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Anne Applebaum analisa no Fronteiras do Pensamento a nova ordem mundial

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Anne Applebaum observou de perto eventos capitais na história do século 20: os estertores da Guerra Fria, o colapso da União Soviética e o surgimento de um novo mapa geopolítico para guiar os rumos do mundo. No dia 29 de setembro, a jornalista e historiadora americana vai compartilhar com a audiência do Fronteiras do Pensamento 2021 sua larga experiência como correspondente no Leste Europeu e atenta observadora de episódios que ditam os humores do mundo contemporâneo. Suas reportagens e análises para veículos como a revista The Economist e o jornal The Sunday Telegraph transitam dos regimes totalitários mais fechados às democracias ameaçadas não apenas em republiquetas, mas também em potências protagonistas das relações de forças internacionais, como os Estados Unidos.

Durante sua jornada na Europa, Anne teve como base Varsóvia, na Polônia. Em 2004, recebeu o Prêmio Pulitzer com o livro “Gulag – A History” (não editado no Brasil), sobre os campos de trabalhos forçados para onde eram enviados aqueles que o regime soviético carimbava como inimigos, lugares particularmente pavorosos na era Stalin. Anne também é autora de “Cortina de Ferro”, acurado painel da trincheira comunista que a URSS construiu para medir forças com o Ocidente, impondo governos fantoches em países como Alemanha Oriental, Polônia, Tchecoslováquia e Hungria. Em “A Fome Vermelha: A Guerra de Stalin na Ucrânia”, ela descreve o genocídio de milhões de ucranianos por inanição nos anos 1930. No recente “O Crepúsculo da Democracia: Como o Autoritarismo Seduz e as Amizades são Desfeitas em nome da Política”, lançado em 2020, seu tema é ascensão do nacionalismo, da intolerância e da polarização em diferentes países, com destaque para o poder desestabilizador das fake news, fundamentais no manual de governança de políticos autoritários de diferentes espectros ideológicos.

– Eu acho que é muito oportuna a participação da Anne Applebaum no Fronteiras do Pensamento. Ela vai trazer para nós a visão de um tema hoje muito atual no Brasil, que é a tentativa ou as tentativas de corrosão da democracia – diz o jornalista Jaime Spitzcovsky, integrante do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da Universidade de São Paulo (USP) e colunista da Folha de S. Paulo.


– Vamos lembrar o conceito de democracia liberal divulgado sobretudo pelo atual primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, que muitos chamam de o último ditador da Europa. Ouvir a Anne é uma oportunidade muito valiosa para entender a origem e a implementação deste conceito.

Spitzcovsky foi editor internacional da Folha de S. Paulo e ex-correspondente do jornal em Moscou e Pequim. Viveu na antiga União Soviética entre 1990 e 1994, período em que ocorreram a Perestroika e a Glasnost, processos reformistas que promoveram profundas transformações econômicas e políticas e culminaram na dissolução do país continental, em 1991. Com uma experiência similar à vivida por Anne, Spitzcovsky comenta algumas particularidades do ofício:

A Anne tem foco no bloco que era dominado pela União Soviética. Ela é uma superespecialista nos países que faziam parte do Pacto de Varsóvia, como Polônia, Hungria e Tchecoslováquia, enquanto eu sempre tive um foco mais na Rússia. Eu tive muita sorte de poder acompanhar esse processo de transição. Quando cheguei, ainda era a União Soviética, no período Gorbatchov. Pude acompanhar a Perestroika, a Glasnost, a ascensão do Boris Yeltsin. O correspondente pode e deve ter acessos a fontes primárias de informação, mas muitas vezes ele é um observador com visão mais ampla. Até porque não cobre apenas um tema. Eu pelo menos enxerguei o meu trabalho no sentido de produzir o quadro mais amplo possível do país, para facilitar a compreensão do público. Acho que é um dever do correspondente oferecer um cardápio mais amplo possível da sociedade que acompanha. O peso geopolítico dos Estados Unidos é muito maior. Para uma pessoa de oposição, por exemplo, falar com um jornalista brasileiro pode não ser o público que queira atingir.

A Guerra Fria romantizada pelas tramas de espionagem e ameaças de conflito nuclear deu lugar a uma tensão de forças que hoje envolve alta tecnologia, poderio econômico e voz ativa nas narrativas que correm o mundo de forma instantânea. Rússia e EUA não estão mais sozinhos movimentando as peças no tabuleiro da geopolítica internacional. Ganharam a companhia da China, que faz uso de uma arma tão potente e efetiva quanto o mais sofisticado aparato bélico: o dinheiro. Para Spitzcovsky, a recente debandada dos EUA no Afeganistão abre um novo capítulo nas relações internacionais.

Estamos diante de um momento de transição histórica. A ideia de os Estados Unidos diminuírem a sua presença no Oriente Médio e aumentar a presença na Ásia para responder à ascensão da China é algo que está claro desde o governo Barack Obama. Os EUA tinham o Oriente Médio como foco principal de sua política externa pós-Guerra Fria, pela questão do petróleo e pela questão do combate ao terrorismo. A China é o primeiro país desde a União Soviética com capacidade de colocar em xeque a hegemonia norte-americana. A saída do Afeganistão está claramente inserida nesse contexto. Os EUA vão tirando tropas, esforços diplomáticos e políticos do Oriente Médio e de regiões próximas, pois o Afeganistão não é Oriente Médio, está ao lado, e se dirigindo para o extremo oriente. Ao mesmo tempo, para cada ação tem uma reação. A China aumenta a presença no Oriente Médio e cercanias. A China não era um player relevante no Oriente Médio e está se tornando. A Rússia também está recuperando espaço no Oriente Médio, veja o seu papel na guerra e na crise da Síria. Então, o que está acontecendo é um rearranjo no tabuleiro. China e Rússia encontram mais espaços para ampliar sua presença. No caso russo, política e militar. No caso chinês, política e econômica, mais ainda econômica. A China tem crescido muito mais economicamente do que militarmente. Ela de certa forma se espelha na experiência soviética. A União Soviética tinha todo um sistema econômico voltado para sustentar seu complexo industrial militar. Foi um dos fatores para o fracasso do regime soviético. A China aprendeu com isso e canalizou seus esforços para a criação de uma economia de mercado, não tendo como prioridade um complexo industrial militar. Procura ampliar sua influência pelo mundo mais pelo seu peso econômico.

*Marcelo Perrone é jornalista e editor de conteúdo do Fronteiras do Pensamento