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Amós Oz: Como curar o (nosso) fanatismo

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"Existe um gene fanático em cada um de nós." - Amós Oz (Israel, 1939 - 2018)

O aumento do fanatismo acompanha outro fenômeno: a crítica ao fanatismo. Este aparente paradoxo ocorre não porque há um movimento em favor da aceitação da complexidade, mas sim porque não enxergamos nosso próprio radicalismo.

Para compreender esta insensatez do mundo contemporâneo, sem deixar de olhar para si mesmo, escute Amós Oz. Se você está pronto para este desafio, a reflexão inédita de Oz é um bom ponto de partida. Com exclusividade ao Fronteiras do Pensamento, logo antes de sua morte, o escritor israelense resumiu sua obra, Como curar um fanático.

Não é raro cometermos o erro de ligarmos o fanatismo à religião ou à política. Porém, explica Oz, o fanatismo começa em casa.

O fanatismo inicia com o desejo de mudar os outros supostamente pelo bem deles. Esta é a origem do problema: "Eu te amo e quero te mudar".

Siga nossa página para acompanhar esta discussão:


Para cortar o mal pela raiz e impedir que ele se espalhe pelas diversas áreas da vida pessoal e social, como temos visto, o escritor aponta o que ele considera duas "virtudes": a curiosidade e o humor.

No palco do Fronteiras do Pensamento, Oz defendeu que a curiosidade é tão importante, que deveria ser considerada uma virtude moral. Assim como ela é a força propulsora de sua literatura – fazendo com que se coloque sempre no lugar do outro e enxergando novas perspectivas – ela faz com que o ser humano se torne melhor.

“Eu acredito também na bênção da curiosidade em tempos de conflitos políticos, religiosos, ideológicos e pessoais. Não porque a curiosidade possa sarar tudo, mas porque a curiosidade, não menos do que o humor, é um antídoto poderoso ao fanatismo”.

Assista e leia abaixo a fala exclusiva de Oz sobre a cura do fanatismo.


Amós Oz | Como curar um fanático

Não é difícil encontrar um fanático, pois acredito que há um gene do fanatismo em cada um de nós. Não necessariamente um fanático político, nem sempre um fanático religioso.

Muitas vezes, o fanatismo começa em casa. Começa com a nossa inclinação a mudar as outras pessoas para o seu próprio bem.

Nós pensamos que será melhor para elas mudarem os seus hábitos ou mudarem os seus costumes, ou ideias, ou estilo de vida.

Essa inclinação a mudar as outras pessoas pode facilmente se deteriorar e se transformar em fanatismo ou intolerância.

“Você tem que ser como eu, eu te amo e quero mudar você”.

Isso se torna perigoso quando nos leva a pressionar as pessoas que não querem mudar à nossa maneira, e às vezes até matamos os outros porque eles não querem mudar.

A questão de como curar um fanático é complicada. Não é como se eu tivesse um tipo de injeção com a qual posso curar um fanático, mas acredito que o senso de humor é um grande remédio.

Nunca vi um fanático com senso de humor. Nunca vi uma pessoa com senso de humor se tornar um fanático, a não ser quando ele ou ela perdeu seu senso de humor. Sobretudo humor autodepreciativo.

Se você tem um tipo de humor que lhe permite rir de si mesmo, você é imune ao fanatismo.

Se ao menos eu pudesse comprimir o senso de humor para colocá-lo em cápsulas e persuadir muitas pessoas a tomarem minhas cápsulas de humor para que se tornassem imunes ao fanatismo... Eu seria indicado ao Prêmio Nobel de medicina, não de literatura.

Mas isso é perigoso, por que, o que eu estou dizendo? Estou dizendo que quero mudar as pessoas para o seu próprio bem, que quero fazer com que outras pessoas – estranhos – tomem minhas cápsulas de humor para mudá-las. Isso já é em si muito semelhante ao fanatismo.

É uma doença muito contagiosa. Quando você trabalha com ela ou a analisa em laboratório na busca de um antídoto, corre o risco de contraí-la.

Não perca |Momento Fronteiras Amós Oz

Quando o mundo se torna mais complexo e as pessoas buscam por respostas simplistas, o fanatismo e o extremismo ganham terreno.

Em sua conferência ao Fronteiras do Pensamento, intitulada Meus livros, meus país, minha política, Oz falou sobre posicionamento político, literatura, criação literária e o papel de Israel e Palestina num conflito sem mocinhos ou vilões.

O escritor também ressaltou a importância da criatividade e do humor, que podem funcionar como ferramentas na busca por tolerância e empatia. Segundo ele, a curiosidade é uma força propulsora da literatura.