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Mais importa o que você faz com o cérebro que tem

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Foto: Pexels/Ana Shvets
Foto: Pexels/Ana Shvets

Desde quando se descobriu que o cérebro serve para alguma coisa, a humanidade tem fixação com o seu tamanho. Intuitivamente, faz sentido: quanto mais se tem de um recurso, mais se deve poder fazer com aquele recurso, certo?

E se o cérebro é o que nos torna inteligentes, flexíveis, não só prontos para tudo, mas também capazes de pensar antes no que poderá ser preciso eventualmente e se preparar para isso, então quanto mais cérebro, mais capaz deve ser uma espécie animal, e também um indivíduo, não?

Mais ou menos. Há 15 anos que eu estudo de que cérebros diferentes são feitos e que diferença isso faz. Entre espécies animais, me parece bastante claro que o tamanho do cérebro é irrelevante em termos de capacidade cognitiva, necessidade de sono e tempo de vida. Muito mais importante é o número de neurônios que compõem o cérebro e suas partes. É o número enorme de neurônios no córtex cerebral, por exemplo, que nos distingue dos outros animais, mesmo elefantes e baleias - e de quebra também explica nossa longa infância e longevidade.

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Se números enormes de neurônios custam tempo e energia, é de esperar que eles "sirvam" para alguma coisa - quer dizer, ofereçam alguma vantagem imediata ao portador. Afinal, é assim que boa parte dos biólogos espera que a evolução funcione: através da fixação ao longo de gerações de pequenas vantagens de valor adaptativo. Como, por exemplo, mais neurônios corticais.

Cinco anos atrás, descobrimos, para nossa surpresa, que mesmo camundongos criados em laboratório, todos de uma mesma ninhada, são bastante diversos em tamanho e número de neurônios, mas os animais com os maiores córtices não são necessariamente os que têm mais neurônios corticais.

Kleber Neves e Gerson Guércio, ambos na época jovens aspirantes ao doutorado, apareceram então na minha sala para perguntar: "Mas, ainda assim, os animais com mais neurônios poderiam ter alguma vantagem cognitiva, mesmo sem o cérebro ser maior, não poderiam? Nós queremos testar isso".

Ah, que delícia é ter jovens inquisitivos no laboratório. Poucos anos e mais de 30 camundongos cuidadosamente testados depois, em colaboração com o professor Rogério Panizzutti, da UFRJ, temos uma resposta: não. Nem mesmo um pouquinho. O número exato de neurônios no cérebro de um indivíduo não prediz quão bom será seu desempenho em um teste. O estudo acaba de sair na revista Neuroscience Letters.

É o tipo de resultado que revistas científicas não acham titilante, mas eu adorei. Soa tão igualitário: mais importante não é o cérebro com que você nasceu, mas o que você faz com ele.

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(Via Folha de S.Paulo)