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Notas e lições de Harari sobre uma pandemia em curso

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Julho de 2020. É cedo para uma avaliação precisa do impacto sanitário, econômico e político provocado pela recente crise do coronavírus no mundo, reconhece Yuval Noah Harari. “Haverá tempo suficiente no futuro para escrever essa história”, diz o historiador israelense no prefácio em “Notas sobre a Pandemia – E Breves Lições para o Mundo pós-Coronavírus”, livro lançado no Brasil pela editora Companhia das Letras. Mas no calor do grave momento, o conhecimento do historiador israelense sobre a jornada da humanidade do passado ancestral até aqui e as projeções que vislumbra para a sociedade do futuro fazem dele uma voz de referência para compreender melhor este instável presente.

Estas notas e breves lições, formatadas sobre as informações disponíveis à época e, mais relevante, sobre o que a história e a ciência ensinaram a partir de experiências similares pregressas, estão reunidas em um enxuto volume com seis artigos e entrevistas de Harari. Olhado em conjunto, o material por vezes é reiterativo em algumas análises. São opiniões publicadas e veiculadas em março e abril daquele ano, quando a doença com epicentro na China começava a se espalhar por outros países, os cientistas corriam para desenvolver vacinas e os governantes batiam cabeça avaliando o que fazer na iminência da nova peste cruzar suas fronteiras: investir na ciência, contar com a sorte ou negar a realidade foram algumas das opções, cada qual mostrando logo adiante resultados bons e desastrosos.

Um dos convidados da edição 2021 do Fronteiras do Pensamento – Era da Reconexão – sua conferência será no dia 10 de novembro –, Harari avisa na apresentação de “Notas sobre a Pandemia”: “Alguns dos detalhes mencionados nestes artigos já foram superados pelos eventos, mas acredito que as mensagens essenciais só se tornaram ainda mais relevantes”. De fato, a corrida pelas vacinas, que ainda não se sabia como e quando terminaria, bateu o recorde mundial e resultou em diferentes tipos de imunizantes. Também já se sabe que medidas como o lockdown e o isolamento social para enfrentar a disseminação da covid-19 foram reguladas por acertos e erros dos gestores públicos e por forte pressão financeira, dado os seus efeitos sobre o emprego e a renda das pessoas.  

Seguem em aberto, porém, outras questões lançadas pelo autor dos best-sellers “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade” e “Homo Deus – Uma Breve História do Amanhã”. Consagrado mundialmente por combinar nas obras citadas profundidade acadêmica e prosa saborosamente didática, Harari alertava, por exemplo, para a importância de uma cooperação global que não apartasse países pobres dos progressos científicos em curso. Também recomendava que a crise econômica decorrente da paralisação de atividades fosse mitigada nas regiões mais carentes com o suporte das nações mais ricas.

Não foi o que se viu e não é o que se vê. As vacinas que abundam em alguns lugares faltam em outros, fazendo a imunização coletiva caminhar em passos desiguais. A consciência da ação individual voltada ao bem-estar comum de uns convive com a postura negacionista e individualista de outros. A desigualdade social foi escancarada. As tentativas de volta à normalidade apontam o caminho da luz, mas seguem eclipsadas pela ameaça de novas variantes mais potentes do coronavírus. 

“O maior risco que enfrentamos não é o vírus, mas os demônios interiores da sociedade: o ódio, a ganância e a ignorância”. Podemos reagir à crise propagando o ódio: por exemplo, culpando estrangeiros e minorias pela pandemia. Podemos reagir à crise estimulando a ganância: por exemplo, explorando a oportunidade para aumentar os lucros, como fazem as grandes corporações. E podemos reagir à crise disseminando ignorância: por exemplo, espalhando e acreditando em ridículas teorias da conspiração. Se assim reagirmos, será muito mais difícil lidar com a crise atual, e o mundo pós-covid-19 será um mundo desunido, violento e pobre”, argumenta Harari.

Em um dos artigos, publicado no site da revista Time, Harari chama a atenção para a falta de lideranças políticas mundiais na frente do combate ao coronavírus. Ao traçar um histórico sobre as pandemias que abalaram o mundo, entre elas a peste negra, no século 14, e a gripe espanhola, no começo do século 20, ele pondera que o crescimento populacional e a maior eficácia dos sistemas de transporte não lançou a humanidade em um “inferno infeccioso, padecendo de uma sucessão de pragas mortais”. Para Harari, médicos e cientistas estão em vantagem na corrida armamentista contra os patógenos por contarem com recursos tecnológicos e informações indisponíveis décadas atrás, razão pela qual as respostas às ameaças costumam ser rápidas e o índice de letalidade é bastante inferior ao visto em episódios históricos anteriores.

Mas esse processo evolutivo acaba prejudicado quando uma crise sanitária de grande envergadura não revela governantes que possam inspirar, organizar e financiar uma resposta global organizada. A referência negativa de Harari à época era o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que adotou como bandeiras o negacionismo e o isolacionismo, além de romper o apoio do país à Organização Mundial da Saúde (OMS): “O vazio deixado pelos Estados Unidos não foi preenchido por nenhuma outra nação. Xenofobia, isolacionismo e desconfiança agora caracterizam a maior parte do sistema internacional. Sem confiança e solidariedade globais não seremos capazes de parar a epidemia do coronavírus, e é provável que enfrentemos mais epidemias desse tipo no futuro”.

