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“Sapiens” em quadrinhos combina profundidade e diversão para contar a história da evolução humana

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Quando um livro conjuga a presença nas listas dos mais vendidos com a aclamação universal da crítica, sua migração para outras plataformas é o caminho inescapável. Mas pouco se vê um best-seller de não ficção seguir esses passos, o que demonstra a força do fenômeno “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade”, lançado pelo historiador israelense Yuval Noah Harari em 2011. A obra será transposta para uma edição em quadrinhos com quatro volumes. O primeiro foi lançado no final de 2020 e o segundo chega em outubro próximo, ambos editados no Brasil pela Quadrinhos na Cia., selo da Companhia das Letras. No horizonte do autor, um dos convidados da edição 2021 do Fronteiras do Pensamento – Era da Reconexão, está ainda a adaptação do livro em uma série de TV.

“Sapiens” foi traduzido para o inglês em 2014 e já vendeu mais de 16 milhões de exemplares em 60 idiomas. A proposta de Harari, e a razão de seu sucesso, foi combinar a erudição esculpida em anos de imersão acadêmica com a linguagem simples e didática. Levados pela mão por uma prosa saborosa, pais e filhos se viram fascinados com a narrativa que descreve a trajetória do homem sobre a Terra: como o primata que um dia ergueu-se sobre duas pernas evoluiu como mais um animal lutando pela sobrevivência na parte de baixo da cadeia alimentar, aprendeu a usar as mãos para criar ferramentas e não parou mais, até transformar-se no ser racional e complexo capaz de amarrar os sapatos, construir espaçonaves para explorar o infinito e armas capazes de aniquilar seus semelhantes num apertar de botão. É uma história sustentada por evidências científicas e também aberta a suposições para preencher lacunas, o que a deixa ainda mais intrigante. 

Traduzir esta jornada em linguagem visual atraente e textos sintéticos (tradução de Érico Assis na edição nacional) foi o desafio a que se lançou Harari e seus parceiros, o desenhista francês Daniel Casanave e o roteirista belga David Vandermeulen. Nos agradecimentos do primeiro volume, “Sapiens – O Nascimento da Humanidade”, o historiador credita à dupla a iniciativa do projeto: “Foi a genialidade dos dois que nos permitiu recontar a história humana de uma perspectiva inovadora. O humor e a inteligência de ambos tornaram esta experiência muito proveitosa. Trabalhar juntos foi pura diversão”.

Em recente entrevista ao jornal espanhol El País, Harari comentou: “Esse tipo de apresentação é mais acessível e divertida. Em tempos de pandemia, é extremamente importante fazer um esforço para levar o conhecimento tecnológico a um público amplo, para não deixar espaço para as teorias da conspiração. A ciência, a realidade, é muito difícil de explicar e, enquanto isso, circula o boato de que Bill Gates criou o vírus em um laboratório para controlar o mundo. É vital que os cientistas encontrem maneiras mais interessantes de se comunicar para chegar às pessoas”.

Este humor a que Harari se refere é um dos recursos que ajudam a fazer do gibizão uma obra distinta do livro. O traço cartunesco de Casanave e as tiradas espirituosas que Vandermeulen buscou no texto original conduzem as aventuras de personagens como o próprio Harari, sua pequena sobrinha Zoe, a bióloga Saraswati, o arqueólogo Klüg, o especialista em comunicação humana Dunbar e também uma antropóloga e geógrafa brasileira, doutora Duarte. Percorrendo diferentes regiões do mundo, a turma discorre sobre a formação das primeiras formas de vida na Terra e os fatores que fizeram o homo sapiens sobreviver como a única espécie humana. Este salto para o topo da cadeia alimentar foi espetacular. O homem deixou de ser um habitante sem maior brilho da fauna primitiva para tornar-se o soberano do mundo.

Esta abordagem multidisciplinar, inter-relacionando diferentes campos da ciência, observando o presente e especulando o futuro a partir do que sabemos sobre o nosso passado, projetou “Sapiens” entre os livros convencionais de história. Assim, diz o guia Harari, não dá para entender a Revolução Francesa sem antes compreender o processo de evolução dos seres humanos, impactados, como todos os animais, pelas leis da física, da química e da biologia.

Ao longo da HQ, os autores lançam mão de criativos recursos para fisgar os leitores. A menina Zoe aprende em cards do tipo Trunfo que seis espécies de humanos eram contemporâneas, há cerca de 50 mil, e o homo sapiens restou como sobrevivente por reunir características e habilidades mais especiais. Entram em cena ainda figuras como Bill Pré-Histórico e Dra. Ficção. Ele é personagem de uma história dentro da história, representando as primeiras inquietações existenciais na era da pedra lascada. Ela, por sua vez, surge para ajudar a destrinchar o conceito da criação dos mitos e das narrativas ficcionais, que Harari defende como responsáveis por um grande passo na escalada evolutiva – teve início por volta de 70 mil anos atrás, com a revolução cognitiva, e permitiu ao sapiens formar com desconhecidos, a partir de crenças e ritos em comum, fundamentos das religiões, grupos colaborativos maiores e dar início ao processo de dispersão a partir do continente africano.

Outras abordagens investem no bom humor, como a propaganda que anuncia as vantagens do fogo ao “homo gastronomicus” e a sequência que presta homenagem ao ilustrador americano Norman Rockwell, emulando seu traço para contar como a fofoca tornou-se uma engrenagem importante das relações sociais. E outra que compara a estrutura organizacional dos chimpanzés com o mundo político: machos que disputam a liderança do bando buscam apoiadores em campanha sustentada por troca de favores, abraços, carinhos, tapinhas nas costas e beijos em bebês.

Este primeiro volume parte do Big Bang, há 13,8 bilhões de anos, e tem como epílogo o julgamento do homo sapiens em um tribunal de Nova York, acusado de deixar como pistas no seu rastro civilizatório a extinção de muitas espécies de outros animais e de importantes ecossistemas. O trailer da próxima “temporada” promete revelar como a revolução agrícola, com o trigo no papel protagonista, escravizou a humanidade e pôs fim à vida nômade dos caçadores e coletores.

Em meio ao lançamento dos quatro volumes da versão em quadrinhos de “Sapiens”, pode tomar forma o projeto de adaptação do livro para uma série documental, anunciado em 2018. À frente dele estão os cineastas Ridley Scott, como produtor, e Asif Kapadia, no posto de diretor e roteirista – ele é um documentarista reconhecido pelos filmes sobre a cantora Amy Winehouse, ganhador do Oscar da categoria, o piloto Ayrton Senna e o jogador de futebol Maradona. Desde o anúncio, porém, pouco se divulgou sobre o andamento da adaptação.