livros. Na conferência de encerramento da temporada 2019 do Fronteiras do Pensamento São Paulo, ele falou sobre os sentidos da vida e a respeito das mudanças provocadas pela terceira revolução industrial, marcada pela robótica, pelo digital e pela inteligência artificial.

O filósofo iniciou abordando a primeira das consequências da inteligência artificial: a economia colaborativa. Ele citou exemplos como o Uber e o Airbnb, que criaram um modelo alternativo de prestação de serviços entre pessoas físicas. “A novidade dessa economia é que, graças à inteligência artificial, não profissionais podem fazer concorrência aos profissionais. Não há necessidade de ter aprendido sobre todas as ruas de São Paulo, conhecê-las e dirigir para o Uber. Basta ter o Waze. Então, a inteligência artificial propulsiona a economia colaborativa. Ouçam bem isso, porque é o centro da questão: essa economia colaborativa não é colaborativa. Ela é muito conflituosa. Se você perguntar para os donos de hotel o que eles pensam do Airbnb, a resposta não vai ser nada colaborativa.”

Para explicar o conflito que existe, Ferry citou Antígona, peça de Sófocles, que traz um embate entre o Rei Tebas e a sua sobrinha Antígona para decidir sobre o enterro de Polinice, considerado um traidor do reino. Os dois têm pontos de vistas legítimos na questão, o que a torna ainda mais complexa e difícil. “A mesma coisa acontece na economia colaborativa. Os donos de hotel dizem: ‘É um escândalo. Airbnb é um horror. Airbnb não é bom porque a concorrência é desleal. Nós, donos de hotéis, temos regulamentações e normas para os deficientes físicos, as normas sobre o incêndio, assalariados, temos que pagar impostos. Vocês particulares não têm nada disso’. Então, é uma concorrência desleal, e os particulares dizem: ‘Deixem a gente em paz. O meu filho está desempregado. Temos um quarto livre no apartamento. Deixem nos organizarmos entre particulares. O Estado não precisa se meter nisso. Nem temos muito dinheiro’. As duas argumentações são boas. É por isso que são conflitos trágicos no sentido grego. E, no fundo, no mundo inteiro hoje temos muito mais esse tipo de conflitos trágicos do que conflitos – que os intelectuais franceses adoram – onde existem bons e maus.”

A segunda consequência da inteligência artificial são os carros autônomos, que não necessitam de motorista e que abrangem, especialmente, a questão do fim do trabalho. “Por exemplo: nós vamos colocar no desemprego os motoristas de táxis, os motoristas de caminhão, de avião, de barcos e trens. Vai ter sempre alguém dentro do avião, mas vai ser suficiente ter apenas um piloto. Então vai ter muito menos emprego para os pilotos de avião.” No entanto, Ferry ressaltou que, mesmo com as mudanças, não será necessário aplicar a renda mínima universal, como defendem alguns economistas, e nem acreditar que isso vai representar o fim do trabalho. “Existem 67 milhões de habitantes na França e mais 80 milhões de assinaturas de telefone celular. Se você excluir os velhos e os bebês, tem muito mais telefones do que franceses. Isso cria milhões de empregos no mundo. Nenhum de nós tinha este aparelho no bolso 25 anos atrás. Isso não existia. Então, a criação de empregos não tem fim e, se nós adotarmos a renda mínima universal, teremos uma sociedade atroz. A pior que podemos imaginar.”

A terceira consequência é o transumanismo, ou seja, a filosofia que tem como objetivo melhorar a condição humana a partir do uso de ciência e tecnologia. Ela está baseada em alguns princípios básicos. O primeiro é que a medicina seguirá fazendo seu papel terapêutico, mas que agora pode ser usada para melhorar o ser humano. A segunda ideia é aumentar a longevidade humana, lutar contra a velhice e o envelhecimento. “O projeto transumanista é nos fazer viver em boa saúde até 127, 150, mesmo 200 anos de idade. 130 anos é para amanhã. Acho que minhas filhas poderão viver 130 anos em boa saúde evidentemente.” E a terceira ideia defendida pelo transumanismo diz que a natureza não é sagrada. “Os transumanistas dizem que chegou a hora de corrigir as desigualdades naturais. Se você tem um filho que tem uma anomalia genética, isto não é uma punição de Deus. A natureza que se enganou, que falhou. Então, sim, nós podemos corrigir essa falha e vamos corrigi-la.” 

