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Manuel Castells: "A educação é o bem prioritário"

A tecnologia derruba barreiras e propicia inovação e novas formas de organização. Este é o terreno fértil para o desenvolvimento da Economia Criativa. E foi um dos temas desta entrevista com o professor Manuel Castells à revista Diálogo com a Economia Criativa (ESPM)

O professor, uma das maiores referências no debate sobre as mudanças provocadas pelas novas tecnologias, afirma que a Economia Criativa, por estar orientada para o consumo de bens e serviços, deve ser organizada como uma indústria, se preocupando com capital de risco, marketing e estratégia. Já sobre cidades criativas, Castells é categórico: não adianta uma cidade investir em atrações para turistas sem pensar nos locais. Sem infraestrutura e segurança, as cidades não desenvolvem cultura e não atraem investimentos.  

No começo da Internet havia uma grande expectativa de que uma comunicação direta com alcance de massa mudaria o eixo do poder na sociedade. No seu livro “O poder e a Comunicação”, o senhor demonstra como as redes de poder aprenderam a usar as novas tecnologias e mantêm o controle das narrativas da economia e da política. O senhor acredita que no final a sociedade em rede permitiu às estruturas corporativas a ampliação de seu poder?
Castells: Em primeiro lugar, não estamos no final, mas no princípio. Lembre que as redes sociais só se desenvolveram a partir de 2002. Naturalmente, a Internet não faz o poder desaparecer. A sociedade em rede é nossa sociedade, todos os processos estruturantes passam pelo manejo da rede. 

Portanto, também o poder dos mercados financeiros, dos aparatos políticos, das corporações. Mas, ao mesmo tempo, a estrutura em rede e as tecnologias em rede incrementam a capacidade de informação, de auto-organização e de ação de qualquer agente, individual ou coletivo, da sociedade. Neste sentido, a resistência ao poder, o contrapoder, se incrementou exponencialmente, como demonstra a importância dos movimentos sociais em rede, de uma ou outra ideologia.

Como as redes que representam grupos e interesses minoritários podem se expandir, se não reproduzem o discurso dominante das redes de comunicação, das redes do pensamento econômico e das redes majoritárias do pensamento político?
Castells:
A resposta está na prática social observada. Os movimentos Occupy, o 15 M espanhol e os movimentos sociais no Brasil em 2013 não reproduziram o discurso dominante. Pelo contrário. E os debates nas redes sociais, operados por milhões, desafiam o discurso controlado dos meios de comunicação de massas.

No Brasil, houve importantes manifestações sociais nas ruas em 2013, como também aconteceram em outros países. Se atribuiu o fenômeno, em parte, ao poder de convocação da Internet. Muitos celebraram o fato de que as manifestações populares excluíam os partidos, os sindicatos e outras organizações políticas. No entanto, durante o processo de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, a multiplicidade de vozes das redes desapareceu e prevaleceu o discurso dos grupos econômicos, políticos e de comunicação. Seria um sinal de que a articulação dos interesses empresariais se sobrepõe à espontaneidade da web?
Castells:
Não, em absoluto. A origem das manifestações e dos movimentos sociais está na sociedade, nos abusos, na exploração e na corrupção que existe no Estado e nas empresas. A Internet não é a causa dos protestos, mas é um meio fundamental para construir uma interação autônoma no debate, informação e comunicação. E só a partir desta autonomia se pode confrontar o poder. 

Mas isto não é uma questão de esquerda ou de direita. O discurso contra a corrupção do PT e contra a classe política em geral é também um discurso crítico com amplo apoio social. É isso que a Internet reflete.

Nos últimos anos, o senhor aprofundou a pesquisa sobre os mecanismos mentais e a forma como a Internet e os novos modelos de comunicação alteram a percepção e a maneira como as pessoas se relacionam. O senhor estabelece que o indivíduo está no centro da transformação da sociedade. Como o indivíduo vai mudar o mundo?
Castells:
Não é o indivíduo. É uma multidão de indivíduos interconectados em rede, mas partindo da rebelião e dos sonhos de cada um, não da direção de aparatos políticos ou ideológicos.

A maneira como as pessoas se relacionam, em especial nos locais de trabalho, tem mudado muito rapidamente. O melhor exemplo está nas startups. O senhor acredita que a empresa colaborativa representa um novo modelo ou apenas uma forma de testar empresas, que, no momento que tenham mercado, vão se comportar exatamente como empresas tradicionais?
Castells:
A mudança na sociedade em rede se revela ainda mais profundamente na economia em rede. Como venho analisando desde fins do milênio, a estrutura empresarial se dá em rede, dentro das grandes empresas, entre as pequenas e médias empresas e entre as grandes e pequenas empresas. Esta estrutura aumentou e se tornou complexa pelos sistemas de comunicação digital que permitem às empresas atuarem de forma associada em tempo real. 

A colaboração em rede é um modelo de organização dominante, como foram a organização vertical do trabalho e a divisão do trabalho na época industrial. Outra questão são os valores cooperativos.

A rede e a colaboração servem tanto para incrementar a produtividade das corporações como para tornar viáveis formas colaborativas solidárias, como as redes de troca ou as cooperativas de produção e consumo. Essas redes cooperativas podem funcionar no interior do capitalismo ou ser absorvidas por sua lógica. Depende. O Uber é um exemplo de produção cooperativa entre indivíduos, mas centralizada por uma empresa capitalista multinacional.

