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Jan Gehl responde: Revitalizar para humanizar

Jan Gehl no Fronteiras (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)
Jan Gehl no Fronteiras (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)

Crítico da arquitetura modernista que se espalhou pelo mundo após a 2ª Guerra Mundial, o urbanista dinamarquês Jan Gehl foi o convidado desta semana no Fronteiras do Pensamento. A fala de Gehl, intitulada Cidades habitáveis para o século XXI, encerrou o ciclo de conferências 2016 do Fronteiras.

Durante o evento, o arquiteto, autor do best-seller Cidades para pessoas (2010), afirmou que o sucesso de sua obra, traduzida para 32 idiomas, é uma evidência do enorme interesse que existe em resgatar os aspectos humanos do urbanismo. Segundo Gehl, as pessoas desejam cada vez mais conviver umas com as outras: "O homem é a maior alegria do homem, como diz um provérbio."

Para ele, a verdadeira arquitetura deve ir além da forma e levar em conta a escala humana e a interação com a vida. "As pessoas estão cansadas do modernismo e do motorismo", disse ele, referindo-se ao protagonismo que os carros ganharam no planejamento urbano.

Após sua conferência, Jan Gehl respondeu as perguntas do público presente. Dentre elas, a pergunta enviada pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem. Desta vez, a questão veio da Giovana Flores, que nos contou, por e-mail, que está concluindo seu mestrado sobre um novo urbanismo, mais humano. Parabéns, Giovana, e gratidão a todos os que acompanharam as conferências do Fronteiras do Pensamento ao longo deste ano!

Giovana Flores: Recentemente, muitos centros urbanos brasileiros estão passando por processos de revitalização. De que forma a revitalização do centro urbano pode auxiliar a incorporar a dimensão humana no local e recuperar a função social da área?

Jan Gehl: Falarei sobre o caso de Melbourne. A situação lá era muito ruim. O centro era detestado pela população e isso não pode ocorrer. Não havia este coração na cidade e toda cidade precisa de um coração, é isso que posso resumir como resposta. Tudo precisa de um coração no centro. Melbourne resolveu criar um e trabalharam muito nisso.

O resultado foi fantástico: hoje, possuem os níveis mais elevados de qualidade de vida no mundo. Por que uma cidade australiana seria a mais habitável do hemisfério sul, sendo que há tantas outras com clima mais favorável ou outros elementos mais favoráveis? Por que os australianos são melhores? Converse com seus prefeitos: eles estudaram o clima, eles estudaram a saúde da população, eles sabem que privilegiar os carros é ultrapassado.

Jan Gehl respondeu perguntas sobre diversos temas. Confira algumas de suas principais respostas:

LIDERANÇAS PARA NOVAS CIDADES
Trabalhei em Nova York, que tem oito milhões de pessoas, em Moscou, que tem 15 milhões, e eu vi uma coisa muito interessante – nestas cidades e no mundo todo: liderança. Nós precisamos de líderes visionários, que tenham uma visão sobre onde as cidades devem chegar em 10 ou 20 anos. São estas as cidades que estão tendo um desenvolvimento interessante. Vimos isso em Bogotá, com Peñalosa, em Curitiba, com Jaime Lerner... Esta liderança é um fator crucial. Mas, agora, nem tanto, porque já existem muito exemplos do que fazer. Não é mais necessário ser tão corajoso: basta não ir contra a corrente.

CIDADES DENSAS E A PREGUIÇA DO ARRANHA CÉU
Paris é uma cidade muito densa e, ao mesmo tempo, tem essa limitação dos seis ou sete andares das edificações, com boulevares e praças maravilhosos. Você precisa trabalhar mais para criar uma cidade densa com construções mais baixas. Quando estou maldoso, digo que as torres imensas são uma resposta do arquiteto preguiçoso às cidades: para eles, é só construir mais e mais.

INSEGURANÇA E ESPAÇOS PÚBLICOS
Não sou especialista em segurança, especialmente no caso brasileiro, mas até onde sei, não são os urbanistas que tratam dos problemas de segurança, mas sim a sociedade, os políticos e as políticas de integração das pessoas. Só posso dizer que é triste que as pessoas precisem se enclausurar, criando filhos na frente da TV. Há tanta vida perdida quando se vive com medo. É uma situação infeliz. Como europeu, no entanto, eu não sei o que dizer para vocês.

COPENHAGUE E A CIDADE EM QUE QUEREMOS ENVELHECER
Morei um ano em Toronto, é uma boa cidade, mas, basicamente sempre morei em Copenhague. Sabe por que ainda estou lá? Quando minha esposa e eu estávamos casados há 45 anos, tínhamos 70 anos de idade portanto, decidimos sair para jantar. Era um dia bonito, queríamos jantar em um restaurante ao ar livre e fomos pedalando cerca de 8km, aos 70 anos. Vimos as praças, fomos ao centro, ao porto, escolhemos o lugar para jantar e fizemos tudo de bicicleta, somando 20km. Juntos, pensamos sobre como era um milagre estar em uma cidade onde pessoas de 70 anos de idade podem pedalar tantos quilômetros em segurança, segurança em termos de trânsito. Percebemos que isso não era possível quando nos conhecemos, que tudo tinha melhorado nesses 50 anos em que estávamos juntos.

Em todos estes anos, tínhamos a sensação de que a cidade estava melhorando, dia após dia. É isso que eu desejo para todas as pessoas e para todas as cidades: que possamos acordar com a certeza de que o local em que vivemos está melhorando. Isso significa que envelhecerei em um lugar melhor, que meus filhos e netos morarão em cidades melhores. Sei que muitas cidades estão no sentido contrário. Todas as manhãs, as pessoas sentem que o trânsito está pior, a segurança está pior.

Por isso esta grande virada urbana é tão crucial, porque é muito importante sentir que a vida e que os dias estão melhorando.