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O ativismo e a tradição na arte de Ai Weiwei

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Crédito da imagem: Ai Weiwei Studio
Crédito da imagem: Ai Weiwei Studio

Por Júlia Corrêa*

Em conferência realizada na cidade de Turim, em 2003, o crítico literário George Steiner sentenciou: “Aqueles que queimam livros, que banem e matam poetas, sabem exatamente o que fazem”. O mesmo pode ser dito em relação à arte e aos artistas. De acordo com Steiner, os livros causam temor aos tiranos pelos efeitos totalmente díspares que têm sobre os leitores. Do mesmo modo, uma obra de arte é capaz de provocar a ira de poderosos na medida em que a experiência estética, sempre única e imprevisível, escapa a controles rígidos.

Não é difícil supor, portanto, o impacto que a atuação de um criador como Ai Weiwei pode ter em seu país. Embora o regime chinês tenha tentado tolher a sua liberdade, ele conseguiu tornar-se, com sua produção, o artista mais popular do mundo, segundo levantamento de 2020 da publicação The Art Newspaper.

“Cedo eu soube que toda a arte é subversiva para os tiranos”, declarou Ai Weiwei à imprensa portuguesa. Nos 32 anos do Massacre da Praça da Paz Celestial, em Pequim, quando diversos civis foram mortos pelo governo, o artista inaugurou, no início deste mês, uma grande exposição em Portugal — país onde decidiu se estabelecer mais recentemente, depois de períodos de exílio em lugares como a Inglaterra e a Alemanha. 

Quem visitou, em 2018, a exposição do artista no Brasil, intitulada “Raiz”, poderá lembrar de obras como "S.A.C.R.E.D", composta por seis dioramas nos quais ele retrata os 81 dias que foi levado a passar em uma prisão secreta de seu país. Ou então de “Florescer”, que remete ao período em que o artista, com o passaporte confiscado pelo regime chinês, punha flores na cesta de uma bicicleta do lado de fora de seu estúdio, em uma ação diária que originou uma ampla campanha virtual por liberdade.

A exposição em Lisboa, na Cordoaria Nacional, chamada “Rapture”, inclui obras como essas que já estiveram no Brasil e também apresenta criações inéditas do artista dissidente chinês, sob curadoria do brasileiro Marcello Dantas. Entre elas, “Odisseia”, um painel de azulejos no qual ele representa os refugiados da atualidade, e “Pendente”, um grande rolo de papel higiênico em mármore, remetendo ao medo da escassez do produto quando da eclosão da pandemia. 

O ativismo de Ai Weiwei une-se ao resgate que faz das tradições culturais chinesas. Sobre esses diferentes registros presentes em sua produção, ele afirmou também à imprensa que a raiz de seu trabalho é sempre a compreensão do passado e que vê a arte como uma chave privilegiada para essa percepção. Trata-se de uma observação que vai ao encontro do que afirmou quando veio ao Fronteiras do Pensamento, em 2018, sobre a necessidade que a humanidade tem de “ver algo visualmente” para acreditar nos acontecimentos. 

Na ocasião, Ai Weiwei também destacou os diferentes tipos de violência que afetam os indivíduos e apontou a que considera a pior delas: a de viés político que não necessariamente “nos faz ver sangue” e que pode até coexistir com uma suposta vida pacífica. São violências desse tipo, segundo o artista, que “destroem diretamente os nossos sentimentos e crenças”. Se, como ele sugere, devemos nos defender dessas agressões com ideias fortes e poderosas, resgatando a nossa noção de humanidade, a sua própria arte, que pode ser vista agora em Lisboa, parece oferecer uma oportunidade para apurarmos nossa consciência e nossos sentidos.


* Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)