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Camille Paglia: o futuro dos jovens e a distopia do prazer

Camille Paglia, antes de sua conferência no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Camille Paglia, antes de sua conferência no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

A ensaísta norte-americana Camille Paglia foi a convidada do Fronteiras do Pensamento São Paulo de quarta-feira (16). No Teatro Cetip, a professora de Humanidades e Estudos Midiáticos discutiu diversas questões da mulher atual e defendeu o papel da arte enquanto o sentido maior que pode recuperar o vazio intelectual e material dos jovens contemporâneos:

“Nós precisamos oferecer algo aos jovens que vá além do sucesso material. A resposta para isso é a arte. A arte é uma experiência espiritual. A arte é transcendental. A arte tem o poder de eletrificar e transformar a vida do ser humano. É uma forma de salvação neste vácuo que vemos hoje, nesta cultura pós-religiosa. É isso que quero oferecer aos jovens."

Sobre as mulheres, Paglia criticou o que considera uma limitação do feminismo de hoje, “subestimar o interesse natural de muitas mulheres em terem filhos". Isso é um problema, defende, porque dificulta o próprio princípio do feminismo, o qual ela esclarece considerar louvável, que é o empoderamento das mulheres. Porém, Paglia lastima que, pela lógica feminista atual, nem todas são empoderadas, “havendo desrespeito pelas mulheres que optam por ser mães ou religiosas." E isso deixa de lado diversas lutas importantes, como a transformação de sistemas de ensino ou de trabalho para que mães possam parar e retomar faculdades, trabalhar de casa ou com seus filhos próximos delas. Segundo a convidada, "O feminismo deve reconhecer que há escolha: há mulheres que querem filhos; outras que querem carreira; e outras que buscam o equilíbrio entre ambos."

Paglia ainda traçou uma comparação histórica com o período de individualismo em que vivemos, argumentando que o individualismo faz parte do movimento pendular da história, que alterna com períodos que vivem por ideais maiores do que o próprio eu. Porém, para ela, ainda vivemos “sob influência do romantismo, com o culto do indivíduo, da anarquia, da revolta contra os princípios da ordem e da clareza", valores do período anterior, o neoclassicismo. A preocupação de Paglia, explica ela, é que

“as únicas formas de identificação do jovem contemporâneo são orientação sexual, grupo étnico, gênero e isso, no começo, eram conceitos libertadores, mas, agora, se tornaram prisionais. O culto do eu está muito limitado. No meu estudo da história, vejo que os períodos do individualismo são, inicialmente, inebriantes, porque o indivíduo se liberta, mas depois surge a ansiedade. Você sente que nada limita sua individualidade. O que eu vejo é infelicidade."

Após sua fala, Camille Paglia respondeu as perguntas do público presente no Teatro Cetip. Dentre as questões, estava a Pergunta Braskem, enviada pelos seguidores do Fronteiras do Pensamento nos canais digitais através do e-mail digital@fronteiras.com. Confira abaixo a pergunta enviada por Pedro Carvalho:

Pedro Carvalho: Milan Kundera disse, em A arte do romance, que a função do romance é dizer ao leitor que a vida é mais complexa do que aparenta. Camille Paglia nos fala da futilidade transmitida pelo turbilhão de informações. As pessoas querem compreender a complexidade da vida humana? Como a contemplação da arte pode nos ajudar nestes tempos tão fluidos?
Camille Paglia:
Estamos em um período de grande impaciência com obras de arte complexas. É raro encontrar um jovem que se sinta atraído por Dostoiévski ou Kafka. Comecei a perceber isso nos anos 1980, quando passei a mostrar clássicos do cinema europeu, como Ingmar Bergman, para meus alunos. Eles achavam que aquele mundo filosófico do Bergman era sério demais, totalmente diferente da forma com que eles viam o mundo.

Hoje em dia, os alunos não têm interesse nenhum por ler algo que seja longo, um romance extenso. Há sim um pequeno número que se atrai por isso, mas, hoje, em geral, os jovens querem coisas mais rápidas e fáceis. No começo da minha carreira, nos anos 1970, nós líamos romances muito longos, era isso que dávamos para os alunos, mas, com o tempo, eles pararam de ter paciência e passaram a detestar este tipo de literatura. Então, isso me preocupa.

Um filme teve grande impacto em mim, A máquina do tempo, baseado no famoso romance futurista de H.G Wells (imagem: versão de 1960, dirigido por George Pal). No futuro distante, projetado na obra, há uma divisão da espécie humana entre os Morlocks, trabalhadores industriais, feios, responsáveis por toda produtividade da sociedade e os Elóis, uma elite apolônica, totalmente inútil, que tinha aquela qualidade de gênero fluida, gostava de brincar, não tinha conflitos e preocupações.

Era tudo prazer, os meninos pareciam meninas, aquele homoerotismo todo e eu me perguntei: será que a cultura ocidental está evoluindo para isso? Será que os jovens estão se tornando Elóis? Que não se sacrificam por nada, que acham que a cultura própria de hoje vai durar para sempre, que os dispositivos móveis vão cair do céu...

Me preocupo muito com este mundo em que, de um lado, temos uma barbárie, o terrorismo e os horrores que mal podem ser tolerados mesmo quando apenas lemos os jornais e, de outro, temos os jovens que querem esperar só o melhor da vida.


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