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Manuel Castells: "um país educado com internet progride; um país sem educação usa a internet para fazer 'estupidez'"

A exclusão digital (oposto de inclusão digital) é um conceito que trata da desigualdade econômica e social no que diz respeito ao acesso, ao uso ou ao impacto da informação e das tecnologias de comunicação.

Também chamado de brecha ou de fissura digital, o conceito analisa o abismo que separa as camadas das sociedades que ficaram à margem da chamada sociedade da informação e da expansão das redes digitais.

Em entrevista, Manuel Castells discute o tema com base em suas pesquisas. O autor de A era da informação afirma que, graças aos smart phones, a brecha digital estaria quase superada: "Ela é principalmente uma brecha de idade. Quando a minha geração desaparecer, o acesso será universal."

Porém, enfatiza o sociólogo, no Brasil, a questão não é apenas o acesso, mas sim a educação para utilizar as ferramentas: "um país sem educação utiliza a internet para fazer 'estupidez'. Isso a internet não pode resolver, isso só pode ser resolvido pelo sistema educacional." Confira abaixo a entrevista:

Dados do IBGE divulgados em 2013 apontam que mais da metade dos brasileiros ainda não tem acesso a internet em seus domicílios. Como isso influencia na inclusão social e na participação da construção de políticas públicas?
Manuel Castells: A imensa maioria dos brasileiros tem acesso à internet. O que eles não têm é internet instalada em sua casa, mas têm internet na escola, nos cibercafés, em seus smartphones. A maioria dos brasileiros com menos de 30 anos tem um smartphone, mesmo que sejam pobres, porque para eles é mais importante ter esse aparelho do que ter muitas outras coisas.

Existe um dado confiável em nível global que é: 50% da população adulta do mundo tem um smartphone atualmente. A projeção para 2020 é de que a porcentagem seja de 80% da população adulta do mundo. Portanto, a difusão de smartphone no Brasil é também, no mínimo, de 50% da população adulta. E o smartphone por definição tem acesso à internet, porque senão não é “smart".

As estatísticas tradicionais de uso de internet são absolutamente antiquadas porque contam a internet nas casas das pessoas e hoje não é assim. A maior parte das pessoas não usa a internet em casa, mas sim no smartphone, no trabalho, na rua. Então, a chamada brecha digital está praticamente superada. Ela é principalmente uma brecha de idade. Quando a minha geração desaparecer, o acesso será universal.

O problema é a capacidade de atuar através da internet, que depende, principalmente, do nível educativo e cultural das pessoas. É nisso que está o problema do Brasil: o sistema educativo.

Um país educado com internet progride. Um país sem educação utiliza a internet para fazer “estupidez". Isso a internet não pode resolver, isso só pode ser resolvido pelo sistema educacional.

Levando em conta as transformações sofridas pelo jornalismo nos últimos anos, como pode evoluir a construção das notícias de maneira colaborativa, com a participação efetiva dos usuários?
Manuel Castells: As notícias já não são formadas pelas agências de notícias ou os jornalistas profissionais individuais, são um conjunto de pessoas: são os jornalistas profissionais, são as agências de notícias, são os cidadãos jornalistas que enviam informações.

Os jornais em papel, esses, sim, estão totalmente obsoletos. Não o jornalismo, não o jornalismo online, não a capacidade constante de gerar notícias, mas para que você vai esperar a manhã do dia seguinte para ler uma notícia quando você pode ler na internet em tempo real?

Eu sinto muito porque gosto muito de ler o jornal de manhã, com um cafezinho. Isso é um pequeno luxo, que será cada vez menos possível porque os preços subirão muito, já que só uma determinada classe pode ter esse prazer. Mas não é um prazer informativo, é um prazer sensorial, de tocar o papel do jornal. E para os jovens, isso não interessa.

Os jovens, ao contrário do que se pensa, leem muito mais notícias que os outros, porque leem vários jornais e fazem seu próprio jornal eletrônico, que muda constantemente. Há um mundo obsoleto, que é o dos jornais impressos, que está desaparecendo e que se conservará apenas em níveis de publicações de prestígio, por razões de prestígio político e empresarial-informativo.

No caso da televisão, mesmo que haja muitos canais, eles não se comparam com a diversidade de informação e de entretenimento que se pode encontrar na internet. Os jovens assistem a televisão? Sem dúvidas, veem muito mais televisão que antes, mas por internet.

Outra coisa muito grave: a maioria das faculdades de comunicação e jornalismo continuam ensinando como na Idade Média, sem ter entrado no mundo digital. Então os pobres jornalistas profissionais têm que aprender por eles próprios sem que haja mestres possíveis porque os senhores catedráticos de sempre continuam pensando que a teoria da comunicação precisa ser baseada na retórica, na análise linguística, e não na transformação da comunicação.


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