Voltar para Artigos

Como discordar (sem iniciar a Terceira Guerra Mundial)

Alain de Botton (foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento)
Alain de Botton (foto: Clléber Passus/Fronteiras do Pensamento)

Em sua mais recente coluna para o NewStateman, o escritor suíço Alain de Botton reflete sobre os conflitos inerentes à vida e a intensidade que damos a eles. Enquanto divergir é atemporal, a violência das discordâncias contemporâneas pode estar vindo de fatores específicos que devem ser levados em conta para promover relações mais saudáveis com os outros e com nós mesmos. Uma lição sobre o tema do Fronteiras do Pensamento 2015, Como viver juntos. Leia a tradução abaixo:

Vivemos em um mundo saturado de divergências. As pessoas estão em desacordo sobre tudo, basicamente, desde quando se deve pedir um taxi ou sair para jantar e até se deveria existir um califado; sobre que tipo de órbita a Estação Espacial Internacional deveria assumir, sobre a forma correta de fazer lasanha ou até se a Hungria está na Europa central ou oriental e por quanto tempo uma criança deveria ser permitida a jogar Minecraft em uma tarde de sábado.

Porém, o desentendimento pode ser civilizado, interessante e produtivo. Ele é, com bastante frequência, uma poderosa força de sofrimento: ficamos com raiva e perplexidade; ficamos consternados com as opiniões dos outros e nos sentimos intensamente incomodados por elas; nos sentimos derrotados, sem esperança e solitários; agonizamos, ensaiamos o conflito em nossas cabeças, nos preocupamos, sentimos culpa, ficamos preocupados... Desentendimentos são especialmente urgentes agora, devido às grandes forças sociais que têm sido alimentadas nos últimos dois séculos.

1. Política

Hoje em dia, o mundo desenvolvido é democrático. Já deixamos faz tempo os hábitos de deferência e de hierarquias nas quais a maioria das pessoas não acredita que seja o seu papel ter opiniões formadas sobre muitos assuntos.

Quando todos votam, o que todos pensam importa bastante. Ter opiniões se torna mais do que um luxo; de fato, é uma necessidade em uma democracia em bom funcionamento. O sujeito precisa ter opiniões sobre tudo – desde quem deveria governar até onde devemos construir usinas nucleares. Mas, apesar de sermos encorajados a ter opiniões, pouca atenção é dispensada para o que devemos fazer quando – como constantemente parece ser o caso – essas nossas opiniões divergem com as de outros cidadãos.

2. Relações de igualdade

Perguntar a um casal a respeito do que eles discordam é um exercício dos mais fascinantes e consoladores: percebemos que não estamos sós.

Ao mesmo tempo, desentendimentos em relacionamentos nos parecem mais perturbadores do que no passado, pois as baixas expectativas antes transformadas em disputas estavam de acordo com o planejado. As pessoas não ficavam tão perturbadas por desavenças, já que a ideia de um relacionamento de total acordo, simpatia e reciprocidade não estava em jogo – é uma invenção muito recente, na melhor das hipóteses, originária do meio do século XVIII.

Há também o problema da hierarquia. Na maior parte de nossa história, vivíamos em sociedades patriarcais: eram os homens que resolviam todos os desentendimentos familiares. Agora há uma profunda (mas historicamente ainda muito nova) sensação de igualdade, entre os casais e também com os filhos. Confiamos que os casais precisam conversar a respeito de suas opiniões, sobre o que deveriam saber, sobre aquilo que se interessam e que respeitem as ideias uns dos outros. Ninguém pode ser o chefe em um determinado assunto. Isso se estende aos filhos: as crianças são tidas como fontes de percepções espontâneas e novas perspectivas. Suas opiniões também merecem ser ouvidas. Ficamos tão preocupados em não arrasar seus egos precocemente, que as encorajamos a ter opiniões sobre todos os aspectos da vida. Como resultado, pode se tornar muito difícil chegar a uma decisão a respeito de qualquer coisa, incluindo o que jantar.

A cacofonia democrática e o caos familiar refletem aqueles do mundo político. Não somos mais capazes de governar por hierarquia, mas ainda não conseguimos chegar a um acordo e gerenciar disputas. Esse é o momento em que nos encontramos.

3. Tecnologia

A tecnologia tornou o desentendimento mais nítido. Somos imediatamente colocados em contato com as ásperas atitudes alheias – as quais, até recentemente, não estavam disponíveis para serem encontradas.

Se você lesse uma reportagem da BBC a respeito de um discurso dado por um líder da oposição (por exemplo), você ficaria alarmado pelo fato de que alguém que atende pelo nome de @Cockshield o considera um “verme feio socialista" e você estaria exposto aos comentários postados que afirmam coisas do tipo: “Ele não se importa com o Reino Unido, ele apenas se preocupa com carreira e dinheiro, ele vai fazer isso por uns quatro ou cinco anos, caso vença, e depois receberá um enorme pagamento, uma aposentadoria adiantada e uma vida de luxos, que é seu objetivo".

