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Amós Oz: Cada homem é uma península

Amós Oz no palco do Fronteiras São Paulo. Foto: Greg Salibian
Amós Oz no palco do Fronteiras São Paulo. Foto: Greg Salibian

Um dos mais prestigiados escritores da Israel contemporânea, Amós Oz, falou na noite desta segunda-feira (26) em São Paulo, para a plateia lotada do Teatro Santander. A conferência Meus livros, meu país, minha política tem título autoexplicativo. Dentro das temáticas que costuma abordar em sua obra, o autor de Judas e De amor e trevas expôs seus pensamentos sobre fanatismo, história e religião, trazendo entendimentos tanto gerais como pessoais. 

Durante a conferência, o escritor de 78 anos ressaltou a importância do bom-humor e da curiosidade como antídotos para o fanatismo. Para Oz, a criação literária é o resultado da curiosidade em sua vida. Amós Oz aproveitou sua passagem pelo Brasil para lançar a mais recente obra, uma coleção de três ensaios chamada Mais uma luz (Companhia das Letras). 

Após encerrar sua fala, o autor israelense respondeu às questões da plateia, além da pergunta Braskem, selecionada a partir de questões enviadas pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nas mídias digitais. Desta vez, a pergunta escolhida veio de Fernando Silva Ferreira Borges. Confira:

Fernando Silva Ferreira Borges: No livro A caixa-preta há uma passagem que o autor declara: "Toda pessoa é um planeta". Gostaria de perguntar como é lidar com os opostos no mundo em que vivemos atualmente e essa falta de respeito em vários sentidos? E qual a importância das singularidades na literatura?

Amós Oz: Eu posso dizer a vocês que o livro A caixa preta é uma troca de cartas e mensagens entre os personagens. O autor só fala através dos personagens. Mas eu, diferente de John Donne, que sempre afirmou que nenhum homem é uma ilha, e diferente de muitas tradições darwinísticas que alegam que cada homem é um planeta em guerra com outros, eu acredito que cada um de nós é uma península, meia ilha. Eu acho que é certo para nós sempre permanecer uma península: metade ligada ao continente, que seria família, sociedade, comunidade, religião, país e herança. Mas a outra metade de nós deveria ficar isolada, sozinha, enfrentando os elementos que são o mar, as montanhas, a solidão, a morte, a ambição, os desejos. Nunca confie naquelas pessoas profetas e teologistas que dizem que você não precisa ser nada mais do que uma molécula da Terra, do continente, país, religião, seja o que for. Mas você vai confiar nos profetas que dizem que cada um de nós é uma ilha solitária que vive numa guerra perpétua com o resto do arquipélago? Para mim, pelo menos, a condição humana é ser uma península, e não uma ilha. É a minha fórmula para a vida familiar, para parcerias, amizades, e é a minha fórmula para Israel e Palestina. Ninguém é uma ilha, ninguém é um planeta separado, cada um de nós deveria preferir permanecer uma península.

VEJA ABAIXO OUTRAS RESPOSTAS DE AMÓS OZ:

Você mencionou na sua fala a dimensão territorial do conflito israelo-palestino. Para trazer para a realidade brasileira, é uma disputa que se dá sobre um território comparável ao estado do Sergipe, que é o menor estado do Brasil. Ao mesmo tempo, Jerusalém é a terceira capital do mundo com maior número de correspondentes estrangeiros, perde apenas para Washington e Bruxelas. Por que esse conflito, tão diminuto do ponto de vista territorial, tem essa cobertura tão intensa e essa presença tão grande na mídia internacional? Por que essa obsessão, esse interesse tão grande por esse conflito?

Essa obsessão tem muitos motivos, alguns são históricos e outros têm a ver com um temor de que o Oriente Médio seja o início de Armageddon, do fim do mundo. Alguns acham isso porque do fundo do coração das pessoas, elas acham incrível, se perguntam como é possível o fenômeno de Israel. Não foi só Martin Luther King que disse “Eu tenho um sonho”. Tem a ver com o que você disse sobre a presença de correspondentes em Jerusalém. Eu tenho um sonho, eu gostaria de viver para ver Israel removido das manchetes de todos os jornais do mundo. Em vez disso, eu gostaria que Israel pudesse conquistar espaço no suplemento musical, de esportes, de arquitetura, agricultura. Quando Israel sair das manchetes de jornais e os correspondentes estrangeiros forem a outro lugar, e os editores culturais forem a Jerusalém, eu serei um homem feliz.

Quais as principais diferenças entre a sociedade israelense da sua infância e a sociedade israelense contemporânea, lembrando que no próximo ano Israel completa 70 anos de existência?

Bom, a resposta longa para essa pergunta levaria uma trilogia, talvez um dia eu escreva. Mas a resposta rápida é o que eu ouvi do meu pai: a noite em que as Nações Unidas resolveram em Nova York dividir a Palestina em dois estados soberanos, foi uma noite de euforia em Jerusalém. As pessoas estavam chorando, dançando, estranhos estavam se abraçando nas ruas, eu tinha nove anos de idade e não estava entendendo que ia se seguir uma guerra horrível, e outra, e outra, e outra. Mas às três horas da madrugada meu pai entrou na minha cama, debaixo do meu cobertor, e disse para mim: “Sabe o que é, meu filho? Você talvez vá apanhar de meninos na escola por muitos motivos, mas não por ser judeu. Isso aqui acabou”. Essa eu acho que é a maior mudança. Porque o meu pai apanhou na Europa do Leste porque era judeu. E isso acabou na Europa do Leste. Eu acho que isso é a raison d’être de Israel, o resto são sonhos não realizados. Charles Dickens escreveu aquele livro Grandes esperanças, mas nós nunca imaginávamos que “grandes esperanças” seria o nome do meio de nossos cartões de visita. Porque a maioria de nossas expectativas não foram preenchidas, não podem ser preenchidas, não por causa de Israel, mas pela natureza dos sonhos que nunca são totalmente realizados. Mas eu me sinto fascinado todos os dias pela vivacidade, pelo som e fúria desse país judeu onde todo mundo acha que sabe melhor do que os outros.