Voltar para Artigos

A realidade do estresse psicossomático

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Suzana Herculano-Houzel
Suzana Herculano-Houzel

Ah, como é irritante ouvir dos outros que “está só na sua cabeça” um problema que você sente na pele. Que bom que a ciência nos livra dos achismos alheios, inclusive este: os tais problemas de saúde que são “só psicossomáticos”.

Pois bem, eles são tão reais que até ratos sofrem os efeitos do estresse. Que tipo de problemas perturbam o sono dos ratos, você pergunta? Vários, todos relacionados, como para nós, à sensação de impotência e falta de controle. Um deles é o estresse de ter seu território invadido e ainda perder a briga para o invasor. Em casos de derrota social, os ratos perdedores sofrem de taquicardia, pressão arterial elevada, e até febre puramente emocional, que não responde a antipiréticos.

Como é possível ter febre por causa de estresse, e ainda mais uma febre que não responde a tratamento? Um tour de force científico do grupo do neurocientista Kazuhiro Nakamura, na Universidade Nagoya, no Japão, revelou recentemente o circuito cerebral responsável. Como seria de se esperar para algo tão subjetivo como a sensação de derrota social, a febre emocional nos ratos começa no córtex cerebral, em áreas pré-frontais, associativas – o que significa que fazem muito mais do que processar sensações ou movimentos. Essas são as partes do córtex que tornam nossa vida complexa, flexível, e que ajustam nosso comportamento e o adequam à nossa realidade externa e interna.

>> Leia também: Como nosso cérebro nos torna quem somos

Pois, segundo o estudo publicado na prestigiada revista Science, a parte medial do córtex pré-frontal dos ratos tem linha direta com o hipotálamo, a estrutura mais anterior do cérebro dos vertebrados, que por sua vez tem linha direta com o corpo.

Em caso de derrota social, a região medial do hipotálamo aciona o sistema nervoso simpático, e provoca tudo junto: a taquicardia, a hipertensão e até febre, por aumento de geração de calor em tecidos de gordura marrom no corpo.

Essa é aquela gordura que bebês e quem mora no frio têm em boa quantidade, mas todos nós temos alguma. Sob estresse, essas reservas começam a ser usadas puramente como aquecimento, o que é completamente diferente do aumento da geração de calor generalizada da febre, causada por parte também diferente do hipotálamo. Os antipiréticos que agem em uma e combatem a febre de infecção não agem na outra, e assim a febre emocional não baixa.

Nem todas as febres são iguais, mas isso não torna umas menos reais - nem menos importantes. 

(Via Folha de S.Paulo)

>> Confira todos os vídeos de Suzana Herculano-Houzel ao Fronteiras do Pensamento