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Mario Vargas Llosa responde a Pergunta Braskem: literatura em tempos de crise

Mario Vargas Llosa no Fronteiras Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)
Mario Vargas Llosa no Fronteiras Porto Alegre (foto: Luiz Munhoz/Fronteiras do Pensamento)

Mario Vargas Llosa abriu a temporada de conferências do Fronteiras do Pensamento Porto Alegre na noite de quarta-feira (11). O Nobel de Literatura subiu ao palco de um Salão de Atos lotado para proferir a conferência Cultura, literatura e liberdade, uma fala de “grande cunho autobiográfico", como explicou o convidado na abertura da conferência.

Unindo narrativas pessoais e história da América Latina, Llosa contou a vida do Mario adolescente, que se apaixonou pelo socialismo ao ler Jan Valtin, na obra Do fundo da noite. Falou também do jovem Mario que, militando no Partido Comunista peruano, decepcionou-se com o dogmatismo socialista. O público também conheceu a história de um Mario que via a forte repressão aplicada pela ditadura do General Manuel Odría e que buscou, no existencialismo francês e nos liberais ingleses, outros caminhos para o pensamento. Saindo da busca pela perfeição utópica, Llosa disse que aprendeu sobre os processos da democracia:

“Trazer o paraíso à Terra só pode ser realizado por meio de uma violência monstruosa, porque os seres humanos são diferentes. Estabelecer um tipo de norma é introduzir uma coerção espantosa. Todas as filosofias que tentaram organizar a vida são as ideologias que criaram os piores infernos. Embora comunismo, nazismo e fascismo pareçam diferentes na prática, suas maneiras de compreender a sociedade, de converter o homem em um objeto manipulável, são idênticas. A única coisa que está à frente destas doutrinas totalitárias é a democracia. É esta medíocre democracia, a qual os intelectuais costumam desprezar tanto, porque está tão longe da perfeição que eles desejam. Mas, estas sociedades, como dizia Camus, são as sociedades mais avançadas, que criaram mais igualdade do oportunidades para que os seres humanos possam se realizar e realizar seus sonhos", concluiu o escritor peruano.

Após sua conferência, o Nobel de Literatura respondeu as perguntas do público e a Pergunta Braskem, selecionada a partir das dezenas de questões que recebemos por e-mail de nossos seguidores. Desta vez, a Pergunta Braskem escolhida veio de Guilherme Ozório Santander Francisco: Qual é a função social da Literatura em tempos de crises?

Mario Vargas Llosa: A função da literatura é a mesma, em tempos de crise ou tranquilidade. A literatura, por um lado, enriquece nossas vidas, nos coloca em contato com a beleza, com esta perfeição que nós não temos na vida cotidiana. A literatura nos tira de nós mesmos e nos faz viver experiências que a realidade jamais nos permitiria viver. Isso desenvolve, em nós, uma atitude de inconformismo e de rebeldia em relação ao mundo tal como ele é.

Quando saímos de um grande romance ou de uma grande obra de teatro, de um belíssimo poema, percebemos muito melhor que o mundo real é pobre, que está abaixo de nossas aspirações e desejos. Esta atitude de inconformismo frente ao mundo é a principal fonte do progresso.

Por isso, acredito que uma sociedade profundamente impregnada de literatura, de boa literatura, é muito mais difícil de enganar do que uma sociedade inculta, com pouca leitura ou, principalmente, com más leituras.

Se quisermos ter cidadãos com espírito crítico, que não se deixam manipular pelas operações do poder, nós precisamos de uma sociedade em que a literatura desempenhe um papel fundamental na formação da cidadania.

>> Confira outras perguntas feitas a Mario Vargas Llosa:

O que é a boa literatura?
Mario Vargas Llosa: A boa literatura é aquela que não nos dá uma visão mecânica da vida, mas sim uma visão dinâmica. É aquela que nos faz sentir que, nesta ficção, nesta mentira que é uma ficção, está expressa uma verdade profunda que não pode ser expressa de outra maneira.