A nova economia abre caminhos para o surgimento de oportunidades de negócio. Hoje, muito se fala da necessidade de investimento em Educação e programas de acesso à informação , como maneiras de estimular a inovação na economia. O déficit de investimentos em Educação e Cultura nos países pobres não vai agravar as desigualdades regionais no mundo? E, dentro de cada país, as desigualdades entre grupos e classes sociais? Como os países em desenvolvimento podem se valer das novas tecnologias?

Castells: A desigualdade mais importante é a que acontece na educação e na pesquisa, porque delas depende todo o resto, a desigualdade de renda, na saúde, na moradia, em tudo. E isto também entre países, entre regiões e entre grupos sociais e pessoas. Como o investimento das empresas é orientado pelo lucro, a correção destas desigualdades básicas só pode ser obtida a partir de investimentos e de uma boa gestão da parte dos governos federais, estaduais e municipais. 

A educação é o bem prioritário. A chave do êxito econômico do Sudeste asiático é o investimento maciço na Educação. Este é o maior problema da América Latina e, em particular, do Brasil.

O investimento em educação é investimento em produção, em igualdade social, em nível de vida, em estabilidade social e em desenvolvimento do país em geral. Não há nada mais importante para o desenvolvimento do que investir em educação em todos os níveis e em todos os âmbitos. 

O Rio de Janeiro sediou os Jogos Olímpicos. A cidade se preparou durante oito anos para este momento. Investiu em transportes, ampliou a rede de hotéis e reestruturou o Centro e a Zona Portuária, onde está o Museu do Amanhã, para nós o equivalente ao Guggenheim de Bilbao. Pode-se considerar a cultura como um ativo econômico a ser preservado e incentivado para a transformação de uma sociedade e seu crescimento econômico?
Castells:
A cultura, em todas as suas manifestações, é uma expressão da identidade plural de um povo, o signo de reconhecimento e construção do sentido. Mas se convertida apenas em consumo turístico tem um limitado valor agregado. A cultura de um povo é para que o povo sinta quem é. E se, além disto, atrair visitantes, muito melhor. Mas não substitui o investimento em educação, formação, empreendimento e trabalho como forma de desenvolvimento.

A Economia Criativa parece um bom caminho para unir cultura e tecnologia. Uma cidade como o Rio de Janeiro teria potencial para tanto, pelo reconhecimento internacional de suas características, como alegria, criatividade e musicalidade? O senhor acredita que a Economia Criativa se apresenta como oportunidade para a inserção social e econômica no Brasil?
Castells:
Depende. Se trata de comercializar a música ou a dança ou a pintura de jovens brasileiros para que cheguem ao mercado nacional e global, sim. Mas, por ser criativa a cidade não necessariamente atrairá investimentos e turismo se não houver condições de infraestrutura, segurança e estruturas empresariais. 

As atividades culturais e criativas têm um papel crescente na economia global. O senhor acredita que isto cria uma perspectiva para o surgimento de novos modelos de desenvolvimento local baseados na cultura, ao invés da economia
orientada para o consumo?
Castells:
Na realidade, a Economia Criativa também está orientada para o consumo. Para o consumo de bens e serviços culturais. Assim, é uma outra indústria, como o software ou a metalurgia. 

É certo que o desenvolvimento local pode estar mais diretamente ligado a uma economia induzida pela criatividade local, mas esta economia deve estar organizada empresarialmente, com capital de risco, marketing e estratégia de formação de redes de empresas.

O senhor foi um dos pioneiros dos estudos da transformação provocada em nossas vidas – além de nos ter brindado com essa obra monumental que é a Era da Informação. Muitos dos desenvolvimentos tecnológicos e efeitos econômicos, sociais e políticos foram antevistos em seus estudos, antes que houvessem atingido seu pleno desenvolvimento. Depois de 25 anos, o que o surpreende na evolução da tecnologia e da sociedade?
Castells:
O que estudei, em minha trilogia, foi o que observei. Era observável. Simplesmente, a maioria dos analistas e políticos se baseavam em categorias antigas e não detectavam as mudanças e as tendências. Você não encontrará nenhuma profecia ou futurologia no meu trabalho porque sou investigador, não adivinho.

Portanto, nada me surpreendeu nas transformações porque elas fazem parte da lógica das redes digitais. Era apenas uma questão de expansão destas redes e de evolução da tecnologia que as tornava possíveis. Inclusive a capacidade autônoma dos movimentos sociais em rede já era visível. 

O que me surpreende é a surpresa de jornalistas, intelectuais e políticos quando surge esta nova realidade. Por exemplo, no Brasil, quando surgiram os movimentos sociais em rede em 2013, já tinham acontecido movimentos semelhantes, com centenas de milhares de pessoas, em mais de 100 cidades do mundo, desde 2011. 

O que segue me surpreendendo é a incapacidade mental de vários países de assimilar o novo e sair do etnocentrismo. Por isto sigo estudando em muitas nações e publicando em muitas línguas, esperando contribuir para uma consciência global da transformação global.


Assista ao vídeo da conferência de Manuel Castells no Fronteiras do Pensamento, Redes de indignação e esperança. Ocupação dos espaços públicos, interação constante entre o físico e a internet. Contextos políticos, línguas e culturas diferentes. Aparentemente desligados, os movimentos contemporâneos apresentam uma semelhança estrutural: a rede, que possibilita uma coordenação cada vez mais estreita. 

Para Castells, considerado o maior especialista em movimentos sociais da atualidade, é esta estrutura comum a todos os conflitos que nos aponta o perfil de mudança da sociedade.