Com sua verve espirituosa, Harari comenta, entre referências históricas e dados científicos, elementos comportamentais que moldaram a relação da humanidade com as doenças infecciosas: do hábito revolucionário de lavar as mãos à compreensão de que tragédias sanitárias não são um castigo divino ou uma interferência diabólica, com o suplício e a morte aceitos de forma resignada em troca de uma pós-vida serena na eternidade. “Até a chegada dos tempos modernos, os humanos geralmente atribuíam as doenças à fúria dos deuses, à ação de demônios malignos ou ao ar malfazejo, e nem sequer suspeitavam da existência de vírus e bactérias. Acreditavam em fadas e anjos, mas jamais imaginariam que uma única gota de água pudesse conter uma armada inteira de predadores mortais. Assim, quando a peste negra ou a varíola fizeram uma visita, a melhor ideia que ocorreu às autoridades foi organizar grandes orações a deuses e santos. Não ajudou. De fato, quando uma multidão se junta para rezar, o resultado costuma ser infecção em massa.

Políticos autoritários e populistas, avalia, representam um perigo não apenas por bloquear o fluxo livre de informações, mas também solapar a confiança na ciência. “Esses políticos orientam os seus seguidores a não acreditar no que os cientistas afirmam sobre mudança climática ou mesmo vacinas. (...) Numa época de crise, precisamos que as informações fluam livremente e que as pessoas confiem nos cientistas e não em políticos demagogos”.

Monitoramento sob a pele

Se algumas das prospecções de Harari já puderam ser avaliadas na prática, outras seguem instigantes. É o caso das medidas de monitoramento da população adotadas em países como a China. Rastreamento de movimentos via GPS do telefone celular, câmeras de reconhecimento facial espalhadas pelas ruas e verificação constante de temperatura e quadro clínico permitem às autoridades acompanhar as pessoas e aquelas com quem elas se relacionam em seu dia a dia. A questão para o autor é que governos pouco simpáticos à democracia podem usar o poder dos algoritmos para cercear liberdades individuais. “Pode-se argumentar que não há nada de novo nisso tudo. Nos últimos anos, governos e corporações têm usado as tecnologias mais sofisticadas para localizar, monitorar e manipular pessoas. No entanto, sem o devido cuidado, a epidemia pode vir a ser um divisor de águas na história da vigilância. Não apenas por normalizar o emprego de ferramentas de monitoramento em massa em países que até agora as têm rejeitado, mas principalmente por implicar uma transição drástica de um monitoramento ‘sobre a pele’ para um monitoramento ‘sob a pele’”.

Harari elabora este modelo de comparação para diferenciar o rastreamento por meio de ações do usuário, como os sites que acessa, os links em que clica e os lugares que visita, daquele possível de ser feito via acesso à temperatura corporal e à pressão da sanguínea, captadas no deslizar do dedo sobre a tela. “As tecnologias de monitoramento estão se desenvolvendo a uma velocidade desconcertante, e o que parecia ficção científica 10 anos atrás hoje já é notícia velha. Como exercício intelectual, considere o governo hipotético que resolva exigir que todo cidadão use um bracelete biométrico para monitorar a temperatura do corpo e os batimentos cardíacos 24 horas por dia. Os algoritmos saberão que você está doente mesmo antes de você saber, e também onde esteve, e quem encontrou. As cadeias de infecção poderiam ser drasticamente cortadas, e talvez suspensas por completo. É concebível que um sistema desse tipo encerrasse epidemia dentro de alguns dias”. 

O problema, defende Harari, é que “isso legitimaria um novo e tenebroso sistema de vigilância”, pois “se você puder monitorar o que anda acontecendo com a minha temperatura minha pressão sanguínea e meus batimentos cardíacos (...) será capaz de descobrir o que me faz rir, o que me faz chorar e o que me deixa com muita, muita raiva. Se corporações e governos começarem a recolher nossos dados biométricos em massa, podem acabar nos conhecendo melhor do que nós mesmos, tornando-se capazes não apenas de prever nossos sentimentos, mas também de manipulá-los e nos vender o que bem desejar – seja um produto ou um político. Imagine a Coreia do Norte em 2030, quando todo cidadão for obrigado a usar um bracelete biométrico 24 horas por dia. Se estiver ouvindo o discurso do Grande Líder e o bracelete captar sinais típicos de raiva, é o fim da linha para você”. 

Este futuro pode ser menos temerário, diz Harari, se o monitoramento biométrico for uma medida temporária, acionada apenas em situação de emergência. “Mas medidas temporárias têm um péssimo hábito de sobreviver às emergências, especialmente quando há sempre uma nova espreitando no horizonte”. Defensor do conhecimento compartilhado, ele defende: “Uma população bem informada agindo por conta própria costuma ser muito mais poderosa e efetiva do que uma população ignorante e policiada”.

*Marcelo Perrone é jornalista e editor de conteúdo do Fronteiras do Pensamento