No passado, a capacidade de expressar opiniões contrárias era encoberta pelo medo de se colocar na mira de retaliações vindas de quem se discorda. Se alguém chamasse uma pessoa de “um patife sem valor, mentiroso e ladrão", era de se esperar que fosse condenado pela comunidade e possivelmente desafiado a um duelo. Agora, pode se atirar frases como essa em uma rede social de graça e de forma anônima.

Além disso, existe a sensação de que ser abusado verbalmente online não é um grande problema. Não se deve ser tão sensível; a pessoa deveria poder aguentar os comentários maldosos dos outros. Enquanto nossas sociedades estão muito preocupadas com certas formas de racismo e misoginia, elas ainda são notavelmente tranquilas em relação às formas corriqueiras de abuso que são trocadas nas redes sociais a cada minuto.

Enquanto sociedade, nós não levamos “ficar ofendido" muito a sério – e, portanto, a ofensa é frequente.

A tecnologia também gerou opiniões mais fortes; ela também tornou mais corajosas pessoas cujas opiniões poderiam, anteriormente, gerar dúvidas em relação ao fato dos outros discordarem, ao apresentar essas pessoas a outras que concordam com elas e reforçam suas convicções. Alguém com a opinião levemente embaraçosa de que Plutão deveria ser reclassificado como planeta agora pode se unir a vários sites cheios de pessoas que pensam da mesma forma. O mesmo se aplica na política, pornografia, religião e assim por diante. Se você é um Marxista Cristão Fundamentalista, você pode habitar uma esquina do universo online na qual se é tido como correto que essa é a única forma inteligente de ver o mundo. Portanto, graças à tecnologia, estamos expostos aos desentendimentos desinibidos dos outros – e a garantia encorajadora dos outros devotos de sua tribo. Em suma, a tecnologia polariza e inflama.

****

Ainda assim, em vez de nos desesperarmos, devemos aceitar que o desentendimento será constante e ubíquo. Podemos até fantasiar a respeito de uma harmonia universal, uma razão que se prevaleça sobre a espontaneidade e de que todos sejam tolerantes. Porem, divergências ferozes não vão simplesmente desaparecer sozinhas.

Precisamos aprender a discordar corretamente, como navegar por uma vida em que, inevitavelmente, vamos entrar em conflito com diversas pessoas a respeito de expectativas, demandas, esperanças, convicções, prioridades e atitudes. Precisamos suportar desentendimentos para que possamos lidar melhor com nossas próprias vidas e dar nossas próprias contribuições (por mais modestas que sejam) para uma sociedade mais sã.

Atitudes que ajudam

Não importe energia de outros lugares para seus desentendimentos.

Muitos de nossos desentendimentos são sobre assuntos intelectuais: o futuro do Euro, imigração, dívida, censura, educação... Você pode se encontrar tomando uma posição apaixonada sobre a economia Peruana, a importância de George Orwell, se os chineses descobriram a América no século XV, a situação das mulheres na França do século XVIII... (cada um tem sua própria lista). Esses não são assuntos inerentemente sem mérito – mas, a intensidade que se investe neles pode ser desproporcional em relação ao que realmente está em jogo. Em momentos mais tranquilos, você pode se perguntar por que se preocupou tanto a respeito deles.

É aqui que encontramos o fenômeno de Energia Importada de Outro Lugar: nessa dinâmica, o combustível do desentendimento não vem apenas do assunto em debate. A intensidade vem das coisas acontecendo em outros aspectos da sua vida. Na hora, não percebemos que isso está ocorrendo – o que torna muito difícil apaziguar um desentendimento.

A energia é importada de várias formas. Às vezes, estamos discordando de pessoas que até já morreram. O desentendimento presente representa um problema do passado.

Você pode nunca ter convencido seu pai de enxergar os méritos da sua escolha profissional, então, você tenta convencê-lo se irritando com a pessoa sentada ao seu lado na mesa.

Havia um conhecido de faculdade cujas ideias políticas lhe irritavam; você tentava sempre provar que ele estava errado dando lições de moral para estranhos em festas.

Sua ex-mulher sempre dizia que você era egoísta; agora, você tenta ganhar a discussão tirando sarro de pessoas extremamente engajadas na frente de qualquer um que lhe dê ouvidos.

Às vezes, desejos sexuais frustrados se canalizam em desentendimentos. Há alguém por quem você se atrai (mas você está relutante em admitir); você a acha excitante – mas ela não parece se interessar. O desentendimento oferece uma forma de fazer contato; você a contradiz, você faz com que ela perceba a importância de determinado fato; à força, você tenta desalojar uma das suas convicções preferidas. A energia não vem do tópico sendo discutido: é emprestada de um desejo frustrado.

Na teoria, não fomos feitos para fortes divergências – situações na qual dizemos a nós mesmos que a outra pessoa está muito errada a respeito de sua opinião.

Mas, existe uma verdade sombria: em vez de sentirmos desconforto, às vezes até que gostamos bastante. Criar um mundo mais civilizado pode significar deixar para lá alguns dos prazeres de um desentendimento violento.

Assista aos vídeos de Alain de Botton no Fronteiras.com