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Peter Sloterdijk responde: sobre a música contemporânea

Peter Sloterdijk (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)
Peter Sloterdijk (foto: Fronteiras do Pensamento | Greg Salibian)

O filósofo alemão Peter Sloterdijk dedicou sua conferência no Fronteiras do Pensamento São Paulo, nesta quarta-feira (5), a alertar sobre o esgotamento dos recursos naturais do planeta devido à exploração humana.

A palestra foi intitulada Sobre a Fúria de Titãs no século XXI, em referência ao que Sloterdijk enxerga como o confronto que caracterizará o nosso tempo, frente à escassez de recursos. O embate se daria entre duas grandes forças: o minimalismo e o maximalismo. "Oscilaremos entre um estado de desperdício maníaco e de parcimônia depressiva". Segundo ele, todos os indivíduos inevitavelmente tomarão parte nesse conflito, através de suas ações do dia a dia. Para ilustrar, citou uma frase de seu compatriota Friedrich Nietzsche (1844-1900): "é a magia dessas grandes lutas que aquele que as assiste precise lutar também".

A relação entre Nietzsche e Sloterdijk também surgiu na Pergunta Braskem, enviada por e-mail pelos seguidores do Fronteiras nas mídias digitais, patrocinadas pela Braskem. Das questões enviadas, a selecionada veio de Marcelo Goulart. Confira abaixo:

Sloterdijk, você parece ter em comum com Nietzsche a preocupação com a música. Num ensaio estético de 1987, Mobilização Copernicana e Desarmamento Ptolomaico, você comenta com muita propriedade algumas difíceis ideias de Adorno sobre a música dissonante do início do século XX e, mais recentemente, em Esferas, você traz belas passagens sobre os laços sonoros que se estabelecem entre mãe e bebê, e também sobre o poder irresistível da música no mito das sereias. Minha pergunta é: você teria algum diagnóstico sobre a música atual? A música tem ainda alguma relevância hoje, para além do uso publicitário ou de mero entretenimento? Estaria a música condenada à mediocridade, ou você vê alguma saída para a música do futuro?

Peter Sloterdijk: A música é uma companheira muito antiga da civilização. Não tenho formação de antropólogo musical para poder afirmar aqui se houve ou há culturas sem quaisquer tipos de música. Deve existir, mas a tendência global parece ser que, os seres humanos, desde que sabem falar, também fazem música. Mesmo que seja uma música implícita, na melodia da linguagem propriamente dita.

Para um europeu que não conhece o português, a primeira ideia sobre a língua portuguesa é que ela parece ter uma intensidade melódica, uma melodia desconhecida pelas línguas europeias. É como se, em todos os brasileiros, houvesse um cantor, como se todas as conversas fossem cantadas. Mas isso está longe das preocupação de Nietzsche quando ele distinguiu o elemento apolíneo do dionisíaco para dizer que a música pertence ao espaço dionisíaco.

A música é daimônica, porque, do ponto de vista psicanalítico, aciona os processos primários. Os processos primários no ser humano, são as áreas onde residem sua loucura, porque ele entra em um estado prévio ao de se tornar "eu". Isso ocorre bastante na música popular contemporânea, em que o ritmo tornou-se muito dominante. A batida intrauterina parece uma linguagem musical do mundo. Por todo o globo, onde as pessoas dançam a música pop, nós podemos ver que elas entram e se movimentam sob um estado de liquidificação pré-natal. É uma coisa bem clara que podemos verificar.

Peter Sloterdijk respondeu outras perguntas vindas do público presente.
Confira abaixo algumas ideias do filósofo alemão:

SOBRE O SENTIMENTO DE RESPONSABILIDADE

"O termo responsabilidade não aparece na história da filosofia. Isso é muito estranho, porque a ética sempre acompanhou os filósofos. Agora, o termo responsabilidade está no centro das discussões. Como nossos antepassados trataram esses problemas? Podemos evitar o termo responsabilidade uma vez que a ética clássica era estruturada em virtudes e valores? O que aconteceu no século XX para que a responsabilidade entrasse em ação? A responsabilidade se torna cada vez mais importante, penso eu, porque cada vez mais se percebe que o ser humano está sobrecarregado com as consequências de suas ações. A responsabilidade só é uma categoria importante quando as pessoas fazem coisas cujas consequências elas não conseguem controlar. E isso é típico da contemporaneidade. Contudo, acho que poderíamos apelar mais para a capacidade humana da inteligência do que para sua culpa."

SOBRE O HUMANO E O HUMANISMO DO SÉCULO XV

"Os humanistas dos séculos XV e XVI são os pais da filosofia moderna e nenhum deles definiu o humano como um sujeito que se autodefine. Os pensadores naquela época viam o ser humano como um evento microcósmico, não como uma substância, mas como um acontecimento sobre o qual as leis do macrocosmos se refletiam. Pensando em Shakespeare, que sempre gosto de incluir na história da filosofia, ele diz que o mundo inteiro é um palco no qual as pessoas se apresentam. Todos nada mais são do que atores em um palco e o que atua com eles é a sorte propriamente dita. A sorte é o que dá chance ao ser humano. O que distingue o ser humano é a capacidade de saber ou querer pegar a bola que a fortuna está lhes lançando."

Confira fotos do evento abaixo. Acesse nosso flickr para ver todas as imagens.