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Werner Herzog e o cinema como o sentido da vida

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Por Miguel Forlin

Em 2019, Werner Herzog completou 57 anos de carreira com o mesmo entusiasmo de seu início, o que ficou claro para todos que tiveram a honra e o privilégio de acompanhar suas conferências para o Fronteiras do Pensamento, no segundo semestre daquele ano. Um dos conferencistas daquela temporada, que tinha como tema O Sentido da Vida, o cineasta responsável por alguns dos melhores filmes das últimas décadas, como Aguirre, a Cólera dos Deuses (1972), O Enigma de Kaspar Hauser (1974), Stroszek (1977), Fitzcarraldo (1982) e tantos outros, falou empolgadamente para uma plateia atenta e interativa.

No entanto, quem esperava elucubrações filosóficas sobre uma das maiores e principais dúvidas da existência humana pode ter se surpreendido com a apresentação do diretor. Sem ter em nenhum momento recorrido à reflexão abstrata, Herzog falou quase que única e exclusivamente de cinema, porém, não teoricamente, e sim de exemplos práticos e reais, retirados de seu próprio corpo de trabalho: para discorrer acerca das facilidades logísticas provenientes das câmeras digitais, usou um trecho de um de seus trabalhos mais recentes, o longa-metragem Uma História de Família (2019); para falar do emprego de trilha sonora, mostrou um momento de Meu Filho, Olha o que Fizeste! (2009); e para ilustrar como certas ideias podem surgir repentinamente durante a realização de um filme, exibiu a famosa cena da iguana de Vício Frenético (2009).

Embora possa parecer estranho à primeira vista, esse direcionamento discursivo encontra total ressonância na maneira como Herzog aborda a vida e o cinema. Um dos principais expoentes do Novo Cinema Alemão ― movimento seminal que fez com que a Alemanha, uma década e meia após o fim da Segunda Guerra Mundial, se transformasse novamente num dos países mais relevantes do cenário cinematográfico internacional ―, Herzog sempre foi uma figura atípica, mesmo entre os diretores extraordinários. Descrito certa vez por François Truffaut como “o mais importante diretor vivo”, Herzog é, sem dúvida, um caso particular.

Porém, ao afirmar isso, não me refiro à sua fama de megalomaníaco, nem às inúmeras histórias que são contadas a seu respeito, muitas delas folclóricas. Usado extensivamente por críticos, esse expediente interpretativo é somente um recurso supérfluo e preguiçoso para tentar explicar o que parece exótico. Não, a atipicidade do cineasta decorre majoritariamente de seu espírito aventureiro, desbravador e excêntrico, o qual une a vida e o cinema num todo inseparável e conexo. Tratando-se de Herzog, falar de cinema é falar da vida.

É revelador que, logo no início da série de entrevistas que deu origem ao excelente livro Herzog on Herzog (2002), quando indagado sobre o exato momento em que percebera que seria diretor, Herzog respondeu dizendo saber que faria isso desde que pôde pensar independentemente, completando que, para ele, não havia escolha, pois o cinema se impusera como o único caminho possível. Nessas poucas e precisas palavras, torna-se evidente como o começo do desenvolvimento de sua personalidade e a finalidade vocacional à qual ela se dedicaria se interligaram indissoluvelmente.



Entretanto, são nos desdobramentos de sua biografia que essa relação se revela inteiramente. Viajante compulsivo e conhecedor de vários países e culturas, Herzog é um artista muito mais intuitivo do que intelectual. Muitos de seus filmes, personagens e histórias provêm dos lugares aos quais ele viaja. Seja no emaranhado verdejante da Amazônia, seja na imensidão seca, vazia e dourada do Saara, Herzog costuma registrar cinematograficamente os diferentes locais que visita e os tipos humanos (reais ou imaginados) que neles vivem alguma experiência.

Daí que a ideia de falar apenas de cinema numa palestra dedicada ao significado da vida não seja surpreendente. Pelo contrário, nessa opção encontra-se implícita a resposta do diretor ao questionamento que tanto intrigou e intriga filósofos e cientistas. Para Herzog, estar vivo é estar no mundo e filmá-lo. Seu itinerário biográfico é também seu itinerário artístico.  É por meio da realidade concreta, sensorialmente acessada pela presença física do cineasta, que sua obra se configura como uma cartografia de espaços geográficos e manifestações humanas.

Mas, ao falarmos de “realidade concreta”, à qual estamos aludindo? Assistindo aos seus filmes, é perceptível que Herzog se interessa tanto pelo que há de mais primitivo e primordial, ou seja, por aquilo que está na base do ser humano e da vida natural, quanto pelos extremos, situações febris em que os homens e a natureza enfrentam seus limites. A normalidade, ou o que aprendemos a chamar de normalidade no universo da técnica, localizada justamente entre o basilar e o limítrofe, não interessa artisticamente ao diretor, a não ser como contraste aos dois polos mencionados.

A realidade dos grandes centros urbanos, forjada por homens a fim de organizar a vida em sociedade ― e, portanto, mais refinada intelectualmente do que a basal e mais opressora de extremismos ― são, por oposição, uma espécie de alienação, uma forma de afastar o incontrolável ou contê-lo. Trata-se de uma forma legítima, claramente, mas, também, uma forma de fechar de olhos para o que, na maioria dos filmes de Herzog, em decorrência das experiências díspares de quem entra em contato com a imensa diversidade do mundo, é amplamente visível.

Geralmente, o que rompe essa redoma é o surgimento do imprevisível, como uma doença fatal, a morte ou uma catástrofe natural, em outras palavras, o incontornavelmente mundano, o que nos traz a um exemplo da impressionante e perene atualidade dos filmes de Herzog e dos seus ensinamentos, a qual brota do mesmo manancial da jovialidade vista nas palestras de 2019, quando falou de cinema como um garoto que parecia ter acabado de descobri-lo: na pandemia do Coronavírus, em que fomos retirados da “normalidade” por algo que, do alto de nossa arrogância tecnológica, imaginávamos contido pela ciência, nos aproximamos da realidade vista nos filmes de Herzog, na qual a humanidade se depara com extremidades e a intrínseca vulnerabilidade oriunda do seu incontornável primitivismo. Se estas nos surpreenderam ou ainda surpreendem, é porque não nos atentamos para o que Herzog, a partir do que ele vivenciou e registrou, nessa mistura de vida e cinema que é o imperativo vocacional de sua existência, nos mostra e ensina.