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Zygmunt Bauman: o medo dos refugiados

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"Os refugiados simbolizam, personificam nossos medos. Ontem, eram pessoas poderosas em seus países. Felizes. Como nós somos aqui, hoje. Mas, veja o que aconteceu hoje. Eles perderam suas casas, perderam seus trabalhos. O choque está apenas começando."

Em uma de suas últimas reflexões, Zygmunt Bauman analisou a crise dos refugiados a partir de um ângulo bastante diferente: de dentro. O que há em nós que nos cala diante de uma das mais graves crises humanitárias na história?

Na animação, narrada pelo próprio filósofo polonês, Bauman defende a hipótese de que os refugiados simbolizam nossos piores medos: a perda de tudo conquistado ao longo da vida, a pobreza inesperada, o fim da segurança. É impossível fingir que nada está acontecendo, diz o filósofo. Os refugiados aparecem ao nosso lado, "não conseguimos omitir suas presenças".

Em 2018, o Fronteiras do Pensamento aborda a questão a partir do olhar do artista. Já na primeira conferência do ano, Vik Muniz falou sobre seus trabalhos para a conscientização do que está acontecendo, lembrando que nosso próprio país é formado por esses fluxos migratórios. 

Outro artista convidado desta edição é o chinês Ai Weiwei, que tem feito do seu trabalho uma ferramenta para dar voz aos refugiados e que nos trouxe belas reflexões, como as apresentadas no documentário Human Flow. Também, no final 2017, na intervenção urbana Good Fences Make Good Neighbors, Weiwei instalou gaiolas no Central Park e pendurou banners com os rostos de refugiados pela cidade de Nova York.

É como diz Zygmunt Bauman, "não conseguimos omitir suas presenças". Mas, caso alguém consiga, parece que o trabalho da arte é garantir que todos enxerguem as mais urgentes e profundas questões humanitárias da contemporaneidade.

Assista à animação com Bauman abaixo.
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ZYGMUNT BAUMAN - POR QUE O MUNDO TEME OS REFUGIADOS

Estas pessoas que estão vindo agora são refugiados que não são famintos, sem pão ou água. São pessoas que, ontem, tinham orgulho de seus lares, de suas posições na sociedade, que, frequentemente, tinham um alto grau de educação e assim por diante. Mas, agora eles são refugiados. E eles vêm para cá. Quem eles encontram aqui? O precariado. O precariado vive na ansiedade. No medo. Nós temos pesadelos. Tenho uma ótima posição social e quero mantê-la.

"Precariado" vem da palavra francesa précarité que, em livre tradução, significa andar em areias movediças. Agora, surgem estas pessoas da Síria e da Líbia. Elas trazem esta ameaça de países distantes para nossas casas. De repente, eles aparecem ao nosso lado. Não conseguimos omitir suas presenças.

Os refugiados simbolizam, personificam nossos medos. Ontem, eram pessoas poderosas em seus países. Felizes. Como nós somos aqui, hoje. Mas, veja o que aconteceu hoje. Eles perderam suas casas, perderam seus trabalhos.

O choque está apenas começando. Não existem atalhos para o problema. Não existem soluções rápidas. Então, precisamos nos preparar para um tempo muito difícil que está chegando. Esta onda de imigração que aconteceu ano passado não foi a última. Há mais e mais pessoas esperando. Precisamos aceitar que esta é a situação. Vamos nos unir e encontrar uma solução.


- Assista também à entrevista exclusiva de Zygmunt Bauman ao Fronteiras do Pensamento
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