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Orhan Pamuk e os modos como um romance nos afeta

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Por Júlia Corrêa*

Em sua conferência para o Fronteiras do Pensamento, realizada em 2011, o escritor turco Orhan Pamuk, autor de obras como Istambul Meu Nome É Vermelhoabordou os mecanismos acionados em nossa mente quando lemos um romance (na época, ele lançava o livro O Romancista Ingênuo e o Sentimental). Assim como um motorista não percebe as operações que faz ao dirigir um carro, diz o autor, ignoramos frequentemente, pelo mesmo automatismo, os modos como um romance nos afeta.

Istambul

Uma história, segundo Pamuk, é absorvida pelo leitor à medida que tem acesso a objetos, imagens, descrições, conversas, fantasias, cenas e momentos. Se um romance é constituído pelo arranjo de tantos elementos como esses, somos remetidos ora especificamente a tais aspectos, ora à história como um todo. Desse modo, o prazer de ler uma narrativa longa consistiria no ato de assimilar palavras e transformá-las em imagens. E é desse ato que vem uma importante observação de Pamuk: “se o leitor não tiver nenhuma imaginação, o romancista desaparece”. Isto é, a leitura demanda um comportamento ativo por parte do público. 

A escritora britânica George Eliot, pseudônimo de Mary Ann Evans, bem sentenciou que “a arte é a coisa mais próxima da vida”, que “é um modo de aumentar a experiência e ampliar nosso contato com os semelhantes para além de nosso destino pessoal”. Com uma análise que vai ao encontro dessa ideia de proximidade da vida, Pamuk lembra que uma operação comum realizada pelos leitores é questionar o que uma história traz de real e o que traz de imaginação. “Nós fazemos tal pergunta sobretudo nas partes do romance que estimularam a nossa perplexidade, admiração ou estupefação”, diz o autor.  

Meu nome é vermelho

É precisamente essa ambiguidade, segundo ele, que torna os romances tão poderosos. Devido a essa mesma lógica “única”, “não cartesiana”, que aceita contradições, podemos olhar o mundo pelo ponto de vista de personagens com os quais não concordamos. Em livro cujo título remete às palavras de Eliot expostas acima (A Coisa Mais Próxima da Vida, 2015), o crítico literário James Wood complementa a ideia de Pamuk: “uma vez que essas pessoas que examinamos e perscrutamos são ficcionais e não reais, pertencem a um romance e não à vida, nosso escrutínio sempre se afasta do julgamento (do tipo moralista) e visa à proximidade, camaradagem, compaixão, comunhão”. 

Todo esse poder por trás dos romances é intensificado ainda por seu caráter igualitário e democrático, uma vez que possibilita o “sonho de obtermos o mais profundo e mais estimado conhecimento do mundo e da vida sem que precisemos enfrentar as dificuldades da filosofia ou as pressões sociais da religião, e de fazermos isso com base na nossa própria experiência”, complementa Pamuk. Além de nos lembrar de todas essas qualidades com o que expôs na conferência ao Fronteiras, o escritor o faz nos seus próprios romances, que não param de conquistar leitores pelo mundo. 


* Júlia Corrêa é jornalista e mestranda em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo (USP)