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Michel Onfray: a libertação na filosofia

Logotipo da Universidade Popular de Caen
Logotipo da Universidade Popular de Caen

Diz-se que em épocas de crise os homens se voltam para a filosofia. Verdade ou não, o fato é que, como lembra o curador do Fronteiras, Fernando Schüler, a profusão de palestras disponíveis na internet, cursos, studios, oficinas e conferências é inegável.

Projetos bem-sucedidos como TED e The School of Life navegam entre a tênue linha entre virtual e presencial -- algo que motivou as maiores universidades do mundo a repetirem a iniciativa, abrindo cursos gratuitos na internet, geralmente com certificados pagos. O que poucos sabem é que de "novos" estes projetos pouco têm. Enquanto o TED foi fundado ainda na década de 1980, a escola de Alain de Botton já completa quase uma década, tendo iniciado suas atividades em 2008, um ano após o Fronteiras do Pensamento.

Outra iniciativa que vem, há anos, buscando democratizar o conhecimento é a Universidade Popular de Caen. A instituição foi criada em 2002, pelo filósofo francês Michel Onfray que propunha, com cursos abertos, promover a filosofia como um modo de vida.

Em entrevista concedida a Eduardo Wolf para a obra Pensar o contemporâneo, Onfray fala sobre o objetivo da Universidade Popular de Caen, sobre seu ideal libertário e sobre a tríade que está no centro de seu pensamento - o hedonismo, o anarquismo e a posição libertária. Confira abaixo:

Fronteiras do Pensamento: A sua biografia é impressionante quando consideramos a vida intelectual francesa contemporânea: a vida no interior, sua experiência como trabalhador em uma fábrica de queijos e outros relatos que encontramos em seu livro La politique du rebelle (1997). Você acha que é possível perceber no seu projeto propriamente filosófico alguma influência dessa trajetória peculiar?
Michel Onfray:
Sim, creio que seja possível fazer um trabalho à moda de Bourdieu, uma espécie de sociologia daquilo que me tornei. De fato, meu pai era um autêntico agricultor, minha mãe era faxineira, e cresci no interior, onde fiz meus estudos e onde sigo vivendo - não me mudei para Paris, não sou agregé, não fiz a École Normale Supérieure, de modo algum se pode dizer que eu pertença ao establishment. E, no entanto, publico livros - mais de 60 -, sou traduzido em mais de 30 países, tenho leitores, de fato, de modo que se trata de uma situação bastante atípica.

Efetivamente, se nos apegássemos às lições da sociologia, não deveria ter me tornado o que sou hoje. De fato, lembro quando, em 1988, por ocasião da publicação de meu primeiro livro, meu editor pediu-me que me mudasse para Paris, que deixasse para trás a vida no interior - o que equivalia a deixar minha vida para trás na verdade. Como me recusei a fazer isso, ele foi bastante taxativo: assim você jamais terá uma carreira! Respondi a ele que não tinha intenção de fazer carreira, apenas queria escrever meus livros, que eles fossem coerentes, e queria, sobretudo, ser um homem livre.

E tenho a impressão de que hoje posso dizer que sou um homem livre: vivo graças aos meus livros e aos meus leitores e não tenho que prestar contas ou agradar nenhuma instituição. Não faço parte de todo o esquema universitário, por exemplo. Quando defendi minha tese, recebi uma proposta de me tornar professor na universidade, mas não quis, não aceitei. O mesmo vale para meu editor: se eu não estiver contente, procuro outra editora. Não preciso agradar nenhum jornalista, nada. Enfim, posso trabalhar livremente.

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Fronteiras: Quando consideramos esta espécie de tríade que está no centro de seu pensamento - o hedonismo, o anarquismo e a posição libertária -, você acha que essa experiência pessoal peculiar pode ser sentida assim de perto nesse tipo de posição filosófica que você assume?
Onfray:
Sim, passei pela experiência do orfanato aos dez anos e ali me deparei com a autoridade, com a brutalidade. Desde então, sou refratário a toda forma de autoridade. Não suporto a autoridade. Assim, cuidei para que não me tornasse nem me submetesse a uma autoridade. Há uma frase de Nietzsche que diz: “É-me tão odioso seguir como guiar".

