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Mary Robinson responde a Pergunta Braskem: direitos humanos e crescimento populacional

Mary Robinson no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)
Mary Robinson no Fronteiras São Paulo (foto: Greg Salibian/Fronteiras do Pensamento)

Ex-presidente da Irlanda, Mary Robinson foi a conferencista do Fronteiras do Pensamento São Paulo de segunda-feira (25). Em sua fala, defendeu melhorias na gestão da imigração na Europa para assegurar os direitos humanos destes grupos.

A Enviada Especial da ONU para mudanças climáticas vê, na promoção dos direitos humanos, o grande eixo para as fronteiras contemporâneas. Robinson argumentou que até mesmo a preocupação com as mudanças climáticas e a busca por energias limpas pode passar por cima dos direitos humanos, quando grandes projetos ignoram interesses de pequenas comunidades: “quando falamos de mudanças climáticas, falamos sobre pessoas. Nunca podemos esquecer isso. É da vida na terra que falamos."

Após sua conferência, a diplomata irlandesa respondeu as perguntas do público presente no Teatro Cetip. Entre elas, estava a Pergunta Braskem, selecionada a partir do envio dos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais. Confira abaixo:

Como resolver os problemas gerados pela explosão demográfica em países em desenvolvimento e pelo envelhecimento populacional de forma global?

Mary Robinson: Entendo os problemas tão complexos do momento, sobretudo o envelhecimento e o crescimento populacional. Nós temos algumas sociedades que estão crescendo muito rapidamente, por exemplo, o continente africano vai dobrar sua população até 2050. Estive na Etiópia há alguns dias. Lá, eles têm 95 milhões de pessoas e chegarão a 200 milhões até 2050. Então, isso dá uma ideia da escala de aumento que está acontecendo. E, atualmente, eles já têm muitas pessoas graduadas e sem emprego.

O que ocorrerá? Estas pessoas migrarão para os locais onde há empregos, para outros países. A resposta é melhorar o gerenciamento dos fluxos de imigrantes e de refugiados, lembrando que há pontos extremamente importantes, porque problemas climáticos vão tornar inabitáveis diversas áreas do nosso planeta, seja devido à desertificação, a inundações ou ao aumento das populações.

Então, é preciso pensar como nós vamos basear a nossa abordagem com valores que nós temos, que vão desde a carta das Nações Unidas à Declaração dos Direitos Humanos. Nós precisamos administrar o fluxo de imigrantes com base nisso. Precisamos reafirmar nossos valores e ir contra as falas dos políticos populistas que estamos vendo na Europa e nos Estados Unidos.

Mary Robinson também respondeu a outras perguntas vindas da plateia sobre temas como futuras gerações, direitos humanos e Brexit. Confira abaixo as principais ideias da diplomata:

Sobre as futuras gerações

“Nós temos que ter uma voz que represente as futuras gerações. Minha fundação apóia isso. Na ECO+20, tivemos uma comissão para estas gerações e isso é muito bom, porque aumenta a urgência do debate. Gostaria que cientistas participassem disso, que dialogassem com os jovens e discutissem os temas como um grupo das Nações Unidas. Isso daria voz e foco aos jovens. Eles poderiam dizer 'nós queremos um futuro seguro', porque eles deveriam estar preocupados."

Sobre religião

“A maior influência que a Igreja Católica teve foi ao reconhecer que ela não dava apoio às mulheres. Na Irlanda em que cresci, tinha duas opções enquanto mulher jovem: casar ou entrar no convento. O Papa Francisco está tentando resgatar as verdades, e não como a religião foi ensinada no passado. Uma das coisas mais poderosas que aconteceu na história da Irlanda foi a aprovação do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Muitas pessoas que estavam morando fora do país retornaram apenas para votar no referendo. É um país em que o voto não é obrigatório, em que os jovens não têm vontade de votar, mas, neste referendo, sobre esta questão, a realidade foi outra. Houve muito empenho de toda comunidade."

Sobre o Brexit

“O Brexit é um tipo de nacionalismo e de xenofobia, porque as pessoas têm medo dos outros. As pessoas temem por seus empregos, por sua segurança. Isso é, de fato, um desafio para a Europa. Em termos gerais, a resposta europeia tem sido uma maior reflexão sobre o que significa a Europa. Por enquanto, isso é bom. A Europa se tornou mais forte por causa do sentimento negativo que o Brexit gerou. As pessoas que votaram a favor da permanência não manifestaram seus porquês, os motivos da existência da União Europeia, que é para trazer paz no continente. As pessoas só falaram do custo e da economia."