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Em 'O Inferno dos Outros', Grossman convida leitor a enxergar misérias

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David Grossman em evento no Fronteiras (foto: Luiz Munhoz)
David Grossman em evento no Fronteiras (foto: Luiz Munhoz)

Nascido em Jerusalém, em 1954, o escritor David Grossman vem ao Brasil lançar sua mais recente obra, O inferno dos outros (Companhia das Letras). No livro, um comediante de stand-up faz piadas sagazes, passando por temas tão amplos quanto o conflito Israel-Palestina e por palavrões proferidos por um papagaio, provocando o riso (e também o desconforto) da plateia.

No dia 30 de outubro, o israelense veio a Porto Alegre falar sobre sua obra ao público no Theatro São Pedro. O evento especial fez parte das comemorações de uma década de Fronteiras do Pensamento e foi promovido em parceria com a Feira do Livro de Porto Alegre e a Braskem. Em entrevista à Folha, David Grossman fala sobre O inferno dos outros. Confira:

A obra se passa durante uma apresentação do humorista Dovale G. na cidade de Netânia, em Israel. Em meio a piadas — que vão do habitual deboche com pessoas do público à grave situação entre Israel e Palestina —, o comediante começa a desabafar sobre suas agonias pessoais, como ter perdido um dos pais aos 14 anos, enquanto estava num acampamento militar.

O público reage com desconforto e um quê de ira à catarse emocional do homem: pagaram para ver um show de humor, não uma apresentação de lamúrias. Ora vaiam, ora xingam; nunca deixam o local. Poderiam apenas sair, mas permanecem onde estão, pois o inferno dos outros convida à contemplação.

Entre eles está o juiz aposentado Avishai Lazar, colega de comediante da época do acampamento militar — quando Dovale era apenas um garoto abobalhado que servia como alvo de bullying.

Apesar das quatro décadas que separam o passado do presente e do distanciamento entre ambos, Dovale liga para o juiz — um sujeito agudo nas palavras, que fora afastado da magistratura por ser agressivo demais nas sentenças proferidas —, convidando-o para ir àquela apresentação. O que o humorista deseja é que, após o show, o juiz lhe diga o que viu.

VER E SER VISTO

Com a tragédia na infância, "Dovale passou a ter uma vida paralela em relação a quem ele realmente era", diz Grossman. Por isso deseja desesperadamente uma sentença do juiz. Essa vida paralela, segundo o autor, é comum a todos que tentam camuflar o que os torna humanos: seus erros, suas falhas.

"Perdemos muito tempo tentando corrigir os defeitos que temos — no nosso corpo, na nossa alma —; tentamos escondê-los para que possamos ter uma aparência melhor", diz. "É um esforço tolo."

O desejo de apresentar ao mundo uma versão melhor de si é uma reação à tendência do outro de ignorar o que vê. "Há muita tentação em nosso mundo conturbado de não olhar diretamente para as coisas, as pessoas e suas misérias", diz o israelense.

Ele traça um paralelo com a atual crise de refugiados e como "os europeus se condicionam a não enxergá-los". Ele acredita que a opção pela cegueira é uma forma de evitar "alguma empatia". "Os refugiados miseráveis que, agora, você vê numa posição horrível, há cinco anos eram seres humanos como você, tinham suas vidas, sua dignidade, seus amores."

Dovale, cujo ofício é fazer as pessoas rirem, quer ser visto em toda sua miséria. Mas para além do palco, diz Grossman, "somos ensinados a não olhar, pois se olhamos, nos comprometemos — e temos medo desse compromisso, da dor que isso envolve".