Postado em jan. de 2026
A sociedade do excesso
Em um mundo de superabundância de informação e consumo, o filósofo e curador do Fronteiras do Pensamento reflete sobre o cansaço, a hiperatividade e a busca por sentido na era digital
O filósofo sul-coreano Byung-Chul Han chamou a nossa época de “sociedade do cansaço”. Não por acaso se tornou uma espécie de astro pop da filosofia. Seu mérito foi capturar de um jeito simples um traço definidor de nossa época. A ideia de que vivemos em uma era de excesso. E de que estamos com dificuldade de lidar com isso. O excesso assume muitas formas. A mais elementar de todas é a informação. Perto de 200 zettabytes de informação rodam pelo planeta, neste 2026, contra apenas 1 zettabytes, década e meia atrás. Um volume que basicamente irá dobrar a cada ano, por certo aprofundando a sensação de mal-estar e do caos contemporâneos.
O excesso, porém, vai além da informação. Nas últimas três ou quatro décadas, a renda média mundial praticamente dobrou, refletindo um ganho expressivo — ainda que desigual — dos processos tecnológicos e de integração econômica. Ao mesmo tempo, a pobreza extrema caiu de 38% para perto de 8% da população. O tempo de trabalho necessário para comprar produtos e comodidades vem declinando em ritmo constante, em um efeito clássico de ganhos de produtividade, no que os economistas Marian Tupy e Gale Pooley identificaram como nosso caminho para a “superabundância”.
Em 1930, Keynes escreveu seu conhecido “Possibilidades econômicas para os nossos netos”, sugerindo que, em um século, teríamos multiplicado nossa riqueza em até oito vezes, e que a jornada de trabalho poderia chegar a coisa de quinze horas semanais. Quase um século depois, dá para dizer que ele acertou na primeira previsão, mas errou redondamente na segunda. De fato, ficamos mais ricos, ainda que muito desigualmente, mas definitivamente andamos mais ocupados e atarantados do que nunca.
Não é por acaso que a “economia da atenção” tenha se tornado um grande tema contemporâneo. Não apenas porque há toda uma indústria de plataformas digitais trabalhando para capturar, via algoritmos, a nossa atenção, mas porque nós mesmos andamos seduzidos pelo caos informativo. E não sem razão. A informação é uma forma de poder. E o poder foi descentralizado. Moisés Naim chegou a falar no “fim do poder”, por certo um exagero. Mas inequivocamente fazemos mais, nos preocupamos mais, nos incomodamos mais, porque nosso senso de urgência foi ampliado. Antes receptores de informação, agora temos o poder de influenciar, de opinar sobre qualquer assunto, de inventar textos e fazer filmes inteiros, com a IA, de gerar empresas, negócios, experimentar novas formas de trabalho, novas formas instantâneas de afeto. E de solidão, da mesma forma.
Byung-Chul Han é cruel com este novo mundo. “O animal laborans pós-moderno”, diz ele, “é hiperativo e hiperneurótico”. A modernidade dessacralizou o mundo, perdemos a ideia de um grande sentido, e curiosamente colocamos no lugar a atividade incessante, quem sabe uma hipervalorização do trabalho, mas também da “relevância”, do impacto, da “reputação” e de tudo que compõe a obsessão contemporânea. Por vezes surge nisso a antiga imagem nietzschiana do “último homem”. O indivíduo obcecado pela longevidade, pela saúde, pelo bem-estar. Com um detalhe quem sabe amargo: o tipo que consegue, ao cabo, converter mesmo a busca da felicidade em novíssimo tipo de neurose.
É um pouco sobre este mundo que o Fronteiras quer refletir, neste Festival. Nossa ideia, no fundo, é uma antiga sedução: o convite à fruição da beleza. A beleza das ideias, da controvérsia amável, do tempo lento e da incerteza como incentivo à autonomia individual. O que cada um pode esperar é nosso compromisso de sempre: a pluralidade das ideias e o convite a reflexão sem pressa. É o mínimo que um projeto intelectual pode buscar, nesta era do excesso.
* O filósofo e cientista político Fernando Schüler é criador e curador do Projeto Fronteiras do Pensamento, professor do Insper, Doutor em Filosofia e Mestre em Ciências Políticas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com Pós-Doutorado pela Universidade de Columbia, em Nova York. É Especialista em Políticas Públicas e Gestão Governamental pela Escola Nacional de Administração Pública (ENAP) e Especialista em Gestão Cultural e Cooperação Ibero-americana pela Universidade de Barcelona (UB). Colunista do Estadão e da Band, foi Secretário de Estado da Justiça e do Desenvolvimento Social do Rio Grande do Sul e Diretor da Fundação Iberê Camargo.
Fernando Schüler
Curador do Fronteiras do Pensamento