E, de fato, não exerço poder algum sobre as pessoas, não tenho uma posição institucional na qual deva exercer qualquer tipo de poder sobre ninguém. Posso exercer alguma influência, já que as pessoas fazem referência ao meu trabalho, mas isso não equivale ao poder da autoridade - o poder do professor, do jornalista. Simplesmente não tenho esse tipo de poder - e digo mesmo que não o suporto. E, com efeito, essa atitude, que é filosoficamente proveitosa, tem suas raízes na minha infância, que foi quando descobri a violência, a brutalidade e, logo, o poder. Decidi-me por não querer exercê-lo, mas também por não deixar que o exercessem sobre mim.

Fronteiras: Seu projeto da Universidade Popular de Caen representa certa concepção de filosofia, a saber, aquela que encara a filosofia como um modo de vida, por oposição a tomá-la por uma disciplina teórica entre outras tantas. Em que medida colocar em prática essa concepção é realmente possível, uma vez que a filosofia segue sempre sendo uma atividade teórica, inseparável da argumentação e da análise conceitual?
Onfray:
Não apenas é um projeto realizável como isso foi a filosofia por aproximadamente dez séculos. Toda a filosofia antiga se propõe a ser isso. Foi necessária a chegada do cristianismo para que a filosofia se tornasse uma disciplina obscura: aí se começou a refletir sobre o Pai, o Filho, o Espírito Santo, a junção dessas três figuras numa mesma pessoa, como é possível a consubstanciação - enfim, toda a patrística grega e latina, de Tertuliano à escolástica, confisca a filosofia, que deixa de ser a arte de levar uma vida filosófica e passa a ser essa arte de argumentar, de elaborar discursos a respeito de questões inúteis - uma discussão sobre o “sexo dos anjos".

Mas há gente que resistiu a esse processo, como Montaigne, Schopenhauer, Nietzsche, Kierkegaard, que foram pensadores da existência. Eles nos dizem claramente que a filosofia não é a arte do discurso, mas sim a arte de uma forma de vida, a vida filosófica. É isso o que quero dizer quando afirmo que se trata de um projeto possível - a filosofia efetivamente já foi isso nesses séculos todos antes do advento da filosofia cristã. Hoje nos encontramos em uma situação de puro discurso. Por exemplo, comprei a revista Marianne no aeroporto, e havia uma entrevista com (Alain) Badiou e (Jean-Claude) Milner que era um delírio! Eles estão completamente imersos no discurso - são os representantes da patrística de nosso tempo -, estão perdidos em questões abstrusas, teóricas, “do que isto é um nome?" e coisas do gênero. Bem, isso pode até ser um pouco simpático, mas sou obrigado a confessar que me fazem rir.

A filosofia me salvou não porque ela pode resolver questões do tipo “como é possível o juízo sintético a priori?", mas sim porque ela tem algo a dizer sobre como devemos nos comportar face ao amor, ao sofrimento, à dor, à morte, ao dinheiro, à riqueza, à honra. Os estoicos, os cínicos, os céticos, os epicuristas, todos eles estavam em busca de respostas - e nos ofereceram algumas tantas - para esse tipo de interrogação. O que eu me questionava era isto, então: por que não retornamos a esse tipo de sabedoria, essa sabedoria prática?

Quer dizer, é muito fácil ter um discurso filosófico quando somos pagos pelo Estado, trabalhando na École Normale Supérieure, fabricando futuros graduados, e quando termina o expediente de trabalho, na hora de viver a vida comum, isso de nada vale. De minha parte, prefiro que possamos dizer aquilo que vivemos e viver aquilo que dizemos, ou seja, ser mais modesto nas exigências - não queremos fazer a revolução amanhã para abolir o capitalismo -, focando nas pequenas coisas concretas. Quando temos o acúmulo dessas pequenas coisas, pode-se ser filósofo e motorista de táxi, servente de hotel, pouco importa - a filosofia não é feita por técnicos, mas por todo mundo.

Fronteiras: Mas, mesmo se considerarmos a filosofia grega antiga, para ficar no seu exemplo, é inegável que sempre houve um trabalho extremamente técnico, como se essas tecnicalidades fossem incontornáveis. E isso não vale apenas para Platão ou Aristóteles, mas também, por exemplo, para os estoicos, que você citou, e que desenvolveram uma lógica extremamente técnica e difícil, indissociável do restante de sua filosofia.
Onfray:
Considere, por exemplo, os epicuristas. Quando se ocupam da física - do estudo da natureza -, eles o fazem da perspectiva da moral. Não estão interessados na física nela mesma, mas em compreender a natureza do mundo para extrair conclusões de peso em nossa vida moral. Se fizéssemos isso hoje, creio que poderíamos nos interessar imensamente pela descoberta do Bóson de Higgs, por exemplo, porque isso nos permite bem conceber o universo, o cosmos, e, a partir de tal concepção, podemos construir uma ética, uma moral.

