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Pandemia de Covid-19: uma análise sistêmica por Fritjof Capra

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Crédito da imagem: Spooky Pooka
Crédito da imagem: Spooky Pooka

De uma perspectiva sistêmica, o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta vivo, à emergência ecológica e social que a humanidade criou para si. Ao longo das últimas décadas do século XX, a humanidade excedeu a capacidade de regeneração da Terra, e a obsessão irracional de nossos líderes políticos e corporativos com uma forma perpétua de crescimento econômico e empresarial levou a uma crise existencial multifacetada que ameaça a própria sobrevivência da humanidade.

Cientistas e ambientalistas vêm alertando há décadas para as duras consequências de nossos sistemas social, econômico e político não sustentáveis, mas até aqui nossos líderes políticos e corporativos ignoraram teimosamente esses alertas. Agora, contudo, nossas elites políticas e financeiras estão sendo forçadas a prestar atenção nisso, pois a Covid-19 converteu esses alertas em cenário concreto.

A derrubada de amplas áreas de florestas tropicais por empresas transnacionais do ramo alimentício, bem como a invasão massiva de outros ecossistemas ao redor do mundo, fragmentou esses sistemas e fraturou a rede da vida. Uma das muitas consequências desses atos de destruição é que alguns vírus que até então viviam em simbiose com determinadas espécies animais saltaram dessas espécies para os organismos humanos, para os quais são altamente tóxicos, ou mesmo letais. O coronavírus saltou de uma espécie de morcegos para os humanos na China e, a partir de lá, espalhou-se rapidamente pelo mundo.


A densidade populacional é a variável central para a propagação da Covid-19, e a densidade populacional é com frequência um desdobramento da maximização excessiva de lucro, seja em gigantescos navios de cruzeiros e outras formas de turismo em massa, em imensos supermercados e lojas de departamento ou em habitações apinhadas de gente em razão da desigualdade econômica e social. Em outros tempos, essas condições socioculturais de vulnerabilidade costumavam ficar escondidas. Mas agora o coronavírus, que ignora qualquer barreira social ou cultural, escancarou cada uma delas.

Quando a pandemia se espalhou pelo mundo em março de 2020, os países entraram em lockdown um após o outro, mantendo abertos apenas os serviços essenciais e confinando a maioria das pessoas em suas casas. Por consequência, o transporte de bens e pessoas foi radicalmente reduzido, as redes de matéria-prima foram afetadas, empreendimentos faliram, o mercado de ações despencou e o desemprego acelerou. O crescimento exponencial da pandemia andou de mãos dadas com o crescimento exponencial de uma crise econômica global.

Ambas as crises trouxeram consequências trágicas muito difundidas entre indivíduos e comunidades do mundo todo. No entanto, desde uma perspectiva planetária ecológica, também houve muitas consequências positivas. Conforme o tráfego de automóveis e as atividades industriais caíram drasticamente, a poluição das principais cidades do mundo desapareceu de repente, e voltamos a desfrutar do céu claro e do ar limpo. Com os gigantescos navios de cruzeiro deixando de entrar na enseada de Veneza e outros turistas potenciais confinados em suas casas, os canais venezianos ficaram tão límpidos que voltou a ser possível ver os peixes. O coronavírus já foi mais eficaz para a redução das emissões de CO2 e a desaceleração do colapso climático que todas as iniciativas políticas do mundo somadas.

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Isso não quer dizer que desejamos seguir na situação atual. Mas a resposta do mundo à Covid-19 nos mostrou o que as pessoas são capazes de fazer quando percebem que suas vidas estão em jogo – a nível individual, durante a pandemia, e enquanto civilização, no enfrentamento da emergência climática. Agora sabemos que o mundo é capaz de responder com urgência e coerência, contanto que exista vontade política.

Com a Covid-19, Gaia nos apresentou lições valiosas e salvadoras. A questão é: a humanidade prestará atenção nessas lições? Migraremos do crescimento econômico extrativista e indiferenciado para outra forma de crescimento, regenerativa e qualitativa? Substituiremos os combustíveis fósseis por formas renováveis de energia para suprirmos todas nossas demandas energéticas? Substituiremos nosso sistema agrícola centralizador, que gasta enormes quantias de energia, por um cultivo orgânico e regenerativo voltado para a comunidade? Temos o conhecimento e a tecnologia necessários para embarcarmos em todas essas iniciativas. Teremos a vontade política?

O que já estamos vendo é que políticas sociais correspondentes com esses princípios, inimagináveis mesmo uns poucos meses atrás, agora estão sendo discutidas a sério em diversos países. Por exemplo, a Dinamarca planeja pagar 75% do salário perdido por funcionários de empresas privadas para ajudá-los a enfrentar a crise. De forma similar, o Reino Unido planeja cobrir 80% dos salários. A Espanha está nacionalizando seus hospitais privados. A Califórnia está remunerando hotéis para abrigar pessoas sem teto durante a pandemia.

Se pudermos catalisar as lideranças globais para que deem continuidade a essas políticas sociais, acrescentando ainda políticas de respeito e cooperação com a capacidade inerente da natureza de amparar todas as formas de vida, poderemos não apenas superar a pandemia de Covid-19, mas também restaurar os ecossistemas da Terra e estabilizar o clima. Quem sabe os historiadores do futuro olhem para 2020 e concluam que, embora a Covid-19 tenha causado consequências trágicas para inúmeros indivíduos e comunidades em diversos lugares, no longo prazo ele acabou salvando da extinção os seres humanos e boa parte da biosfera de nosso planeta. 

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(Via Springer Link)