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A Era do Vazio: a atualidade de um clássico de Gilles Lipovetsky (Parte 1)

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Por Felipe Pimentel

O livro A Era do Vazio - ensaios sobre o individualismo contemporâneo de Gilles Lipovetsky, conferencista do Fronteiras do Pensamento em 2017-2018, impactou, e ainda impacta, os seus leitores, entre outras razões, por conseguir descrever e circunscrever um dos grandes males da época contemporânea: o vazio. Poderíamos chamá-lo de vazio existencial, certamente, significando a sensação de que a experiência humana nos tempos atuais parece marcada pela carência de sentido além da vivência individual - donde o título do livro, que conecta o vazio ao individualismo. Neste diagnóstico, o livro tem algo de antecipatório (lembremos que data dos anos 1980), mas também algo de tardio. 

A Era do Vazio

A análise do esvaziamento dos significados transcendentais, em todas as suas acepções, data do século XIX, tendo sido trabalhada pela Sociologia clássica (em especial na noção de desencantamento do mundo de Weber) e pelos autores ditos niilistas do final do século (como Nietzsche, para citar o mais célebre). Assim como os efeitos subjetivos deste esvaziamento, que aparecem sob o signo da angústia, que, ressalvadas as diferenças conceituais, foi trabalhada desde Kierkegaard até os existencialistas nos anos 1930. Quer dizer, existe um processo histórico em curso longevo, identificado por dezenas de pensadores, que trabalharam, cada um à sua maneira, as investigações sobre causas e efeitos desse mal-estar. 

Por outro lado, ainda que o livro de Lipovetsky seja mais uma etapa dessa investigação, ele traz elementos novos, que conferem à obra uma originalidade importante: há uma leitura do impacto da tecnologia, da sociedade de consumo e do individualismo crescente na subjetividade contemporânea; os seus insights são precisos, múltiplos e profundos, tocam-nos a todos na leitura; e, acima de tudo, a sua abordagem, o modo como ele escreve, possui uma sutileza instigante. Em entrevista concedida ao Fronteiras do Pensamento, temos uma indicação dessa sutileza. Vejamos aqui o trecho, intitulado Afinal, o que é o individualismo? no qual Lipovetsky fala de sua abordagem:


Ao assistirmos o vídeo, percebemos que a abordagem que Lipovetsky busca não é uma abordagem moralista do individualismo e seus aspectos, mas uma análise que descreve as coisas como ele as vê, independente de emissão de juízos de valor, de definições de bem ou mal.  E é isso que dá sabor ao livro. Na sua análise sobre o individualismo contemporâneo, o autor apresenta não só os efeitos deste individualismo, mas também as suas raízes, as suas múltiplas manifestações, seja na psicologia, seja na arte ou na política. As grandes obras possuem esse mérito, elas têm a força de espelhar o mundo, e deixar-nos com as próprias conclusões e interrogações.    Retornar a esta leitura em 2021, com a dominância da internet e a ascensão da social media, com os conflitos culturais que vivemos e as novas manifestações de sofrimento psíquico que verificamos (como a depressão e a ansiedade), é algo riquíssimo e empresta ao livro um tom antecipatório impressionante no nosso mal-estar. Algumas ideias ficaram datadas, outras permanecem, mas, acima de tudo, o ponto central do livro se sustenta e serve-nos para pensarmos a nossa atual condição. Vejamos. 

Na lógica do individualismo pós-moderno, todas as instituições tradicionais são esvaziadas de sentido e de capacidade de conexão entre as pessoas, estando no seu lugar a liberdade irrestrita de escolha. E o que surge daí? Certamente uma multiplicidade de ofertas de preenchimento do sentido existencial para cada indivíduo, abundância que permite uma emancipação individual de subjetividades prêt-à-porter e uma personalização da identidade do Eu. Para Lipovetsky, há várias consequências disso: o narcisismo, a indiferença, a desmobilização do espaço público, a lógica da sedução imperante. Porém, há um insight ligeiro no livro que eu gostaria de abordar: ao mesmo tempo em que as macro-instituições são destituídas da sua força em fornecer sentido a cada indivíduo diretamente, há uma proliferação de outros vetores de sentido existencial para as pessoas, que podem advir de várias fontes - são variadas e novas formas de religiosidade e espiritualidade, tecnologias psicológicas de múltiplas fontes, experimentações subjetivas que criam um modo de vida, adesão a práticas de vida que poderiam organizar toda uma existência (o célebre awareness movement). Como todas essas novas possibilidades se colocam, se apresentam para cada um de nós? Através de uma lógica, em primeiro lugar, sedutora (veja como eu sou interessante), e, em segundo lugar, narcísica (eu busco aquilo que combina comigo). Não esqueçamos, não há nisso nenhum julgamento, é uma mera descrição de como o autor vê as coisas. O insight que ele nos traz sobre isso é instigante: ok, estamos todos mais livres, preenchemos a nossa vida com sentidos que nos dizem mais respeito, mas será que só não multiplicamos a quem somos servis? 

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No próximo texto dessa série, será abordado o modo como Lipovetsky vê, em A Era do Vazio, esse Eu multifacetado da pós-modernidade.

* Por Felipe Pimentel, Psicanalista e Historiador.