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Alain Finkielkraut: "Só o coração é inteligente"

Filósofo é conferencista do Fronteiras Porto Alegre 2017
Filósofo é conferencista do Fronteiras Porto Alegre 2017

“O que devemos pedir é um coração inteligente. Devemos pedir para alcançar a graça de um coração inteligente. Hoje, mais do que nunca." - Alain Finkielkraut

Inteligência funcional e emoções abstratas. Duas questões que não raramente se apresentam como opostas e que foram objeto de grandes mentes ao longo da história. Reunir algumas destas reflexões foi o trabalho do francês Alain Finkielkraut, na obra Um coração inteligente (Civilização Brasileira). Depois de um ano de silêncio para lutar contra um linfoma, o filósofo retornou às livrarias em 2009, pronto para lutar, como sempre, por suas ideias. Desta vez, com um ensaio sobre a importância da literatura para a compreensão do mundo.

Fronteiras do Pensamento Porto Alegre 2017

ALAIN FINKIELKRAUT é um dos conferencistas desta temporada de conferências do Fronteiras Porto Alegre. Garanta sua presença no ciclo deste ano. Adquira seu pacote de ingressos até 30 de abril e ganhe um ingresso extra cortesia para a conferência do economista francês Thomas Piketty, que acontecerá no Auditório Araújo Vianna.

UM CORAÇÃO INTELIGENTE >> Quase 300 páginas dedicadas a nove obras literárias, como Memórias do subsolo de, Dostoiévski, A festa de Babette, de Karen Blixen, Tudo passa, de Vasily Grossman, O primeiro homem, de Albert Camus: “Estes são alguns dos meus autores favoritos, para os quais volto com frequência. Grandes autores são homens pegos de surpresa em sua dificuldade de habitar o mundo. Na solidão, nas esperanças e nos fracassos dos quais falam reconheço minha solidão, minhas esperanças e meus fracassos", diz Finkielkraut ao explicar a seleção.

O que o senhor quer dizer com “coração inteligente"?
É o coração sobre o qual a Bíblia fala. É o coração que Deus concede ao rei Salomão em sua oração: “Concedo-te um coração sábio e inteligente como não houve antes de ti e não haverá depois...". Desde então, passaram-se quase três mil anos, mas essa oração ainda é válida. Aliás, agora mais do que nunca é preciso um coração inteligente.

Em que sentido?
Coração e inteligência devem voltar a se falar. O perigo que corremos não está na falta completa de um ou da outra, mas em seu divórcio: se coração e inteligência vão cada um por um lado, os efeitos são devastadores.

O século 20 demonstrou isso promovendo, por um lado, uma inteligência puramente funcional, de burocratas, e, por outro, um sentimentalismo indiferente à pessoa concreta. Todos nós já vimos o que a ideologia pode fazer: ao propor extirpar o mal, imobiliza o coração. Como descreve muito bem Vasily Grossman, chegou-se a odiar em nome do amor. É particularmente urgente a necessidade de um coração inteligente à medida que vamos saindo desta época.

Como o senhor chegou a esta intuição?
Graças ao trato com pessoas que atravessaram nosso tempo com os olhos abertos e mostraram o que acontece se a aliança entre coração e razão desmorona. Entre todas elas, a filósofa Hannah Arendt, que em um ensaio recordava o mesmo episódio bíblico: “A oração que o rei Salomão dirige a Deus também poderia ter valor para nós. Apenas um 'coração inteligente', e não a mera reflexão ou o mero sentimento, permite que vivamos com os outros em um mesmo mundo".

O senhor escreve, no entanto, que “talvez Deus nos olhe, mas não intervenha em nossos assuntos". Então, a quem dirige esta oração?
Não sei ao certo: me parece que Deus se cala. E temo que já não se possa fazer este pedido nem mesmo à história. Acredito que apenas falta dirigi-la à literatura, na qual podemos ter alguma chance de sucesso.

No fundo, a missão da literatura é justamente esta: dar-nos um coração inteligente. Porque não divide os homens em modelos, não sacrifica os indivíduos à verdade que anunciam. “As palavras dos mentirosos coram, mas os números dos especialistas em estatística nunca passam vergonha", dizia o poeta Wystan Auden: acho que a virtude da literatura consiste justamente em fazer com que os números e as estatísticas corem.

O contrário da ideologia...
A literatura dá grande importância aos detalhes e abrange o que é banal e ordinário. Marcel Proust compreendeu isso muito bem: do alto do aspecto particular se capta o geral. Um coração inteligente introduz esta complexidade, enquanto nós tenderíamos a sacrificar os problemas.

Esta sua oração recebeu alguma resposta?
Ainda não. É o que desejo e espero, mas ainda não tive esta experiência. É a aposta deste livro: espero que a literatura forme minha opinião, abra-me os olhos e vença os lugares-comuns que são formados continuamente entre o mundo e eu.

