Voltar para Notícias

Arte, cultura e educação em debate na primeira conferência do Fronteiras do Pensamento 2018

"Você se sentir parte de alguma coisa é fundamental para você existir como ser humano. Todo mundo tem esse direito", diz Vik Muniz na abertura do Fronteiras POA

Na noite dessa segunda-feira (14), o artista plástico Vik Muniz e a atriz e escritora Fernanda Torres abriram o ciclo de conferências do Fronteiras do Pensamento 2018, propondo um debate sobre temas pertinentes da contemporaneidade: o papel da arte e da cultura em nossa sociedade.

Participe das próximas sete conferências do Fronteiras Porto Alegre: confira os novos valores dos pacotes

Oriundo de uma família pobre e com pouco acesso à arte, Vik Muniz iniciou sua fala relembrando a infância e trazendo à tona a questão da politização da arte e da produção artística. “Quando eu ouvia que o artista se manifestava em nome do povo, eu não sabia bem em que lado me colocar: se eu era do povo ou era intelectual”, declarou. Este tema persistiu ao longo de sua adolescência e da vida adulta, fazendo com que o artista buscasse, desde o início de sua trajetória, desenvolver um trabalho distante dessa representação política, no sentido de despertar no público uma sensação muito mais primitiva, que atingisse as pessoas independentemente de seu grau de instrução.

Garanta sua presença no Fronteiras do Pensamento São Paulo, que inicia nesta quarta (16)

O artista plástico define a arte como “[...] a evolução da interface entre a mente e matéria, entre o que está dentro e o que está fora de você. A gente tem trabalhado nessa evolução por mais de 60 mil anos e esse projeto é uma linha quase inquebrável, de uma evolução muito sólida, com algumas revoluções, como a invenção da perspectiva e a invenção da fotografia, mas que nos trazem aqui até hoje com a possibilidade de comunicar o que a gente sente e de contar uma história - a história da nossa civilização. Esse projeto parece que foi brutalmente interrompido há menos de uma década, depois da revolução digital. ”

Muniz declara que a invenção da fotografia foi a chegada de uma “ferramenta perfeita”, que mudou a relação das pessoas com o mundo. A fotografia como objeto trazia características tanto do mundo mental, traduzindo memórias, emoções e sentimentos, como características materiais: “Parece que a gente poliu essa barreira entre a mente e a matéria de uma forma que a gente chega numa membrana, que é a fotografia, e a digital chegou e simplesmente, como um alfinete, estourou essa membrana e a nossa relação com o mundo se tornou totalmente imaterial e intangível.”



Na conferência, que aconteceu no Salão de Atos da UFRGS, Vik Muniz e Fenanda Torres responderam às perguntas do público e do mediador, o jornalista Tulio Milman. Dentre elas, estava a Pergunta Braskem, enviada por nossos seguidores nos canais digitais. Confira abaixo:

Sua obra na bienal de Veneza falava sobre a questão dos refugiados, tema também trabalho por Ai Wewei, que vai estar aqui no Fronteiras. O que essa crise humanitária diz sobre o nosso mundo atual?

“Fui para Veneza há uns quatro anos e, na época, eles tinham terminado de fazer um projeto que se chamava Mare Nostrum, no qual eles monitoravam o Mediterrâneo para salvar as pessoas que tentavam atravessar e também por uma questão de inteligência, porque tem muita gente ganhando dinheiro mandando refugiados pelo Mediterrâneo.

A comunidade europeia acabou com esse projeto e eu pensei: é uma questão de tempo para que mais pessoas comecem a morrer. Era inverno e eu decidi fazer um barco de 16 metros de papel de jornal com notícias de um acidente que aconteceu, em que centenas de refugiados haviam morrido. Só que, do período em que eu fiz o barco até eu começar a mostrá-lo na Bienal de Veneza, morreram 1.050 pessoas em três acidentes diferentes.

A questão dos refugiados parece contemporânea, mas é uma questão antiga. Eu lembro que quando falei sobre isso na Itália, quando um italiano que era mais linha dura falou: “Mas por que a gente tem que ajudar essas pessoas?” Eu respondi que era de São Paulo e, em São Paulo dos anos 1930, a língua falada era o italiano. Ou seja, esses movimentos humanos, causados por guerras ou por fome, acontecem desde o começo da humanidade, mas agora eles foram transformados numa questão política. Eles são politizados e dividem a opinião da informação e a gente tem que começar a tentar entender a história desses movimentos e como eles aconteceram no passado. Por exemplo, nos Estados Unidos ou em Buenos Aires existiam lugares em que os refugiados eram recebidos, faziam uma triagem, cuidavam da saúde e eram tratados. Esses lugares não existem mais agora. A maneira como a gente está lidando com o problema mudou dramaticamente.”

Muniz relatou também sua própria experiência como imigrante ilegal nos Estados Unidos: “A ideia de você ter um lugar é muito importante. Você se sentir parte de alguma coisa é fundamental para você existir como ser humano. Todo mundo tem esse direito. A gente tem que entender quem está precisando e ver isso com mais empatia, além do problema político.”

O artista encerrou sua participação no debate destacando a importância da experiência de aproximação e distanciamento das obras de arte, ação que permite ao público contemplar a matéria – os materiais utilizados e visíveis na superfície -, e a parte mental por trás de cada obra: “Não é na parte material nem na mental que a experiência existe, mas justamente naquele momento em que acontece o sublime na arte: quando você sente a conexão entre o que está dentro e o que está fora.”