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Lições da pandemia: o despertar para as grandes verdades humanas

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Quando tudo voltará a ser como antes? Vivemos um tempo em que não há resposta para a principal pergunta feita pelas crianças aos seus pais e por todos nós em algum momento desde que a pandemia iniciou. O coronavírus se instalou há mais de quatro meses e com ele veio um exercício que já conhecíamos, mas que assumiu potência maior: lidar com as incertezas humanas.

No âmbito das dúvidas, nadamos contra a corrente. Queremos prazos, queremos respostas, queremos poder voltar a fazer planos. Na escola da vida, aprender a aceitar e conviver com as incertezas é, tradicionalmente, assunto cortado do currículo.



É neste momento de crise e de exposição das fragilidades que nos vemos diante de uma das grandes verdades humanas, como destaca o sociólogo francês Edgar Morin: A chegada do coronavírus nos lembra que a incerteza permanece um elemento inexpugnável da condição humana. Todo o seguro social em que você pode se inscrever nunca poderá garantir que você não ficará doente ou será feliz em sua casa”.

Ao longo dos seus 99 anos, os olhos do pensador criador da teoria da complexidade já viram o que muitos de nós só lemos nos livros de história. É da experiência de quem viveu quase um século que vem um alerta justamente para a educação, área que ganha os holofotes neste período em que se busca incansavelmente por uma vacina. É preciso ensinar nas escolas e universidades a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Temos que ensinar também as crianças e os jovens a enfrentar as incertezas. Porque a única certeza em todo destino humano, desde o nascimento, é que a vida é feita de incertezas. 


“Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro é uma angústia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza é não naufragar na angústia, saber que é preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a única resposta aos que têm a angústia de morrer é o amor e a vida em comum” – Edgar Morin

A chave da vida coletiva, a compreensão humana, passa necessariamente por um processo de empatia. Porém, colocar-se no lugar do outro, considerando que estamos privados do convívio social, isolados em nossas casas, se torna um desafio ainda maior do que em tempos “normais”. Debates e questões morais irão sempre nos dividir, como nos casos tradicionais das intensas discussões envolvendo política e religião.

É neste ponto que o pensamento de Morin tem conexão com outro intelectual. Para o estudioso da moralidade Jonathan Haidt, a empatia e a consciência de coletividade são essenciais para evitar ou minimizar as polarizações. Para além do que nos separa, “estamos presos juntos por aqui”, todos no mesmo barco, afirma Haidt. O diálogo bem feito e civilizado, a escuta paciente e a aceitação de visões diferentes sempre aconteceram, mostrando que é possível conviver com as diferenças morais. Não se trata de uma tarefa fácil, devido aos modos como nossa psicologia moral se desenvolveu, mas não é impossível. Construir esse hábito evitaria as tensões e violências entre adeptos de posicionamentos distintos. 


“Assim como as plantas precisam de sol, água e bom solo para prosperar, as pessoas precisam de amor, trabalho e conexão com algo maior. Vale a pena se esforçar para obter as relações certas entre você e os outros, entre você e seu trabalho, e entre você e algo maior que você. Se você acertar esses relacionamentos, um senso de propósito e significado surgirá. ” – Jonathan Haidt

Conferencista do Fronteiras do Pensamento 2020, o psicólogo social Jonathan Haidt vê no presente uma lição de esperança para o futuro: "A Covid-19 pode ser uma vacina da humanidade para uma visão coletiva do planeta."