Quando lemos Guimarães Rosa e seu maravilhoso O Grande Sertão Veredas, tem algo dito ali que não pode ser dito de outra forma. Neste extraordinário monólogo, desse ex-jagunço, ex-contrabandista, que conta sua vida de violência, tem alguma coisa que nos faz entender melhor o que são os seres humanos, as paixões, o que significa a violência nas relações humanas, o que significa o amor, o prazer e o que é a aventura, o poder de viver além de nossos próprios limites. Acho que a grande visão da vida que nos dá uma obra literária é o que faz esta obra ser grande.

Como podemos tolerar a intolerância?
Mario Vargas Llosa: Creio que devemos ser intolerantes com a intolerância. Não é fácil praticar esta intolerância à intolerância. A América Latina vem de uma tradição de muita intolerância. A América Latina é filha da contrarreforma, um movimento religioso de enorme defesa da ortodoxia, que foi muito intolerante contra as heresias, o protestantismo, o luteranismo, tudo que erra considerado ruptura foi perseguido de maneira feroz. É uma tradição que pesa muito na nossa maneira de ser.

Temos que aceitar a ideia de que nós podemos estar errados e que, portanto, nossos adversários podem ter razão. Esta humildade, aceitar a possibilidade do erro, representa a fonte da tolerância. A tolerância é uma virtude essencial da democracia. É muito importante que a gente se reeduque no caminho da tolerância se nós queremos erradicar a violência da vida latino-americana. A violência fez estragos , foi uma fonte de terríveis sofrimento na nossa história a, ao mesmo tempo, foi um dos grandes obstáculos para que a América Latina se integre e tenha uma luta eficaz contra a pobreza e a favor do desenvolvimento.

O que o senhor pensa sobre a democratização da mídia, tendo em vista a informação seletiva e a manipulação da informação para que a elite seja beneficiada? Como evoluir?
Mario Vargas Llosa: A manipulação da sociedade através da informação é inevitável se não há uma vigilância constante do poder. Todo poder tende a crescer. O poder democrático também. Neste sentido, o poder é um só. Ele tende a crescer e a silenciar o adversário, se ele puder fazê-lo. Então, por que ele não o faz na sociedade democrática? Porque há obstáculos para isso. Há leis, instituições e, sobretudo, um espírito na sociedade que impede que isso aconteça. Por isso nós precisamos de uma cultura viva, rica, porque nada desenvolve tanto o espírito crítico de uma sociedade do que uma vida cultural criativa.

Sobre a manipulação, se nós adormecermos, se nós permitirmos que a cultura se transforme em entretenimento e diversão – o que é um perigo para a cultura contemporânea – abriremos espaço para a manipulação. Esta manipulação pode vir por parte do Estado, por parte do poder, por meio de uma tecnologia que traz enormes benefícios à humanidade no campo da liberdade de expressão, mas que pode ser uma arma muito perigosa de manipulação da opinião pública. Depende inteiramente de nós que isso não aconteça.

A política partidária ainda é capaz de resolver os problemas da sociedade, de ser porta-voz de anseios, desejos e sonhos ou é um modelo que se exauriu?
Mario Vargas Llosa: Na América Latina e em outras partes do mundo, os partidos ficaram defasados por uma realidade muito mais ampla, como a revolução audiovisual, tecnológica, com o novo mundo das comunicações e com esta problemática do nosso tempo. Os partidos políticos continuam agindo, todavia, no passado. Sim, eles perderam a credibilidade, mas não se pode renunciar aos partidos, porque precisamos modernizá-los e regenerá-los. Fazer com que eles abandonem esta função de serem simples máquinas eleitorais e sigam para canalizar a participação política, que sejam motivadores de debates, criação de ideias. Há uma defasagem muito grande e creio que isso explica a crise dos partidos políticos, que é grande não apenas no Brasil, mas em toda América Latina.