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21 ideias: Os debates para além da literatura de Salman Rushdie

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Salman Rushdie é um consagrado escritor britânico conhecido mundialmente pela publicação de Os Versos Satânicos, obra que causou polêmica na região islâmica e, inclusive, uma sentença de morte por parte de Aiatolá Khomeine, acusando o autor de ofender o profeta Maomé.

Outra obra que lhe rendeu prestigio e controvérsia foi o premiado e aclamado internacionalmente Os filhos da Meia-Noite, no qual o autor mistura fantasia e realidade para contar sobre o fim do colonialismo britânico. Desta vez, quem moveu processo contra Rushdie foi Indira Gandhi.

O autor virou um exemplo de escritor que é mais lembrado do que lido. Suas narrativas acabaram ficando obscurecidas, mas geraram profundos debates extraliterários e enriqueceram seu percurso. Em sua conferência no Fronteiras do Pensamento, levantou justamente a defesa do poder de permanência da literatura, bem como sua capacidade de resistir aos ataques. As controvérsias, afinal, acabam por eternizar romances clássicos em suas reflexões e críticas de determinados períodos das sociedades.

Combinando realismo mágico, ficção e história, as histórias de Salman Rushdie são permeadas de conexões entre Oriente e Ocidente. Foi vencedor dos Prêmios The Best of Bookers e Booker of Bookers, é membro da Academia Americana de Artes e Letras e da sociedade Real de Literatura Britânica, e é Comandante da Ordem das Letras e das Artes, alta honraria concedida pelo governo francês.

As grandes ideias propostas por Rushdie, no palco do Fronteiras, podem ser lidas na obra 21 ideias do Fronteiras do Pensamento para compreender o mundo atualO livro reúne textos de especialistas brasileiros explicando o pensamento dos conferencistas, seguidos da fala dos convidados, em excertos representativos das ideias que os colocaram como referências do nosso tempo.

Confira abaixo um excerto da fala de Salman Rushdie e acesse o site da Arquipélago Editorial para garantir sua cópia, também à venda nas principais livrarias! Além disso, você pode baixar a versão e-book recém lançada pelo Fronteiras do Pensamento clicando AQUI.

 

“Há uma ótima frase de Milan Kundera em seu grande romance O livro do riso e do esquecimento que resume tudo: ‘A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento’. Assim, com muita frequência em nosso tempo, os escritores, romancistas e poetas se transformaram na memória coletiva da raça humana, com o poder tentando distorcer e falsificar essa memória. O grande escritor italiano Italo Calvino tem uma frase em seu Se um viajante numa noite de inverno na qual diz: ‘Podemos avaliar o grau de respeito que um país dedica à literatura pelo tamanho do aparato que ele monta para reprimi-la’. Por essa medida, a União Soviética respeitava muitíssimo a literatura. A China, hoje, respeita muitíssimo a literatura. Os Estados Unidos, não muito, o que provavelmente é verdade. Esse é o nosso conflito atual.

Na minha vida, sem querer, acabei entrando em desacordo com uma ou outra pessoa poderosa. Indira Gandhi não gostou de certos aspectos de Os filhos da meia-noite e tentou me processar pelo livro. O processo não avançou porque, infelizmente, ela foi assassinada por seus guarda- -costas. O general Zia-ul-Haq, no Paquistão, teve algumas objeções quanto à representação de um general fictício do meu romance Vergonha porque o considerou baseado nele. Baniu o romance no Paquistão e, pouco depois, morreu num acidente de avião. Quanto à minha desavença com o aiatolá Khomeini, devo apenas salientar que um de nós dois está morto. Eliminar ditadores parece ser um serviço que consigo desempenhar. Vocês conhecem o ditado de que a caneta é mais poderosa do que a espada. Não mexam com os romancistas.

Falando sério, os romancistas correm grande perigo diante do poder — pela descortesia de contar a verdade. Uma das razões pelas quais isso acontece cada vez mais em nosso tempo é o fato de que o espaço entre os acontecimentos públicos e as vidas privadas encolheu. A política interfere nas nossas vidas privadas de um modo jamais visto. A carreira literária de Jane Austen coincidiu exatamente com a época das Guerras Napoleônicas, as guerras entre a Grã-Bretanha e o exército francês de Napoleão Bonaparte. No entanto, em toda a obra literária de Jane Austen, praticamente não há menção de que seu país está mergulhado num conflito gigantesco. O exército britânico de fato aparece, por vezes, nos romances de Jane Austen, mas sua função, basicamente, é abastecer as festas com soldados bonitões de uniforme vermelho. É uma função importante, sem dúvida. A batalha contra Napoleão, aparentemente, nem tanto. Não digo isso para criticar Jane Austen, mas para mostrar que o mundo descrito em seus livros é tão isolado em relação ao mundo dos acontecimentos históricos que ela não precisa se referir a eles. Ela pode descrever por inteiro as vidas de seus personagens, ela pode meditar profundamente sobre seus personagens e explicá-los sem que jamais precise mencionar assuntos de interesse público, porque esses assuntos simplesmente não interferem nas vidas das pessoas sobre as quais ela está falando. Esse não é mais o mundo em que vivemos.

 Em nosso mundo atual, a política nos ataca todos os dias, gostemos ou não. No dia 11 de setembro de 2001, a história virou parte da vida privada de todos os nova-iorquinos. Passou a ser impossível ignorar que a política afeta nossas vidas privadas. Isso, acredito, obrigou vários dos melhores escritores do nosso tempo a encarar esses conflitos, mesmo que não tivessem muita vontade de encará-los. Porque os escritores escrevem sobre muitas outras coisas além da política.

Há uma questão estratégica para os escritores atuais: como lidar com os perigos da política? James Joyce recomendava, em seu tempo, a fórmula ‘silêncio, exílio e astúcia’. Voltaire recomendava que os escritores vivessem perto de uma fronteira internacional, para facilitar fugas. Infelizmente, essas soluções não funcionam mais. Os poderosos atravessam a fronteira internacional para nos pegar. Constatei isso pessoalmente. No entanto, continua ocorrendo que os melhores escritores se sentem obrigados a enfrentar as questões políticas de seus lugares no mundo, de seus lugares na história”.