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Peter Sloterdijk: o cinismo e a nudez da verdade

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Theodor Adorno
Theodor Adorno

1969. O filósofo Theodor Adorno é impedido, por manifestantes, de subir ao palco da Universidade de Frankfurt, onde palestraria. As estudantes levantaram suas blusas, expondo seus seios ao autor de Teoria Estética, lançado no ano anterior ao protesto. Algo comum já na época, mas que suscitou, em Adorno, uma reação intrigante para seu conterrâneo Peter Sloterdijk: “Não foi a violência nua que emudeceu o filósofo, mas a violência da nudez", comenta Sloterdijk.

Tornar o corpo uma forma de violência emudeceu Adorno, mas deu luz ao pensamento de Sloterdijk, exposto na obra Crítica da razão cínica, o maior best-seller alemão de filosofia desde a Segunda Guerra Mundial.

Neste breve excerto do livro, Sloterdijk fala sobre esta transformação social e comenta o porquê dela ter lhe estimulado - sobre como a verdade, em uma sociedade cuja cultura é constituída por encobrimentos, surge de um desnudamento agressivo e involuntário.

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Devem ter notado: há um rastro de consideração exagerada na fundamentação para que ela possa ser totalmente verdadeira. Aceito a impressão de que se trataria de uma tentativa de salvação para o “Esclarecimento" e para a Teoria Crítica; os paradoxos do método salvador cuidam para que essa não permaneça como uma primeira impressão.

Se parece de início que o Esclarecimento desembocaria na desilusão cínica, então a página é logo virada e a investigação do cinismo se transforma na fundamentação de uma boa ausência de ilusões. O Esclarecimento sempre significou, de saída, desilusão no sentido positivo e, quanto mais se progride, tanto mais próximo se acha um instante no qual a razão nos conclama a tentar uma afirmação.

Uma filosofia a partir do espírito do sim também inclui o sim ao não. Não se trata nesse caso de nenhum positivismo cínico, de nenhuma atitude “afirmativa". O sim, que tenho em vista, não é o sim de um vencido. Se se esconde nele algo da obediência, então seria da única obediência que podemos supor em relação a homens esclarecidos, a obediência a uma experiência própria.

A neurose europeia concebe a felicidade como uma meta e o empenho racional como caminho até ela. É preciso quebrar sua compulsão. É preciso dissolver o vício crítico do aprimoramento, e isso em favor do bem, do qual desviamos tão facilmente em longas marchas. De maneira irônica, a meta do empenho maximamente crítico é o deixar-se levar mais desprendido.

Não muito tempo antes da morte de Adorno, houve uma cena em um auditório da Universidade de Frankfurt que se ajusta como uma chave à análise do cinismo aqui iniciada.

O filósofo estava justamente em vias de começar sua preleção, quando um grupo de manifestantes o impediu de subir ao tablado. Algo desse gênero não era incomum no ano de 1969. Nesse caso, porém, algo obrigou as pessoas a olharem mais atentamente. Entre os desordeiros, se fizeram notar algumas estudantes que, em protesto, desnudaram seus seios diante do pensador.

De um lado, achava-se a carne nua, que exercia uma “crítica", de outro, o homem amargamente desiludido, sem que praticamente nenhum dos presentes tivesse experimentado o significado de crítica – cinismo em ação.

Não foi a violência nua que emudeceu o filósofo, mas a violência da nudez. Justo e injusto, verdadeiro e falso foram misturados nessa cena de maneira inextrincável, de uma maneira que é pura e simplesmente típica para cinismos. O cinismo ousa se mostrar com verdades nuas, que mantêm algo falso no modo como são expostas.

Onde encobrimentos são constitutivos de uma cultura, onde a vida em sociedade está submetida a uma compulsão à mentira, na efetiva enunciação da verdade surge um momento agressivo, um desnudamento involuntário. Todavia, o impulso ao desentranhamento é, em longo prazo, o mais forte.

Em primeiro lugar, a nudez radical e o desvelamento das coisas nos livram da compulsão para a imputação desconfiada. Querer aceder à “verdade nua" é um tema da sensibilidade desesperada, que se dispõe a rasgar o véu das convenções, mentiras, abstrações e discrições a fim de chegar às coisas mesmas. Quero perseguir este tema. Uma mistura de cinismo, sexismo, “objetividade" e psicologismo forma a atmosfera na superestrutura do Ocidente: uma atmosfera de crepúsculo, boa para corujas e para a filosofia.