Segundo Ferry, os jovens carecem de experiência, e os velhos precisam de força. O que o transumanismo quer fazer é conciliar as duas coisas. “É fabricar uma humanidade que seja jovem e velha ao mesmo tempo, porque a única coisa que os jovens não podem inventar é a experiência. Simplesmente. Então, a ideia é fabricar a humanidade jovem e velha ao mesmo tempo que seria talvez – mesmo que não estejamos seguros disso – mais sábia do que a atual.”

Ao mesmo tempo, reforçou que é preciso lembrar que a natureza não é moral. “Nós temos o direito de tocar na natureza, de mexer na natureza. Eu discuti muito asperamente com os católicos da França sobre a questão do casamento homossexual. Não tenho nenhum interesse na questão. Não sou homossexual, mas simplesmente eles tinham uma argumentação que eu acho idiota porque eles diziam: a natureza é um modelo moral. Papai, mamãe e bebê. Isso é natural. Mas a natureza não é um modelo moral. Eu entendo que as pessoas possam ser contra. Não é um problema. Entendo que os religiosos sejam contra o casamento homossexual. É a teologia deles, eles têm direito de pensar assim. Eu não penso assim, mas eles têm esse direito. Só que não devem adotar esse argumento débil mental que consiste em dizer que a natureza é o modelo moral. Só os nazistas podem achar que a natureza é um modelo moral. A natureza é Darwin, é a seleção dos velhos, dos deficientes e dos fracos.”

Sem a inteligência artificial o mundo não teria a economia colaborativa, a mobilidade urbana e nem a biotecnologia. Ferry explicou que existem três tipos de IA. A fraca e estreita, que aprende a executar uma tarefa (jogar xadrez ou identificar um câncer), mas não tem consciência sobre si mesma. A IA fraca, que também não sabe sobre si, mas é mais larga e horizontal, tendo uma capacidade maior de aprendizado para realizar, por exemplo, diagnósticos de doenças melhores do que os feitos por médicos humanos. E a terceira IA, embora ele não acredite nela, é a forte. O filósofo citou o projeto Blue Brain, que pretende criar uma simulação computacional do cérebro dos mamíferos, incluindo o cérebro humano. “A ideia é fabricar uma verdadeira inteligência, uma máquina que pensaria realmente. Uma máquina que teria consciência de si. Dito de outra forma, seria fabricar um verdadeiro cérebro com 100 bilhões de neurônios, mas numa base não biológica. Digamos que a partir do silicone e não do carbono. Então, fabricariam um verdadeiro cérebro que pensaria, mas que seria uma máquina e não algo biológico. Ele seria imortal. Aí que nós temos o fantasma da imortalidade e fabricação de conexões de neurônios artificiais que produziriam consciência e emoções. A máquina teria ódio, cólera, amor, ciúme. Porque o cérebro é a sede das emoções. Então teríamos o verdadeiro pensamento, uma verdadeira inteligência, uma pós-humanidade com isso. Eu não acredito nisso.”

Ferry citou Stephen Hawking, que dizia que, caso fosse alcançado este estágio de pós-humanidade, seria um grande passo para o ser humano, mas também seria o último, porque nós teríamos criado um ser darwiniano que iria desejar nos eliminar. “Esta questão envolve coisas muito apaixonantes. Principalmente a questão da longevidade. Há boas coisas nessa terceira revolução industrial. A única coisa que me inquieta é que apenas dois países estão dentro nessa história: os norte-americanos e os chineses. O restante não está presente. O restante não existe. O restante é, como dizia o general De Gaulle: ‘Chineses e norte-americanos são a carne, e nós somos os legumes’. Não sobra nada. É o acompanhamento, são as vagens. É o acompanhamento do prato. Não é o prato. É muito perigoso. Precisamos prestar atenção nisso”, finalizou. 


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