Voltar para Artigos

Marcelo Gleiser e Fritjof Capra: Ciência para além da ciência

As ideias que movem o mundo em um único lugar. Cadastre-se e receba mensalmente o melhor do Fronteiras

Cadastrado com sucesso
Fritjof Capra e Marcelo Gleiser
Fritjof Capra e Marcelo Gleiser

Há meses, a ciência é tema quase onipresente na agenda pública de discussões. De várias partes do mundo surgem notícias de possíveis vacinas ou medicamentos que possam nos proteger do vírus que transformou por completo a vida na terra.

Em momentos como esse, marcados por certo temor em torno de um futuro ainda repleto de dúvidas, acabamos por reavaliar como sociedade a nossa relação com a ciência. Quais são as reais implicações do conhecimento científico em nosso cotidiano? É possível integrá-lo ao pensamento filosófico para buscar as grandes respostas para as questões humanas?

É próprio do ser humano buscar uma explicação – seja divina, seja terrestre – para as coisas que não entende. É esta curiosidade que leva homens como Marcelo Gleiser a se tornarem cientistas e que também alimenta a busca incessante de caminhos que possibilitem outra compreensão da existência.  Considerado um dos maiores cientistas do Brasil, o físico e astrônomo é atualmente professor titular do Dartmouth College, nos Estados Unidos, e conta que escolheu a física para “passar a vida engajada com o mistério”.

>> Fronteiras do Pensamento 2020: Participe deste debate sobre o que significa, verdadeiramente, humanidade: 



Quando comecei minha carreira de cientista, sabia que era apenas um lado da moeda, sabia que me faltaria algo. O que foi ocorrendo com o passar dos anos é que fui entendendo e explorando os limites do saber como uma espécie de portal para o mistério, para o que não sabemos e, em certos casos, nem podemos saber.” – Marcelo Gleiser 

De modo bastante peculiar, Marcelo sempre viu na carreira escolhida a possibilidade de manter vivo, de alguma forma, o lado místico que percebia em si durante a infância e adolescência. Esta relação entre ciência e espiritualidade foi explorada em algumas de suas obras e em diversos vídeos que você confere em nosso canal no YouTube



Outro cientista de renome internacional que apresenta uma visão similar à do brasileiro é Fritjof Capra. Reconhecido por seu trabalho na promoção da educação ecológica, Capra é cientista, Ph.D. em Física Teórica pela Universidade de Viena e autor de muitos best-sellers internacionais que conectam as mudanças conceituais da ciência com as transformações pelas quais passaram o mundo e os valores da sociedade.

Conferencista confirmado no Fronteiras do Pensamento 2020, o austríaco é mundialmente conhecido por defender uma aliança entre as ciências e os conceitos e filosofias considerados não-científicos para o entendimento do planeta e da humanidade. Quando jovem, também optou pela carreira de físico devido ao fascínio pelas implicações da física quântica que, segundo ele, “nos mostra que o mundo material não é uma máquina gigante, mas uma rede inseparável de padrões de relações.”



“Durante os anos 1980, minha pesquisa virou para a área das ciências da vida, da qual tem emergido um novo conceito sistêmico que confirma a fundamental interconectividade e interdependência de todos os fenômenos naturais. Quando nós entendemos que compartilhamos não apenas as moléculas básicas da vida, mas também princípios elementares de organização com o restante do mundo vivo, percebemos o quão firme estamos costurados em todo o tecido da vida.”- Fritjof Capra



Fato é que a ciência está em tudo e, ao mesmo tempo, segue distante da maior parte da população. Além da questão do acesso aos frutos das pesquisas científicas, se impõe também a discussão acerca do acesso ao saber científico. Segundo Marcelo Gleiser, sem um conhecimento básico de ciência, a pessoa não pertence ao mundo moderno. Se um governo tem como missão preparar os cidadãos para o futuro, necessita ensinar ciência. Só as pessoas bem-informadas podem participar do processo democrático.”

Em recente entrevista à Folha de S. Paulo, Capra destaca a política como fator determinante para as mudanças que o planeta precisa. Para o físico, hoje “a justiça social se torna uma questão de vida e de morte durante uma pandemia como a covid-19. E ela só pode ser superada por meio de ações coletivas e cooperativas.”

Diferentes visões, mas um ponto em comum: as soluções só podem ser construídas coletivamente.