Ou seja, é possível ainda hoje estar interessado na física, na lógica, nas questões mais teóricas e, ainda assim, fazer esse interesse convergir para uma prática particular. Isso é semelhante ao que se dava com Platão e a matemática. Mesmo com Aristóteles, podemos colocar no centro de suas reflexões a Ética a Nicômaco, por exemplo, e organizar todo o resto em torno do que ela propõe: os trabalhos teóricos e de ciência natural estariam, assim, construindo uma espécie de enciclopédia do mundo, seriam uma empreitada para compreender o mecanismo de funcionamento do mundo - e nisso consistiria a felicidade, a eudaimoniade que nos falava sua ética.

Em suma, assim como em Platão, mesmo a matemática estava a serviço de finalidades práticas, como ser um bom governante, também em Aristóteles podemos encontrar essa primazia da vida prática, e mais ainda em filosofias como a dos estoicos, a dos epicuristas etc.

Fronteiras: Em seu projeto intelectual, o ideal libertário é quase onipresente. Ao mesmo tempo, Nietzsche é uma referência não menos presente. Como conciliar um ideal tão radical de liberdade com um autor como Nietzsche, proponente de uma filosofia aristocrática, uma filosofia da força?
Onfray:
Bem, ser nietzschiano não é o mesmo que ser Nietzsche. Não é segui-lo em tudo o que disse, mas pensar a partir de seu pensamento. Hoje, ser nietzschiano é algo que não tem relação alguma com a caricatura que se fez de Nietzsche. Ser nietzschiano, parece-me claro, é, a partir de sua obra, saber que não há nada além da vontade de poder, que não somos senão um fragmento dessa vontade, é amar seu destino - o famoso amor fati - e abrir-se à beatitude que constitui o super-homem - o super-homem é aquele que sabe que é apenas um fragmento do mundo e que ama essa condição.

Quando você diz “Nietzsche faz o elogio da força", é preciso integrar isso a toda essa perspectiva. Quando Nietzsche diz que não temos escolha, que não somos livres, não diz que não devemos gostar da força, mas sim que não temos escolha de gostar ou não da força - a força faz parte do mundo, é consubstancial a ele. E não podemos mudar nada no mundo, pois ele já ocorreu e continuará a ocorrer eternamente. Essa eterna repetição do mundo faz com que estejamos para além da força e da fraqueza.

Não podemos dizer que escolhemos uma ou outra em Nietzsche, porque nós somos escolhidos por uma ou outra. Dito isso, como é possível sustentar uma posição anarquista e invocar Nietzsche? De fato, ele foi um autor que fez uma bela crítica dos pensamentos anarquista e socialista. Explica muito bem a dose de ressentimento contida nisso que podemos chamar de opções à esquerda no espectro político. De minha parte, confesso que muito convivi com gente de esquerda e pude constatar o grande papel desempenhado pelo ressentimento em seu modo de pensar. Não são pessoas que querem a revolução por uma questão de generosidade, de solidariedade ou de fraternidade, apenas querem que os ricos não sejam ricos - e que elas o sejam. Uma espécie de inveja daquilo que se despreza.

Trabalhei durante um tempo no Siné Hebdo, que reunia muita gente de esquerda, e pude perceber a maldade dessas pessoas: seu gosto pela violência, pela brutalidade; sua verdadeira paixão por Saint-Just e Robespierre, pela guilhotina, mesmo por tipos como Mesrine; sua defesa de Lênin, de Mao, de Castro. Em suma, eram pessoas que só falavam em liberdade da boca para fora, pois todos eram defensores de ditaduras. Um verdadeiro libertário, para mim, é alguém que não coloca nada acima da liberdade.

É algo muito simples e muito complicado ao mesmo tempo, porque no cotidiano as pessoas não gostam de liberdade: obediência, subserviência, docilidade, catecismo, fé, é isso o que as pessoas preferem. Se você é de esquerda, deve pensar assim e assim; se for católico, deve pensar isto e aquilo; e, quando você introduz alguma sutileza, há um exército contra você.


Leia a entrevista na íntegra na obra Pensar a filosofia.
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