Voltar para Artigos

Susan Pinker tem o segredo da vida

(foto: The Human Longevity Project)
(foto: The Human Longevity Project)

Quando falamos sobre longevidade, há uma triste estatística à espera de ser explicada pela ciência: as mulheres vivem, em média, até oito anos mais do que os homens. Compreender por que isso acontece pode ser uma chave para expandir tanto nosso tempo quanto nossa qualidade de vida. 

Foi isso que Susan Pinker fez. A psicóloga canadense, próxima e última conferencista desta temporada do Fronteiras do Pensamento, foi visitar a Sardenha, país que revela uma feliz particularidade: lá, os homens vivem tanto quanto as mulheres. 

O trabalho de Pinker sobre os sardos trouxe novas luzes para o mundo contemporâneo e nos aponta caminhos para melhorarmos as estatísticas. É o que explica Carlos Alexandre Netto, neurocientista, professor da UFRGS e Membro da Academia Brasileira de Ciências. Confira abaixo:



Susan Pinker tem o segredo da vida | Carlos Alexandre Netto

A expectativa de vida da população está crescendo e, no Brasil, ultrapassou os 75 anos. Com o rápido aumento da longevidade no século passado, a sociedade precisou encarar com outros olhos o fenômeno do envelhecimento. Hoje, hábitos de vida, perspectivas de realização e vontade de viver definem os jovens sexagenários, e muitos buscam o envelhecimento sadio, isto é, maximizar o tempo vivido livre de doenças crônicas e com alguma autonomia.

Há uma característica particularmente intrigante no envelhecer: as mulheres vivem, em média, até oito anos mais do que os homens. Mas na Sardenha, uma ilha na costa italiana, a realidade é outra: os homens são tão longevos quanto as mulheres. Lá, há seis vezes mais pessoas centenárias do que na Itália como um todo e 10 vezes mais do que nos Estados Unidos.

A Sardenha é uma das cinco Zonas Azuis, termo utilizado por especialistas para designar locais no mundo onde a longevidade ultrapassa a marca dos cem anos de idade. Para tentar entender a superlongevidade, a psicóloga canadense Susan Pinker, professora da prestigiosa Universidade McGill e conferencista do Fronteiras do Pensamento, foi conhecer como vivem os moradores da pequena Villagrande, cidade no epicentro da Zona Azul da Sardenha, e compartilhou sua experiência no livro The Village Effect: Why Face to Face Contact Matters (publicado em 2014, ainda sem tradução para o português).

Visitando centenários, que vivem em suas próprias casas, e discutindo com estudiosos que seguem essa população, Pinker descobriu que fatores usualmente pesquisados não são determinantes da longevidade: a genética parece influenciar não mais do que 25%; e a dieta mediterrânea não difere daquela das cidades costeiras italianas, mesclando vegetais com boa dose de carboidratos e de proteína animal, além do vinho tinto. Por outro lado, confirmou que muitos trabalharam até os 90 anos, ou mais, na cidade e nas encostas da montanhosa região, o que lhes garantiu atividade física moderada e constante.

O único fator comum na vida de todos os visitados é sua vida social, o contato e o cuidado diário que recebem de familiares, dos vizinhos e dos demais membros da comunidade. Há um forte senso de pertencimento àquela vila, àquela comunidade; todos parecem sentir-se incluídos. Essa marca cultural é tradição e os que hoje cuidam dos mais velhos, sejam filhos, sobrinhos ou netos, o fazem verdadeiramente motivados.

Interagir, conversar e viver em família, apesar de serem hábitos simples, podem ter efeitos poderosos sobre o organismo, especialmente sobre o cérebro. Estudos da neurociência demonstram que, ao interagir face a face, áreas específicas do cérebro envolvidas com a atenção, a inteligência social e a recompensa emocional são ativadas. Ainda, o contato face a face causa a liberação de hormônios como a oxitocina, associada à confiança, e a beta-endorfina, uma das mediadoras da sensação de bem-estar, bem como diminui os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. É possível inferir que, além de alimentação, água e sono, o genuíno contato humano é necessário para sobreviver com boa qualidade de vida.

Ao voltar o olhar para o cotidiano e observar como as pessoas a nossa volta se relacionam, nos damos conta de que há muito que aprender com os centenários italianos. Paradoxalmente, ou nem tanto, nesta era digital dominada pelas mídias sociais, é comum observar grupos de adolescentes ou casais não muito jovens em restaurantes conversando com os olhos fixos nas telas dos telefones celulares.

Pesquisas de opinião revelam que as pessoas passam até 10 horas diárias nas redes sociais e navegando na internet. Assim, não surpreende o fato de que, na Inglaterra, um terço das pessoas com mais de 65 anos declare não ter outra pessoa a recorrer em caso de necessidade, e que percentual semelhante de jovens com menos de 25 anos se sinta desconectado das pessoas ao seu redor. É o silêncio ensurdecedor da solidão.

A doutora Pinker defende que o contato pessoal e a consciência de não estarmos sós são um imperativo biológico e que todos podem construir "sua própria vila". Construir relações pessoais em todos os ambientes e cultivá-las pelo contato frequente e afetivo, usando as tecnologias para aproximar-se e aumentar as interações face a face. 

Talvez, seja esse o segredo para viver mais e melhor.

(Via Gaúcha ZH)