Por que um filósofo como o senhor propõe este hino à literatura?
A literatura esclarece o que vivemos, assim como a filosofia. Não há competição entre elas. Mas desde o momento em que se criou a fratura entre razão e coração muitos filósofos acreditam ter o monopólio da compreensão do mundo.

Em vez destes, prefiro pensadores como Paul Ricoeur ou Martin Heidegger, que reconheceram com humildade a importância da literatura ao indagar a condição humana. Se não servisse para conhecer alguma realidade diferente da realidade eterna, seria apenas uma diversão.

Suas obras sempre enfrentaram questões ligadas à nossa época. Por qual motivo o senhor decidiu dedicar-se agora a clássicos atemporais?
É uma história que remonta a 1994. Enquanto eu dava uma conferência sobre o Lord Jim de Joseph Conrad, ocorreu-me a ideia de escrever um livro para falar dos romancistas como professores. Reuni materiais durante anos, nos quais ocorreu, ao mesmo tempo, um processo de amadurecimento.

E foi necessário um evento especial: em 2005, fui atacado pela imprensa internacional por algumas afirmações sobre a situação nos subúrbios de Paris tomadas de uma entrevista que concedi ao jornal israelense Haaretz. Acusaram-me do crime intelectual mais grave da nossa época: o racismo. Transformaram-me em um inimigo público. Quando as coisas começaram a serenar, várias pessoas me pediram que eu respondesse, nem que fosse com uma calúnia. Mas isso só teria servido para acrescentar uma polêmica a outra polêmica.

Então, como o senhor decidiu escrever Un coeur inteligent?
Porque neste livro eu estou presente, mais que em qualquer panfleto que pudesse ter escrito para rebater as acusações. Decidi abandonar a arena e os tribunais para me dedicar a autores que iluminam a existência. Foi uma espécie de catarse para mim. É como dizer: por que vocês veem em mim apenas um polemista? Mas eu sigo em frente, não joguei a toalha.

Na sua opinião, que batalhas o homem de hoje deve enfrentar?
Cito de memória o que Simone Weil escrevia: “Em nossa alma há algo que rejeita a verdadeira atenção muito mais violentamente do que o cansaço rejeita a carne. Isso está mais perto do mal que a carne. Por isso, cada vez que se presta atenção de verdade, destrói-se um pouco do mal que há em cada um". Essa é a luta que cada um tem pela frente, uma luta entre a atenção e a tentação da abstração. Um coração inteligente é essa capacidade de prestar atenção.

Como dizia Hannah Arendt, não é o Homem que habita a Terra, mas os homens em sua diversidade, em sua pluralidade infinita. Cada um de nós é um acontecimento. Estamos condenados ao acontecimento.

Por que o senhor fala de “condenação"?
Porque a lei da nossa experiência é o inesperado, o imprevisível. As coisas acontecem, embora não estejam no programa. Nós tentamos dissimular como se fosse nada e buscamos dominar a realidade, mas em vão: só podemos observar esta realidade.

Em 1992,o senhor falou em uma entrevista do acontecimento como “método supremo de acontecimento". Don Giussani se impressionou muito com esta afirmação. Citava-a com frequência, dizia que “o que inicia o processo pelo qual um homem começa a dizer 'eu' com dignidade é um acontecimento". E que “a palavra 'acontecimento' é a única categoria que pode definir o que é o cristianismo". Parece, no entanto, que para o senhor este acontecimento é algo quase a ser temido...
Nunca tinha pensado nisso, mas parece muito interessante. É uma leitura que vê mais do que eu tinha na cabeça. Eu buscava dizer de modo simples que para mim o acontecimento não é necessariamente positivo em si mesmo: pense na morte de uma pessoa querida. É algo que não podemos programar: nós buscamos dominar as coisas, mas acontece algo que nos chama à realidade, que nos tira do prumo.

Em um mundo no qual o dado morreu, no qual vivemos em meio a dispositivos criados por nós, no qual não nos encontramos mais que com nós mesmos, esta é a única possibilidade de conhecer a realidade.

O senhor vê alguma via de saída para esta situação que descreve?
A educação. É a única salvação. Mas, infelizmente, é uma via que a Europa não está percorrendo. Me impressionou muito um fato que ocorreu no final de outubro em uma escola de Paris: uma turma inteira tinha escrito uma carta na qual exigia uma “mudança de atitude" da professora de Inglês, que tinha proibido que os alunos utilizassem o celular durante suas aulas. Os meninos acharam intolerável essa amostra de autoridade e a insultaram, ameaçando pedir sua demissão.

Se não queremos entregar-nos ao marasmo, devemos partir da educação. Em nome da égalité, hoje querem nivelar tudo. Mas entre aluno e professor deve haver uma assimetria que permita ao primeiro aprender e ao segundo ensinar. Partamos de novo de uma relação educativa. Apenas assim poderemos desenvolver a inteligência do coração.

(Via Huellas)